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Inflação perde ritmo, mas ainda preocupa BC e investidores

Inflação perde ritmo, mas ainda preocupa BC e investidores

IPCA acima do esperado foi visto por parte do mercado como um reforço às preocupações do BC

Por Maeli Prado/Folhapress

11/08/2026 às 19:15

Atualizado em 11/08/2026 às 19:11

Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil/Arquivo

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Banco Central do Brasil

A inflação desacelerou a 0,07% em julho, mas veio acima do esperado por economistas e ainda preocupa o Banco Central, mostram o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) e a ata do Copom (Comitê de Política Monetária) divulgados nesta terça (11).

O fato de o índice de preços ter vindo mais forte do que o projetado —a expectativa de especialistas ouvidos pela Bloomberg era de estabilidade— foi visto por parte do mercado como uma confirmação dos pontos de alerta colocados pelo BC (Banco Central) na ata. Isso ajudou o dólar a subir nesta terça e a derrubar a bolsa.

Economistas alertam que, apesar da desaceleração, o IPCA continua pressionado pela taxa de desemprego baixa e pela perspectiva de desvalorização do real em relação ao dólar.

"Apesar de a inflação ter registrado algum alívio em julho, o mercado de trabalho aquecido e a perspectiva de uma desvalorização do real tendem a manter os preços pressionados", apontou o banco C6 em relatório. "Nossa projeção é de que o IPCA encerre o ano em 5%, acima do teto da meta".

Na ata desta terça, o BC reconhece que os indicadores de mercado de trabalho e de preços apontam para inflação mais controlada. Mas ressalva que há riscos à frente, como a atividade econômica ainda aquecida e a possibilidade de choques de oferta, como a alta do petróleo e o El Niño, se espalharem.

Na última reunião, o Copom cortou a taxa básica (Selic) em 0,25 ponto percentual pela quarta vez seguida, a 14% ao ano. Com isso, a maioria dos analistas ouvidos pela pesquisa semanal Focus, do BC, espera que os juros encerrem o ano em 13,75%.

No documento, o BC enfatizou que os choques de oferta vêm exercendo influência significativa tanto sobre os preços atuais quanto sobre as expectativas de inflação e que reagirá com firmeza caso esses choques se espalhem pela economia.

"O Copom avalia que não deve reagir aos efeitos primários de choques dessa natureza, mas que é necessário monitorar com atenção eventuais efeitos de segunda ordem, e reagir com firmeza caso esses efeitos se materializem", diz a ata.

Para a equipe de macroeconomia do Itaú BBA, o Copom aponta com essa frase que os choques de oferta preocupam, mas que devem ser combatidos pela política monetária apenas se gerarem impactos secundários sobre os preços.

"Será importante acompanhar quais fatores estão sendo considerados nessa categoria e incorporados às projeções, possivelmente incluindo impactos relacionados ao El Niño e aos preços do petróleo", avaliou o banco em relatório.

Para o Bradesco, o documento mostra que o BC depende da continuidade de dados que apontem para o esfriamento da atividade e a desaceleração dos preços.

"A ata confirmou um Banco Central dependente de dados, sem se comprometer com a trajetória futura de juros, dado um contexto de elevada incerteza. O nosso cenário prevê continuidade da moderação da atividade e que a inflação corrente seguirá mostrando dissipação dos choques do primeiro semestre nos próximos meses, antes dos efeitos do El Niño", afirmaram os economistas do banco em relatório.

Na avaliação de Ivo Chermont, economista-chefe e sócio da gestora Quantitas, o BC reconheceu na ata a melhoria de indicadores macroeconômicos, como o mercado de trabalho e a inflação, o que reforça a leitura de cautela sobre os próximos passos da política monetária.

"Apesar de dizer que mercado de trabalho e inflação estão em patamares ainda altos, ele aponta que estão desacelerando", afirma. "Mas é importante ressaltar que a autoridade monetária prefere esperar uma série de dados para ter certeza do movimento."

Chermont acredita que a Selic encerrará o ano em 13,75%. Para ele, a ata mostra um BC que quer continuar cortando os juros, mas precisa de mais informação para ir além do corte já precificado pela maior parte do mercado para a próxima reunião, em setembro.

"Acho que para os cortes irem para a reunião de novembro será necessária a continuidade de dados fracos para o mercado de trabalho", diz o economista.

Ele lembra que dois eventos entre as reuniões de setembro e novembro podem mudar o cenário: as eleições presidenciais, que podem alterar as expectativas, e a reunião do Federal Reserve (banco central dos Estados Unidos). "É de se esperar que o BC seja bastante cuidadoso", afirma.

A taxa do IPCA de 0,07% é a menor para meses de julho em quatro anos, desde 2022, mas acumula alta de 4,44% em 12 meses. Assim, o índice continua abaixo do teto de 4,5% da meta de inflação perseguida pelo BC, mas deve voltar a crescer nos próximos meses.

"O IPCA veio um pouco mais alto que o projetado, com núcleos e inflação de serviços mais altos. Mas quando olhamos a trajetória, o número não invalida que houve desinflação", ressalva Luiz Fernando Cesário, economista-chefe da Asset 1. "A inflação passa por uma janela favorável, com queda de preços de alimentos e desaceleração na parte de serviços e bens industriais", afirma.

A expectativa da Asset 1 também é que os juros terminarão o ano em 13,75% ao ano. "O BC está em modo de calibragem do grau de aperto da política monetária", diz Cezário. "Para continuar a cortar, a inflação não pode surpreender para cima de forma relevante. Mas na nossa avaliação, até a próxima reunião o conjunto de dados será favorável a um novo corte".

Na avaliação do economista-chefe do C6 Bank, Felipe Salles, o BC reforçou a necessidade de uma postura de serenidade e cautela diante do fato de que as expectativas de inflação estão acima da meta, mas não fechou a porta para novos cortes de juros. O banco ressaltou a menção do BC aos choques de ofertas.

"Esse trecho sugere, por um lado, que o Comitê está atento a novas pressões sobre a inflação, mas, ao mesmo tempo, reconhece que uma alta da inflação apenas em função de uma elevação de combustíveis não seria preocupante", avalia Salles.

Em relatório, o BTG Pactual, que acredita em uma Selic em 13,75% no final do ano, apontou que a economia continua bastante aquecida.

"As ressalvas presentes no comunicado reapareceram na ata. O mercado de trabalho segue aquecido, com desemprego historicamente baixo e salários reais crescendo acima da produtividade; a inflação ainda é caracterizada como pressionada pela demanda; e todos os membros reiteraram que a desancoragem das expectativas exige uma restrição monetária maior e por mais tempo", disse o banco.

Leia também: Inflação é a menor para julho em 4 anos e fica abaixo do teto da meta, mas vem acima das projeções 

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