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Oposição da Argentina vê ataques de Milei contra Lula como irresponsabilidade contra parceiro comercial
Oposição da Argentina vê ataques de Milei contra Lula como irresponsabilidade contra parceiro comercial
Governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, diz ter acompanhado evento com 'vergolha alheia'
Por Daniela Arcanjo/Folharess
27/07/2026 às 20:30
Atualizado em 27/07/2026 às 20:32
Foto: Reprodução/YouTube
O presidente da Argentina, Javier Milei
Os ataques do presidente da Argentina, Javier Milei, a Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante o lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), no último sábado (25), repercutiram na oposição do país vizinho, que vê irresponsabilidade com um dos maiores parceiros comerciais da nação.
Durante o evento em São Paulo, o argentino chamou Alexandre de Moraes, ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), de "lixo careca" por não autorizar que ele visitasse o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), preso por tentativa de golpe de Estado, e chamou Lula de ladrão e delinquente.
O discurso marca o fim da trégua entre os dois presidentes —Milei tem um histórico de ofensas ao petista desde a sua vitoriosa campanha presidencial, em 2023, mas, nos últimos dois anos, a relação entre os dois estava apenas distante em prol da importância dos vínculos bilaterais entre as nações.
Agora, até mesmo a convivência protocolar está abalada. Após os comentários, o Itamaraty convocou o embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Raimondi, e o representante de Brasília em Buenos Aires, Julio Bitelli, para prestar esclarecimentos. Já o ministro da Fazenda, Dario Durigan, chamou Milei de palhaço ao rebater críticas à economia brasileira.
No país vizinho, a oposição criticou em peso os ataques do presidente.
O governador da província de Buenos Aires e ex-ministro da Economia de Cristina Kirchner, Axel Kicillof, disse no domingo (26) ter acompanhado o evento com "vergonha alheia".
"Hoje entrei em contato com Mauro Vieira, ministro das Relações Exteriores do Brasil [...] para transmitir que Milei não representa os sentimentos do povo argentino", afirmou em rede social. "O Brasil é nosso principal parceiro comercial. Com essas provocações, Milei está colocando em risco investimentos, exportações, milhares de empregos e os interesses da Argentina."
O ex-presidente Alberto Fernández, antecessor de Milei e aliado de Lula, também se pronunciou. "Milei foi ao Brasil gritar como um louco exigindo ver um líder golpista preso", afirmou também em rede social. "Insultar o presidente de uma nação irmã e nosso principal parceiro comercial é imperdoável".
As críticas chegaram até a chamada oposição moderada —a que não faz parte da coalizão do partido governista, mas que pode votar com o presidente, especialmente em temas econômicos. O deputado Miguel Angel Pichetto foi o representante desse grupo.
"Irresponsabilidade total", afirmou o candidato à Vice-Presidência de Mauricio Macri em sua corrida frustrada à reeleição em 2019. "O tom, o conteúdo do seu discurso e o nível de agressividade contra o presidente Lula são realmente graves. Isso enfraquece seriamente a integração da Argentina com o Brasil e com o Mercosul", afirmou, também em rede social.
O rechaço, porém, parou aí. Aliados do presidente, como era de se esperar, não se pronunciaram sobre os ataques, e o chefe de gabinete de Milei, Diego Santilli, pediu que "não façam drama".
"Eles vieram aqui fazer campanha, disseram barbaridades do presidente e puderam fazer o que quiseram", afirmou ao LN+, canal do jornal La Nación, minimizando o impacto das declarações do líder devido a "uma tradição de relações econômicas entre empresas, no setor privado, que continua se desenvolvendo a todo vapor".
Santilli não esclareceu exatamente a que se referia, mas, em 2023, Milei acusou Lula de financiar seu adversário, o peronista Sergio Massa, sem apresentar provas. Naquele ano, um grupo de publicitários ligados ao PT reforçou a equipe de campanha de Massa, mas havia estrategistas de várias outras partes do mundo.
Neste domingo, Milei voltou a fazer acusações sem provas ao comentar a visita ao Brasil. "Vocês sabem quem investiu mais dinheiro nessa campanha anti-Argentina? O governo brasileiro", afirmou sobre os ataques que o país viveu durante a Copa do Mundo. "Vinte e cinco por cento dos recursos vieram do governo brasileiro. E depois eles vêm falar em interferência", continuou, durante entrevista a uma rádio.
O presidente tem tentado culpar críticos do seu governo, dentro e fora do país, pela onda anti-Argentina. Além de citar o Brasil, mencionou ainda o México e o Partido Democrata, nos Estados Unidos, sem apontar a fonte das acusações.
O fenômeno, na verdade, é explicado por muitas causas, incluindo a própria Presidência do ultraliberal, uma figura polarizadora dentro e fora da Argentina. Não há pesquisas recentes sobre a popularidade de Milei fora do país, mas, internamente, o presidente vem enfrentando rejeição crescente.
De acordo com uma pesquisa do início de julho da empresa CB Global Data, Milei está entre os líderes mais impopulares da região —61,3% dos argentinos tinham uma imagem negativa dele, o que o colocava na posição 14 entre 18 países. No mesmo levantamento, Lula estava em quinto lugar.
"Apesar de o Milei ser um presidente bastante impopular, existe um discurso nas redes sociais no Brasil de que as coisas na Argentina estão dando muito certo economicamente", afirma Pedro Abramovay, vice-presidente de programas da Open Society Foundations, sobre o controle da inflação no país vizinho, por exemplo.
Esse aspecto, no entanto, foi ofuscado pelas declarações do líder, segundo o cientista político. "O Flávio tenta mostrar uma força internacional com ele. Mas o tom como o Milei faz mais atrapalha do que ajuda", afirma. "A notícia é a interferência externa, não a visão econômica dele".
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