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Gayer se destaca em tropa bolsonarista nas redes e defende agora mirar economia e cotidiano
Gayer se destaca em tropa bolsonarista nas redes e defende agora mirar economia e cotidiano
Por Augusto Tenório/Folhapress
07/07/2026 às 06:45
Foto: Bruno Spada/Arquivo/Câmara dos Deputados
Gustavo Gayer
Quando começou a produzir conteúdo político, há cerca de dez anos, Gustavo Gayer era um professor de inglês que defendia pautas conservadoras em suas redes sociais. Hoje, com milhões de seguidores (3,1 milhões no Instagram, 2,4 milhões no YouTube e 1,4 milhão no X) e um mandato de deputado federal por Goiás, ele se tornou uma das apostas do PL e de Flávio Bolsonaro para desgastar o governo Lula (PT) até a eleição de outubro.
Em entrevista à Folha, o deputado de primeiro mandato disse não ter planejado entrar para a política. Ele defendeu que a direita ultrapasse o debate ideológico sobre gênero e comportamento e foque temas que fazem parte da rotina dos brasileiros, como preço dos alimentos. Além disso, criticou o STF (Supremo Tribunal Federal), corte na qual enfrenta 11 processos, e afirmou que medidas dos ministros Alexandre de Moraes, Flávio Dino e Gilmar Mendes contra lideranças da direita acabam por fortalecê-las.
Pré-candidato ao Senado, Gayer faz parte da tropa de choque bolsonarista nas redes sociais, ao lado de nomes como o do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG). Aliados exaltam seu papel para levantar pautas e mobilizar a direita nas redes. Flávio Bolsonaro foi ao seu podcast há duas semanas, quando lançou o próprio Gayer ao Senado durante agenda em Goiânia.
Adversários, por sua vez, criticam o método de engajamento do parlamentar. Ele já foi condenado a indenizar a deputada Gleisi Hoffmann (PT-PR) por afirmar que Lula a ofereceu "como um cafetão oferece sua funcionária", ao citar uma fala do presidente, que chamou a ex-ministra de "mulher bonita".
Na época, Gayer virou alvo da mesma ferramenta pela qual ganhou visibilidade: viralizou nas redes um vídeo em que a deputada federal Silvye Alves (União Brasil-GO) o acusava de ter dirigido alcoolizado quando mais jovem, o que ele nega, e causado um acidente que deixou dois mortos.
O parlamentar também foi condenado por associar o PT ao ataque a faca sofrido por Jair Bolsonaro em 2018. Foi ainda denunciado pela PGR (Procuradoria-Geral da República) sob a acusação de injúria e racismo, após dizer em um podcast que na África a democracia não prospera porque para tê-la "você tem de ter um mínimo de capacidade cognitiva para entender entre o bom e o ruim, entre o certo e o ruim".
Recentemente, Gayer tem se destacado entre os influencers da direita por críticas ao governo, mas num tom diferente. O parlamentar tem criticado a gestão Lula por questões mais atreladas à economia, alardeando a alta no preço dos alimentos e demais fatores que mexem diretamente com a rotina das pessoas.
Levantamento do Deltafolha mostra que, na semana passada, ele teve o segundo vídeo mais consumido entre o material produzido pelas lideranças da direita. Uma compilação de relatos de alta nos preços ultrapassou a marca dos 600 mil views somente no YouTube. No Datafolha que mediu o conhecimento dos eleitores sobre o Congresso, o parlamentar goiano estava entre os únicos seis deputados lembrados por mais de 1% dos entrevistados.
"O preço dos alimentos é o que mais pega o brasileiro médio. A maioria não está preocupada com aborto, droga, está preocupada com aluguel, gasolina etc. O que o povo está falando é o aumento do preço do café, do feijão, do arroz", diz Gayer.
Ele relata ter começado a atuar nas redes quando era dono de uma escola de inglês. Tinha cerca de 50 mil seguidores, por volta de 2015, e criticava temas que costumam ser atrelados à pauta progressista, como o feminismo. "Comecei a ficar chateado com doutrinação, passei a ‘desdoutrinar’ meus filhos sobre feminismo, dívida histórica", afirma.
Depois, em 2017, passou a falar sobre Jair Bolsonaro, quando o então deputado era visto como um candidato com poucas chances de se tornar presidente da República. "Comecei a explicar para os pais sobre como eles devem conversar com os filhos. Alguns desses vídeos começaram a viralizar. Bolsonaro começou a falar sobre isso. Em 2017, comecei a falar sobre Bolsonaro, quando 'ainda era vergonha' falar dele. Nessa época, nem a direita gostava de Bolsonaro."
Gayer diz que passou a se engajar mais quando o então candidato sofreu um atentado a faca. "Fui na rede social da minha escola e chutei o balde. Fiquei doido. Os professores de esquerda pediram demissão. Perdi uns 100 alunos, mas ganhei uns 200."
O parlamentar afirma ter ficado conhecido quando Olavo de Carvalho, escritor guru do bolsonarismo e que morreu em 2022, compartilhou um dos seus vídeos.
"Quando veio a pandemia, comecei a gravar mais. Bolsonaro me ligou e pediu para ser candidato a deputado federal. Eu estava ganhando bem, disse que não queria, tenho filhos para me dedicar. Mas quando veio a prisão de Daniel Silveira, chutei o balde novamente e me candidatei", afirma.
Questionado sobre como escolhe os assuntos abordados no seu canal, Gayer diz que não há matemática. "Para cada nicho tem um assunto mais impactante. Mas para a maioria é a sobrevivência financeira. É família endividada, recorde de empresas fechando ou indo para outros países, aumento de moradores de ruas, criminalidade, avanço das facções. Isso que impacta o dia a dia. Ele não está nem aí se tem rombo fiscal ou déficit."
Apesar disso, Gayer diz ser necessário avançar na defesa do conservadorismo e numa ofensiva contra o STF e afirma que pretende defender o impeachment de ministros do Supremo se for eleito senador.
Nesta semana, o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), foi alvo de uma operação da Polícia Federal sobre suspeita de desvio de cota parlamentar. O próprio Gayer foi alvo de uma ação semelhante em 2024, quando a PF apreendeu R$ 72 mil em dinheiro vivo na casa de um de seus assessores, e acabou sendo indiciado no final do ano passado.
Para o congressista, o grupo é alvo de perseguição. Ele diz que operações do tipo, se assinadas por Moraes, Dino ou Gilmar, ajudam eleitoralmente a direita.
"Há uma perseguição, tenho meus dois pés atrás [com operações autorizadas por Moraes]. Se ele fizer [outra busca e operação], me elege como senador mais votado de Goiás. A imagem dele está tão maculada, tão ruim, que se ele mandar uma busca de apreensão contra uma pessoa, ele elege essa pessoa", afirmou.
"A melhor coisa que pode acontecer com um candidato de direita é ser alvo de uma busca e apreensão de Dino, Moraes ou Gilmar. Qualquer um vira herói. Depois da busca e apreensão eu dobrei de tamanho."
Questionado, Gayer afirma que a recente briga entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro não deve atrapalhar a campanha. "Aquilo que no início se achou que fosse uma bomba, foi um estalo. A população entendeu como uma briga interna de família. Mas torço que possam sentar para conversar e aparar as arestas."
