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PF descreve esquema no Digimais, de Edir Macedo, similar ao do Banco Master; veja ponto a ponto
PF descreve esquema no Digimais, de Edir Macedo, similar ao do Banco Master; veja ponto a ponto
Por Júlia Moura e José Marques, Folhapress
23/06/2026 às 17:09
Foto: Alan Santos/Divulgação PR/Arquivo
O bispo Edir Macedo, dono do Digimais
A Operação Miragem, deflagrada pela Polícia Federal nesta terça-feira (23), descreve um suposto esquema fraudulento no Digimais que se assemelha em diversos pontos ao modus operandi do Banco Master.
Além disso, o banco do bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus e dono da RecordTV, adquiriu ativos da instituição de Daniel Vorcaro e quase foi vendido a um ex-sócio do Master, Maurício Quadrado.
As investigações da PF apontam suspeitas de que os envolvidos no esquema do Digimais teriam manipulado demonstrativos contábeis e registros para ocultar a real situação financeira da instituição. O objetivo seria mostrar boa saúde financeira diante dos órgãos de controle para conseguir viabilizar operações irregulares.
Por meio de sua assessoria de imprensa, o Banco Digimais disse que permanece à disposição das autoridades para prestar quaisquer esclarecimentos e colaborar com as apurações em curso. "A instituição reafirma seu compromisso com a transparência, a conformidade regulatória e a plena colaboração com as autoridades competentes."
CDBs ACIMA DO MERCADO E ATIVOS SUPERFATURADOS
De acordo com o inquérito da PF, o Digimais acelerou sua captação no mercado por meio da emissão de CDBs (Certificados de Depósito Bancário) com taxas superiores a 110% do CDI, uma remuneração acima da média do mercado. Foi por meio desse instrumento que o banco de Vorcaro se sustentou até ser liquidado pelo Banco Central.
Outro ponto em comum seria a precificação de ativos do banco bem acima do seu valor de mercado. A PF aponta como exemplos a "precificação de títulos antigos e sem valor da Vale em R$ 650 milhões, a avaliação de um terreno em Pernambuco por R$ 150 milhões quando o seu valor real seria inferior a R$ 10 milhões e a marcação de uma carteira de automóveis em R$ 3,5 bilhões."
Tal superavaliação de ativos visava, segundo a PF, inflar o balanço da instituição e dar lastro a uma maior emissão de CDBs.
"Tais manobras financeiras, intrinsecamente aliadas à sucessiva substituição de auditorias independentes para ocultar ressalvas comprometedoras, demonstram a potencial estruturação de um conluio voltado a maquiar a real situação de insolvência da instituição, ludibriando investidores de varejo, o órgão regulador e o sistema de garantias de crédito", diz a PF.
Além disso, como mostrou a Folha, o banco de Macedo investiu R$ 3 bilhões em fundos de investimento cujas demonstrações financeiras não puderam ser auditadas por falta de documentos. O montante representa 73% do total investido neste tipo de ativo, segundo alerta feito pela auditoria Clifton Larson Allen Brasil no balanço do segundo semestre de 2025.
Segundo a auditoria, o Digimais investiu em cotas de fundos em participações recém-criados com valorização de 178% em poucos meses. No balanço do segundo semestre de 2025, o banco adquiriu R$ 357,6 milhões em cotas desses fundos no segundo semestre do ano passado, sem especificar o mês. As aplicações passaram a valer R$ 997,5 milhões em dezembro.
Esse salto, destaca a auditoria, gerou no semestre um resultado positivo de R$ 639,8 milhões para o banco, em uma operação da qual "não foi possível avaliar a razoabilidade ou potenciais ajustes decorrentes dos efeitos das avaliações" porque os fundos ainda não possuíam demonstrações financeiras auditadas na época da publicação do balanço.
TENTATIVA DE VENDA
Assim como o Master, o controlador tentou vender o Digimais. Em janeiro de 2025, Maurício Quadrado, ex-sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master, chegou a anunciar a aquisição do banco, em troca de uma injeção de R$ 800 milhões, mas o negócio foi cancelado dois meses depois, com o avanço das investigações sobre Quadrado.
A instituição continuou à venda. Para atrair compradores, o bispo deu a administração do banco para um executivo com mais experiência no setor. Desde o início deste ano, a instituição é comandada por Aldemir Bendine, ex-presidente da Petrobras e do Banco do Brasil, que tem a missão de deixar a casa em ordem e vendê-la. Já o bispo Urbaneja ficou no comando do conselho de administração.
Em abril deste ano, o BTG Pactual anunciou acordo para adquirir a instituição. A informação foi confirmada pelo banco de André Esteves em comunicado ao mercado. Procurado nesta terça, o BTG disse que não iria comentar.
O Master, por sua vez, anunciou sua venda para a Fictor na véspera de liquidação do BC. Antes, segundo interlocutores, Daniel Vorcaro tentou vender a instituição para o BTG.
NECESSIDADE DE APORTE
A tentativa de venda do banco está relacionada à necessidade de aportar capital na instituição, conforme regras de liquidez do Banco Central. O bispo Macedo já teve que colocar dinheiro no banco algumas vezes e a venda seria uma forma de evitar uma nova despesa. Estima-se que seriam necessários mais de R$ 7 bilhões para cobrir o rombo.
Vorcaro também precisou aportar no Master, desfazendo-se de diversos ativos pessoais e do próprio banco. Inclusive, cerca de R$ 600 milhões em carteiras de crédito da instituição foram vendidas ao próprio Digimais.
