Banco Central perde 35% dos servidores enquanto ativos triplicam desde 2006
Por Maeli Prado e Adriana Fernandes, Folhapress
29/05/2026 às 17:40
Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil/Arquivo
Prédio do Banco Central em Brasília
O BC (Banco Central) perdeu 35% de seu efetivo nos últimos 20 anos enquanto os ativos sob sua supervisão saltaram mais de 200% no mesmo período, em um descompasso que preocupa especialistas e entidades do sistema financeiro.
Há duas décadas, a autarquia responsável pelas políticas monetária e cambial, por supervisionar e regular o sistema financeiro e pela emissão de dinheiro, possuía 5.072 funcionários, número que caiu 35% para 3.300 servidores neste ano, em meio à falta de concurso e à restrição orçamentária. A área de fiscalização perdeu mais da metade do efetivo: a quantidade de funcionários caiu de 1.384 para 605.
Enquanto isso, o volume de ativos da indústria passou de R$ 5,68 trilhões para R$ 17,89 trilhões, mais do que triplicando, segundo dados atualizados pela inflação da plataforma IF.Data, do BC.
"É muito preocupante ver, com base em fatos, o BC operando com falta de orçamento, perda de quadros experientes e sem reposição", afirma Isaac Sidney, presidente da Febraban (Federação Brasileira de Bancos) e ex-diretor de relacionamento institucional e cidadania do regulador.
O número total de instituições encolheu ao longo desse tempo, caindo de 2.447 em dezembro de 2006 a 1.794 em janeiro de 2026, por causa do movimento de consolidação de cooperativas. Mas, desde 2019, 355 novas fintechs, como sociedades de crédito direto, sociedades de empréstimos entre pessoas e instituições de pagamentos, foram autorizadas a operar pelo regulador.
O paradoxo de menos funcionários para mais supervisão, movimento que se intensificou desde a pandemia, é o principal argumento de integrantes do BC e do presidente do órgão, Gabriel Galípolo, em defesa da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que prevê autonomia administrativa e orçamentária da instituição.
O texto, que tramita no Senado, prevê que o órgão retenha receitas que hoje vão ao caixa do Tesouro, e enfrenta resistências do PT (Partido dos Trabalhadores) e de auxiliares do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Para o BC, a autarquia está asfixiada pelo baixo orçamento e pela contenção na contratação de funcionários justamente quando esse trabalho ganha relevância, como mostram a fiscalização que brecou o Banco Master e a tentativa de compra pelo BRB, o banco estatal de Brasília.
Por outro lado, auxiliares de Lula argumentam que a PEC dá autonomia excessiva ao BC —o governo resiste em abdicar do controle sobre o órgão que opera sob o regime de autarquia.
Como mostrou a Folha, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, negocia com Galípolo um novo texto para a PEC que preserve a influência do governo no órgão, mantendo o controle sobre a contratação e salários de servidores.
Na avaliação de Rafael Schiozer, professor titular de finanças da FGV, a PEC do BC precisa ser bem discutida antes de ser aprovada.
"O BC ter um orçamento separado é positivo, mas e se as receitas caírem de repente? Vai cortar funções de supervisão ou pedir ao Tesouro? Tem que ser um modelo misto de financiamento, e que seja muito bem amarrado. O BC pode se apropriar de algumas receitas, mas não de todas", defende.
Independentemente da aprovação da PEC do BC, o especialista acredita que o BC deveria ter um quadro de pessoal entre 20% a 30% maior que o atual, já que o monitoramento do sistema financeiro, na sua avaliação, ficou mais complexo.
"O encolhimento do quadro de funcionários do BC é um sinal que o orçamento está apertado mesmo. Diz-se que com tecnologia dá para desempenhar a mesma função com menos gente, mas tem um limite para isso. Tem que ter gente para tocar essa tecnologia."
É a mesma avaliação de Alexandre Chaia, economista e professor de finanças do Insper, que diz que a redução no efetivo acontece em um contexto em que houve aumento no número de fintechs abertas no Brasil e, ao mesmo tempo, corte de despesas pelo governo. "Tudo isso é uma receita para deixar buracos na fiscalização."
Nos bastidores, interlocutores reclamam que a gestão governamental sobre a área de recursos humanos do BC tem sido negativa. Até 2025, o BC ficou 10 anos sem concurso.
No último deles, dos 300 candidatos aprovados e chamados, apenas 248 ficaram no BC, de acordo com dados do órgão. O restante preferiu aceitar vagas em outros órgãos abertas no mesmo ano, em razão do salário de entrada, que ficou inferior ao de outras carreiras do serviço público, como o de auditores da Receita Federal.
Além da entrada restrita de novos servidores, o BC tem enfrentado um envelhecimento do seu corpo funcional — 349 dos seus servidores já têm direito à aposentadoria e podem sair a qualquer momento. Outros 753 servidores terão direito a se aposentar até 2030.
Para Sidney, da Febraban, um orçamento maior para o BC é importante, entre outros fatores, para garantir investimentos em tecnologia, essenciais para combate a fraudes e lavagem de dinheiro. "Não dá para concebermos um BC sem orçamento", diz. "Equivaleria pilotar ou entrar numa aeronave sem os instrumentos de navegação, ou com baixa dose de confiabilidade.".
Outras associações de bancos e entidades do setor financeiro também defendem que o BC tenha mais controle sobre seu orçamento.
A Zetta, associação que representa fintechs como Nubank e Mercado Pago, avalia que a independência financeira do BC é fundamental para preservar a estabilidade econômica, prevenir riscos sistêmicos e reforçar a confiança no sistema financeiro.
"O fortalecimento da atuação do Banco Central, inclusive por meio de recursos adequados e de um quadro técnico qualificado, é fundamental para assegurar a continuidade e a efetividade das atividades de regulação, supervisão e fiscalização do sistema financeiro, contribuindo para um ambiente mais seguro, moderno, competitivo e inovador", disse a entidade em nota.
A Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) também afirma que apoia a independência financeira do BC e que a autarquia tem respondido com "eficiência e agilidade" aos desafios trazidos pela inovação do sistema financeiro.
"Medidas que reforcem sua autonomia administrativa e orçamentária caminham na direção de maior previsibilidade regulatória, segurança jurídica e do desenvolvimento sustentável do sistema financeiro e da economia brasileira", disse a associação em nota.
