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Deslizamentos e enchentes no Nepal e no Tibete matam 160; há mais de 700 desaparecidos

Deslizamentos e enchentes no Nepal e no Tibete matam 160; há mais de 700 desaparecidos

Possíveis causas incluem terremoto que causou avalanche e derretimento de geleira agravado pela crise do clima

Por Manoella Smith e Victor Lacombe, Folhapress

26/08/2026 às 13:35

Atualizado em 26/08/2026 às 21:33

Foto: Reprodução

Imagem de Deslizamentos e enchentes no Nepal e no Tibete matam 160; há mais de 700 desaparecidos

Entre desaparecidos há ao menos 341 estrangeiros, segundo o governo nepalês

Enchentes catastróficas na região do Himalaia entre o Nepal e o Tibete mataram ao menos 160 pessoas nesta quarta-feira (26), segundo autoridades locais. Mais de 700 pessoas eram consideradas desaparecidas. Casas e estradas foram destruídas, pontes acabaram arrastadas pela correnteza e vilarejos inteiros ficaram submersos em lama.

A causa das enchentes não havia sido esclarecida, e a dimensão do desastre era incerta. Uma hipótese sugere que um terremoto teria atingido a região e provocado uma avalanche de gelo e rochas, causando as inundações. Outra afirma que, como consequência da crise do clima, um enorme bloco de gelo se desprendeu de uma geleira, resultando em avalanche e inundação.

A polícia nepalesa divulgou um boletim contabilizando 157 mortes até a tarde desta quarta, no horário de Brasília. No lado chinês da fronteira, ao menos três pessoas morreram após um deslizamento de terra que atingiu o porto de Gyirong, causando pânico e destruição.

Outras 265 eram consideradas desaparecidas na China após deslizamentos de terra, informou a emissora estatal CCTV, citando uma contagem preliminar das autoridades.

No Nepal, o gabinete do primeiro-ministro, Balendra Shah, informou que ao menos 484 pessoas estavam desaparecidas, das quais ao menos 341 eram estrangeiras. O grupo inclui 133 turistas da Índia, 47 dos Estados Unidos, 34 da Austrália, 33 do Reino Unido, 24 do Canadá, além de cidadãos de África do Sul, Coreia do Sul, Holanda e Malásia. Não havia confirmação de vítimas brasileiras até a última atualização deste texto, segundo o Itamaraty.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que equipes da organização e parceiros mobilizavam suprimentos e pessoal no Nepal para apoiar as comunidades impactadas.

A região atingida fica em uma rota bastante utilizada para chegar a Kailash Manasarovar, no Tibete, local visitado anualmente por centenas de peregrinos hindus e de outros países, especialmente nesta época do ano.

O premiê nepalês afirmou que equipes da polícia e do Exército se uniram aos esforços de resgate. O governo disse ter pedido ajuda aos seus vizinhos China e Índia para reforçar as operações.

No distrito montanhoso de Rasuwagadhi, no norte do Nepal, o transbordamento do rio Bhote Koshi impediu que helicópteros de resgate pousassem nas áreas mais atingidas de Syapru Besi e Timure. O Exército informou que as aeronaves só poderão operar no local quando o nível da água baixar.

Imagens exibidas pela televisão mostram casas destruídas, veículos sendo levados pela correnteza e uma ponte metálica sendo arrastada pela água. Testemunhas disseram à agência de notícias Reuters que a água das enchentes engoliu vilarejos inteiros.

"Há devastação para onde quer que a gente olhe", disse Tula Bahadur BK, agente de saúde em Rasuwagadhi. O administrador distrital (equivalente a prefeito), Narendra Pariyar, pediu que moradores que vivem às margens do Bhote Koshi deixassem as áreas mais baixas e procurassem locais elevados.

Também no Nepal, moradores das áreas atingidas de Nuwakot e Dhading se concentraram do lado de fora de um centro de treinamento do Exército. usado como base para as operações de resgate com helicópteros. Eles buscavam informações sobre familiares desaparecidos.

Policiais registravam os nomes das vítimas e dos desaparecidos na entrada do quartel, usando a luz dos celulares para iluminar o local. A região estava sem eletricidade após danos à infraestrutura.

Keshav Prasad Baral, 68, estava sendo tratado em um pequeno hospital depois de sobreviver à enchente. Ele disse ter visto uma enorme massa de lama avançar em sua direção. "À medida que [a lama] se aproximava, subia cada vez mais", afirmou. Quando a lama entrou em sua casa, tentou segurar a mão da mulher para levá-la ao terraço, mas ela foi arrastada.

Baral foi resgatado de helicóptero quatro ou cinco horas depois. A mulher, segundo ele, continua soterrada.

As autoridades alertaram também para a possibilidade de uma nova inundação. Um bloqueio ainda permanecia, na noite desta quarta, em um trecho de um afluente do Bhote Koshi, represando parte do curso d’água e aumentando o risco de uma nova onda de enchentes.

No Tibete, autoridades disseram temer "grandes perdas humanas", depois que um deslizamento de terra atingiu o porto de Gyirong, na fronteira entre os dois países. Imagens de câmeras de segurança mostram pessoas correndo segundos antes de a massa de terra atingir o local, soterrar veículos e destruir parte da estrutura.

O deslizamento também bloqueou estradas e interrompeu o fornecimento de energia na região. O porto está às margens do rio Kyirong Tsangpo, a cerca de 1.850 metros de altitude, no fundo de um desfiladeiro do Himalaia.

O Centro Alemão de Pesquisa em Geociências informou que um terremoto de magnitude 4,4 ocorreu cerca de sete minutos antes do horário registrado nas imagens de segurança da chegada da avalanche de lama e rejeitos no porto. Ainda não está claro, porém, se o tremor provocou o deslizamento.

Uma análise inicial de imagens de satélite da Planet Labs indicou que um deslizamento de neve e rochas atingiu o rio Bhote Koshi, a cerca de 20 km a nordeste da passagem de fronteira de Rasuwagadhi.

A enorme quantidade de água barrenta que desceu das montanhas também levou à emissão de alertas de inundação nos estados indianos de Bihar e Uttar Pradesh, que fazem fronteira com o Nepal. Diversos rios que nascem no Himalaia atravessam essas áreas em direção às planícies indianas.

O líder da China, Xi Jinping, pediu esforços totais nas buscas pelos desaparecidos, além do reforço dos sistemas de monitoramento e alerta antecipado para evitar novos desastres.

O Tibete é uma região étnico-cultural que se desenvolveu de forma distinta da China e cuja relação com Pequim é alvo de disputa histórica. Governado por diferentes dinastias chinesas, tornou-se vassalo da China no século 18, mas deixou de ser controlado na prática por Pequim após a queda da dinastia Qing, em 1912.

Em 1951, o Partido Comunista Chinês incorporou a região à China, argumentando, entre outras razões, a existência de uma estrutura feudal com servidão camponesa. O dalai lama Tenzin Gyatso fugiu para a Índia e passou a defender maior autonomia para o Tibete. Desde então, Pequim promove políticas de assimilação cultural e reprime movimentos religiosos e políticos tibetanos. O regime chinês, que chama a região de Xizang, rejeita acusações de "genocídio cultural" e considera a questão altamente sensível.

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