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Delação de Vorcaro causa briga na defesa; investigadores dizem que não vão aceitar mentiras
Delação de Vorcaro causa briga na defesa; investigadores dizem que não vão aceitar mentiras
Advogado afirmou a ex-banqueiro que situação deve se agravar sem confissão completa dos crimes; ex-defensor e cliente não se manifestaram
Por Ana Pompeu/Folhapress
15/06/2026 às 17:45
Foto: Divulgação/Polícia Federal/Arquivo
Daniel Vorcaro, do Banco Master
A tentativa frustrada de Daniel Vorcaro de negociar uma colaboração premiada causou problemas tanto com as autoridades quanto com a própria equipe de defesa do dono do Master. Integrantes da equipe de investigadores consideraram a proposta fraca e afirmam não aceitar mentiras por parte do investigado.
Um dos pontos de desavença foi quanto à relação de Vorcaro com o senador Ciro Nogueira (PI), presidente do PP. Envolvidos nas negociações afirmaram, sob reserva, que o ex-banqueiro ainda não deu explicações satisfatórias sobre o tema, que já tem material colhido de forma independente.
Apesar de a investigação já ter alcançado o parlamentar, Vorcaro segue afirmando, segundo esses interlocutores, que manteve a relação financeira com Ciro apenas por amizade. O parlamentar nega qualquer ilícito. "Nunca recebi nenhum valor ilícito ou cometi qualquer irregularidade que seja, nesse caso ou em qualquer outro", disse após ser alvo de operação no mês passado.
Diante disso, duas pessoas a par da negociação afirmaram ao jornal Folha de São Paulo que a delação é uma prerrogativa de defesa mas, para funcionar, o ex-banqueiro precisa querer entregar "para valer" e não mentir.
A fragilidade dos relatos que o ex-banqueiro fez até o momento provocou também uma briga com seu advogado anterior. José Luis Oliveira Lima, o Juca, deixou o caso em 22 de maio. Ele relatou a pessoas próximas uma discussão com Vorcaro pouco antes de oficializar a saída, na qual o defensor teria dito que o ex-banqueiro não havia entendido ainda a gravidade da situação em que se encontra.
Procurado no início da manhã desta segunda-feira (15), Oliveira Lima preferiu não se manifestar. A defesa de Vorcaro ainda não se pronunciou.
Na última quinta (11), a PF comunicou ao STF (Supremo Tribunal Federal) a rejeição, pela segunda vez em menos de um mês, da proposta de delação premiada apresentada por Vorcaro. A corporação avaliou que Vorcaro não apresentou novidades em relação ao que já foi descoberto nas investigações e não apontou crimes cometidos por parceiros.
Entre as principais suspeitas da PF está a de que o senador Ciro Nogueira, que foi ministro da Casa Civil na gestão Jair Bolsonaro (PL), recebia quantias repassadas por Felipe Vorcaro, primo de Daniel. Além disso, de acordo com as apurações, haveria o pagamento de outras despesas pessoais do parlamentar, como viagens e caronas em avião particular.
Segundo a PF, Felipe teria feito uma parceria "ligada aos pagamentos mensais em favor do senador, correspondentes, inicialmente, ao valor de R$ 300 mil, com indícios de que teriam sido posteriormente aumentados para a importância de R$ 500 mil". O primo de Vorcaro foi preso temporariamente.
Para assinar um acordo de delação, um investigado precisa confessar crimes e apresentar provas do que revelar às autoridades, incluindo a indicação de outras figuras importantes envolvidas, como dirigentes e políticos, e material de corroboração, como registros de conversas e documentos.
O argumento da PF é de que ainda há extenso volume de material a ser analisado, oriundo das buscas e apreensões e de quebras de sigilo. Um dos integrantes da equipe afirmou que a operação não chegou sequer à metade.
A reportagem apurou com investigadores que Mendonça informou que deve estender o prazo das investigações até a conclusão dos trabalhos.
Vorcaro foi preso pela primeira vez em 17 de novembro passado, quando tentava embarcar para o exterior, no Aeroporto de Guarulhos. A PF desconfia que ele tentava fugir do país, mas ele argumenta que viajaria para encontrar investidores interessados em comprar o Banco Master. Desde então, ao menos três dos advogados mais conhecidos do país saíram de sua equipe de defesa.
Na mesma conversa em que se desentendeu com Vorcaro, Juca também teria alertado o ex-banqueiro de que a situação dele poderia se agravar caso não contasse a história completa dos crimes cometidos e dos envolvidos no esquema.
O relato chegou inclusive a gabinetes do Supremo e ao próprio relator do caso na corte, ministro André Mendonça.
Oliveira Lima atuou formalmente no caso por pouco mais de dois meses —assumiu em 13 de março e foi o último advogado a deixar a representação de Vorcaro.
Além da dificuldade com o próprio cliente, Juca sofreu a contrariedade de Mendonça. O ministro deixou de conversar com o advogado depois de uma discussão pouco antes da apresentação da primeira proposta de colaboração.
Na ocasião, o relator demonstrou aborrecimento com os rumos da negociação, e o advogado respondeu que poderia recorrer à Segunda Turma da corte. O colegiado tem quatro votantes para o caso, o que poderia gerar um empate e, assim, favorecer Vorcaro. Dias Toffoli, que integra a turma, se declarou suspeito para o caso Master.
Tanto os desentendimentos com Vorcaro quanto as portas fechadas do gabinete na corte teriam tornado a permanência de Juca no caso inviável.
O advogado já conduziu delações premiadas delicadas, como a do ex-presidente da OAS, Leo Pinheiro, no auge da Operação Lava Jato. Ele defendeu também o ex-ministro José Dirceu na época do escândalo do mensalão, em 2012, e representou o general Braga Netto, ex-ministro de Jair Bolsonaro, no processo da tentativa de golpe de Estado no Brasil.
Oliveira Lima advogava para o Banco Master antes da liquidação da instituição pelo Banco Central, em novembro.
Além dele, Walfrido Warde foi um dos representantes do exército de escritórios que atuou para Vorcaro desde antes da deflagração da primeira operação. Em 21 de janeiro, ele se desligou da equipe. O advogado era apontado como um dos principais articuladores de uma estratégia agressiva para tentar suspender a liquidação do banco no STF ou no TCU (Tribunal de Contas da União).
Em 13 de março, foi a vez de Pierpaolo Bottini se afastar do time, quando Vorcaro partiu para a primeira tentativa de negociação. Ele alegou motivos pessoais para a decisão. Ele já a interlocutores afirmava que não participaria de negociação para delação do ex-banqueiro. Roberto Podval também deixou de advogar para Vorcaro.
