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Comunicação considerada confusa do BC cria ruído e pode afetar economia real, dizem analistas

Comunicação considerada confusa do BC cria ruído e pode afetar economia real, dizem analistas

Decisão de mirar 2028 é vista como forma de mudar meta de inflação sem admitir ajuste

Por Tamara Nassif/Felipe Gutierrez/Folhapress

18/06/2026 às 21:00

Atualizado em 18/06/2026 às 21:05

Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil/Arquivo

Imagem de Comunicação considerada confusa do BC cria ruído e pode afetar economia real, dizem analistas

O presidente do Banco Central, Gabriel Galipolo

A justificativa do Copom (Comitê de Política Monetária) para cortar a taxa Selic na quarta-feira (17) não caiu bem entre agentes do mercado.

O dólar disparou 1,26% nesta quinta-feira (18) e fechou cotado a R$ 5,174 um dia após as decisões do Banco Central e do Fed (Federal Reserve, o banco central dos EUA). Os juros futuros também dispararam, com os vencimentos de médio e longo prazo subindo mais de 0,2 ponto em alguns pontos da curva.

Para especialistas ouvidos pela reportagem, a comunicação foi confusa e não esclareceu satisfatoriamente a decisão de continuar afrouxando a taxa básica de juros do país em um momento em que os índices inflacionários seguem subindo para além do teto da meta estabelecida pelo BC.

Isso, segundo eles, afeta a percepção do mercado sobre a chamada "função de reação" da autoridade monetária, isto é, a capacidade de um banco central de ajustar a política monetária aos indicadores econômicos.

"Há uma dissonância forte entre o diagnóstico do Copom e o remédio aplicado", diz Alexandre Schwartsman, economista e ex-diretor do BC.

"O diagnóstico está correto: há um choque inflacionário sério decorrente da crise do petróleo, com outros riscos à frente [como o El Niño], e de uma economia superaquecida que se traduz na elevação da inflação no horizonte relevante. Mas a resposta foi inadequada, com uma justificativa frágil em várias dimensões."

O Copom cortou a Selic em 0,25 ponto percentual, a 14,25% ao ano, como amplamente esperado pelo mercado. Foi o terceiro corte consecutivo desde março. Já o Fed (Federal Reserve, o banco central norte-americano) também foi em linha com as expectativas e manteve a taxa de juros inalterada na faixa de 3,5% e 3,75%. Nesta quinta, a Bolsa oscilou entre os sinais durante o pregão e fechou em variação negativa de 0,1%, a 168.277 pontos.

No comunicado divulgado após a decisão, o comitê afirma que, se mantivesse os juros em patamar necessário para levar a inflação à meta ao término de 2027, eles acabariam derrubando o índice para um patamar abaixo do alvo no primeiro trimestre de 2028 —sem dizer quanto exatamente. O BC trabalha com a meta de inflação em 3% ao ano, com margem de 1,5 ponto percentual para cima e para baixo.

"Inflação cair abaixo da meta não é coisa de outro mundo. Faz parte da operação normal do regime de metas: ela ora fica abaixo, ora fica acima, mas flutua ao redor dos 3%. Esse é o primeiro ponto. O segundo é que é difícil acreditar que a inflação ficaria abaixo da meta no primeiro trimestre de 2028, se, ao fim de 2027, o BC projeta 3,7%. É um espaço de tempo muito curto para cair tanto assim", diz Schwartsman.

As curvas de juros futuros se inclinaram em resposta à decisão do BC. Nos vencimentos para 2026, o movimento foi de baixa, refletindo a perspectiva de juros menores no curto prazo.

Nas curvas longas, a partir de 2027, porém, o movimento foi de alta de mais de 0,20 ponto percentual em alguns pontos. "Juros mais baixos hoje, com a inflação desancorada, exigem juros ainda mais altos no futuro", afirma Lais Costa, especialista em renda fixa da Empiricus.

O vencimento para janeiro de 2029, por exemplo, avançou para 14,77%, alta de 0,24 ponto percentual em relação ao ajuste pré-Copom. A taxa para janeiro de 2035 avançou para 14,52%, avanço de 0,25 ponto ante a véspera.

Na prática, explicam os especialistas, o comitê estendeu o horizonte relevante para o primeiro trimestre de 2028 –o que, na visão de Solange Srour, diretora de macroeconomia para o Brasil no UBS Global Wealth Management, é uma forma de mudar a meta sem admitir o ajuste.

"O horizonte não foi estendido por razões técnicas. Foi estendido para que a projeção coubesse na decisão que o Comitê já havia, implicitamente, tomado", escreveu ela em artigo para o jornal Folha de São Paulo nesta quinta-feira (18).

Alongar o horizonte, explica ela, não é neutro. "Quanto mais distante o ponto de chegada, menor a disciplina que o regime de metas impõe sobre as decisões correntes, maior a margem para acomodar desvios e mais frágil se torna o compromisso com a convergência", afirma.

Essa percepção criou ruídos entre os agentes do mercado sobre a condução da política monetária e, em última análise, sobre a credibilidade do BC para continuar ancorando as expectativas de inflação.

A desancoragem das expectativas de inflação tem efeitos palpáveis na economia real.

Benito Salomão, professor de economia da Universidade Federal de Uberlândia, afirma que empresas precisam decidir qual será o preço de seus produtos e serviços nos próximos meses e, para isso, dependem de uma projeção de inflação.

"Elas podem escolher essa projeção baseada na meta do BC ou na inflação corrente. Se o próprio BC diz que a convergência só vai ocorrer à frente do prazo relevante, a firma não tem por que reajustar seus preços com base na meta. A razão de existência da meta é que as pessoas acreditem nela e reajustem seus preços baseados nela".

Ainda, de acordo com Marcelo Mello, CEO da SulAmérica Investimentos, a taxa Selic não baliza o crédito de longo prazo na economia.

"Financiamentos para grandes empresas, crédito imobiliário e linhas de investimento estruturadas são precificados com base na curva de juros futuros, e não na Selic de hoje. Se a instabilidade na comunicação do Copom faz com que as taxas de mercado de longo prazo subam, o custo final do crédito para quem investe ou consome na ponta pode encarecer, ou, no mínimo, parar de cair", afirma.

Os diretores do BC estão em período de silêncio após a decisão, como de praxe. Mas Gabriel Galípolo, presidente da autarquia, já chegou a dizer anteriormente que "existem grandes campeonatos de interpretação de texto a cada decisão do Copom, que envolvem entender se uma vírgula mudou de lugar, alguma coisa nesse sentido".

O mercado agora aguarda a próxima terça-feira, dia de divulgação da ata da reunião, em busca de esclarecimentos sobre a confusão criada pelo comunicado.

Gustavo Danilo, especialista em renda fixa da Manchester Investimentos, lembra que a credibilidade de um banco central não se perde em um único dia, mas tende a ser testada quando a comunicação parece enevoada.

A ata será importante neste cenário. "O mercado quer ver se o Copom vai reforçar o compromisso em cumprir a meta e condicionar os próximos passos ao ritmo inflacionário, assumindo até uma possibilidade de manutenção ou mesmo de alta da Selic", afirma.

"Se o Copom se mantiver ambíguo e sem direção, vamos ver mais prêmios de riscos nos juros e até nas NTN-Bs [títulos públicos ancorados na inflação, com ganho real]".

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