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Sem plano B, indústria projeta perdas e fala em demissões com novas taxas dos Estados Unidos

Sem plano B, indústria projeta perdas e fala em demissões com novas taxas dos Estados Unidos

Fabricantes de ferro-gusa, da madeira e de calçados veem dificuldade em redirecionar exportações caso sejam alvo de novas taxas

Por Marcos Hermanson/Folhapress

14/07/2026 às 18:15

Atualizado em 14/07/2026 às 17:57

Foto: Divulgação/CNI

Imagem de Sem plano B, indústria projeta perdas e fala em demissões com novas taxas dos Estados Unidos

Linha de produção de uma fábrica de calçados em São Paulo

Setores industriais potencialmente afetados pelas novas tarifas que os EUA podem aplicar contra o Brasil preveem um cenário de difícil adaptação e torcem para serem incluídos na lista de exceções.

As indústrias brasileiras de ferro-gusa (matéria-prima do aço), madeira processada e calçados, todas com dependência relevante do mercado americano, dizem que seria impossível redirecionar exportações no curto prazo e projetam um combo de diminuição da produção com possível corte de vagas.

Em junho, o USTR (Escritório do Representante Comercial dos EUA), ligado à Casa Branca, concluiu uma investigação comercial apontando que o Brasil lança mão de práticas concorrenciais injustas e discriminatórias.

Citando áreas tão diversas como mercados financeiros, etanol e desmatamento, o relatório do órgão americano sugere a aplicação de uma tarifa de 25% sobre o Brasil. Cabe ao presidente americano, Donald Trump, decidir sobre a aplicação dessa taxa até quarta-feira (15).

"Nós não temos um plano B, por ter essa distribuição bem consolidada ao redor do mundo da produção brasileira", diz Paulo Pupo, superintendente da Abimci (Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente).

Hoje, os EUA respondem por 50% das exportações nacionais de itens como molduras de madeira –que já são produzidas para atender aos requisitos da construção civil daquele país– chapas de compensado, pallets, portas, pisos e a madeira serrada, usada nas cercas de madeira das casas de subúrbio vistas nos filmes americanos.

O setor, concentrado no Sul do país, vinha se recuperando do tarifaço de 40% que vigorou de julho de 2025 a fevereiro de 2026. No período, o setor reduziu a produção, deu férias coletivas e fez algumas demissões. Pupo diz que a Abimci não tem uma estimativa de quantos postos de trabalho foram fechados, mas diz que a perspectiva é que o cenário se repita: diminuição nas vagas e nos investimentos.

"A expectativa é ser incluído na lista de isenções", diz Fausto Cançado, presidente do Sindifer (Sindicato das Indústrias do Ferro) de Minas Gerais, ecoando uma expectativa compartilhada com a indústria da madeira.

Três quartos de todo o ferro-gusa, matéria-prima do aço, que o Brasil produz, foram exportados no ano passado. Desse montante, 80% embarcaram com direção às fundições dos EUA, que produzem apenas 6% do ferro-gusa consumido no país.

Cançado diz que o redirecionamento em curto e médio prazo é difícil, já que o mercado internacional é muito bem dividido e o Brasil responde por 6 em cada 10 toneladas de ferro-gusa adquiridas pelos EUA. Numa conta preliminar, o Sindifer estima que 55% das fábricas brasileiras de ferro-gusa devem parar de forma definitiva ou temporária se as novas tarifas forem aplicadas.

No caso deste setor, há uma dificuldade adicional: seria muito caro reduzir de forma significativa a produção nos altos-fornos, que produzem dia e noite em linhas de produção já dimensionadas para um determinado volume.

No caso do setor de calçados, que também se recupera do último tarifaço, uma nova taxa de 25% afetaria principalmente o Rio Grande do Sul, São Paulo e Ceará. Considerando que o Brasil vende aos EUA principalmente sapatos de couro, a nova barreira prejudicaria em especial as regiões produtoras de Vale dos Sinos (RS), Vale do Paranhana-Encosta da Serra (RS) e de Franca (SP), segundo a Abicalçados (Associação Brasileira das Indústrias de Calçados).

"Não existe a possibilidade de redirecionamento das mercadorias exportadas para os Estados Unidos, pois, em sua grande maioria, são calçados desenvolvidos de acordo com a demanda daquele mercado", diz nota assinada pelo presidente executivo da entidade, Haroldo Ferreira.

A nota enfatiza que todos os segmentos da indústria calçadista são afetados por uma eventual elevação das tarifas, mas que existem diferentes graus de dependência com relação aos EUA. "Neste momento, ainda há incertezas sobre o alcance da medida, os produtos eventualmente afetados e seus desdobramentos. Por isso, a entidade acompanha o tema com atenção e aguarda a decisão final da USTR para uma análise mais precisa do cenário".

De acordo com a Abicalçados, no ano passado a produção ficou 1,9% menor em relação a 2024, mas não se pode atribuir a retração apenas ao fator das tarifas americanas. A associação também afirma que houve uma desaceleração no mercado interno, especialmente no segundo semestre.

Nova tarifa ameaça R$ 76 bilhões em bens exportados, diz CNI

A CNI (Confederação Nacional da Indústria) estima que US$ 14,9 bilhões (R$ 76 bi) estejam sob risco caso os EUA resolvam adotar todas as tarifas sugeridas pelo USTR –25% da investigação sobre práticas comerciais e outros 12,5% da investigação paralela sobre trabalho escravo.

Além destas tarifas, também estão em vigor as alíquotas de 10% da Seção 122, que expiram no fim de julho e precisam de autorização do parlamento americano para serem renovadas, e as alíquotas setoriais impostas pelo Departamento de Estado americano sob a Seção 232, que atingem cerca de US$ 8 bilhões (R$ 41 bilhões) em exportações brasileiras para os EUA.

"Sem dúvida a gente entende que os impactos [de uma possível nova rodada de tarifas] serão negativos", diz Constanza Negri, gerente de Política Comercial da CNI. "Em alguns casos essas exportações podem vir a ser inviabilizadas totalmente".

Para ela, a preferência dos EUA pela aplicação de tarifas mostra uma mudança estrutural na orientação da política comercial norte-americana e acelera a necessidade, que já estava entre os objetivos da indústria, de diversificar as parcerias comerciais do Brasil.

"É um desafio que o Brasil tem estruturalmente, só que em momentos como esse, de crise, ele fica mais latente", afirma, ao mesmo tempo apontando as dificuldades de fazer uma transição do tipo. "Existem setores que têm processos produtivos longos, como o de madeira, de máquinas e equipamentos, em que você não muda de mercado de um dia para o outro".

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