Ex-sócio do Master estrutura fundo para manter operação do Credcesta
Por Aexa Salomão João Pedro Pitombo, Folhapress
10/04/2026 às 13:18
Foto: Vaner Casae/Alba/Arquivo
O empresário Augusto Ferreira Lima durante sessão da Assembleia Legislativa da Bahia
Sem conseguir parceiro no sistema financeiro para manter o Credcesta com escala nacional, Augusto Lima, criador desse cartão consignado com benefícios para servidores e ex-sócio do Banco Master, está estruturando um fundo para continuar com a operação na Bahia, único estado onde mantém a exclusividade para trabalhar com esse tipo de produto até 2033.
O Credcesta oferece vários produtos e serviços, entre eles crédito com desconto em folha de pagamento. Pelo último balanço do Master, referente ao ano de 2024, chegou a operar em 24 estados e 176 municípios.
Profissionais com experiência no setor de consignado explicaram à reportagem que, apesar dessa abrangência e de a marca ser consolidada e bem-sucedida, neste momento nenhuma instituição quer enfrentar o risco de reputação e fazer parceria ou mesmo comprar um produto que foi ligado ao Master e seus acionistas.
Nesse tipo de negócio, o giro de recursos precisa ser constante e ter parceria com banco ou fintech faz parte da estratégia. Sem uma instituição financeira para dar suporte, fica difícil manter a escala na renovação da oferta de crédito aos antigos clientes e, mais ainda, captar novos. A operação míngua.
Boa parte das carteiras do Credcesta já tinha sido revendida a outras instituições. À medida que o financiamento original está sendo pago, a própria instituição que detém a carteira oferece algum produto e serviço para reter o cliente do Credcesta. Nesse movimento, o mercado vive uma reconfiguração nacional.
Na Bahia, porém, o Credcesta tem exclusividade até 2033, e a percepção de quem acompanha o produto é que o uso de um fundo pode manter o negócio funcionando.
Executivos que acompanham a criação do novo instrumento contaram à Folha, na condição de não terem os nomes divulgados, que a proposta é montar um Fidc (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios), que começaria a operar com aporte de R$ 500 milhões captados junto a investidores institucionais. Para manter a operação em nível nacional seria necessário fazer uma largada bem mais robusta, aportando, por baixo, R$ 2 bilhões.
A estratégia é ganhar tempo para que, passada a fase aguda de investigações do caso Master, mais à frente, será possível retomar a prospecção de parcerias.
Procurada pela Folha, a assessoria de imprensa dos advogados de Augusto Lima disse que ele não iria comentar a operação.
Lima criou o Credcesta a partir de um cartão de compras da rede de supermercados Cesta do Povo, da estatal Ebal, que foi privatizada em 2018, ampliando os benefícios que ele já oferecia. Na época, o governador da Bahia era Rui Costa (PT), que acaba de deixar o ministério da Casa Civil, e o secretário de Desenvolvimento Econômico era Jaques Wagner, atual líder do governo Lula no Senado.
O contrato de privatização manteve a exclusividade por 15 anos para a operação do cartão benefício consignado para servidores do governo do estado. Depois, outras mudanças, aprovadas pelo Legislativo baiano, limitaram a portabilidade.
Naquele mesmo 2018, Lima firmou acordo com o banco de Daniel Vorcaro para colocar o Credcesta de pé e, depois, expandir o produto por diferentes estados e municípios. Em julho de 2025, Lima teve aprovação do Banco Central para ficar com o banco Voiter, instituição ligada ao Master, que ele transformou em Banco Pleno, e manteve nele a operação do Credcesta.
Em 17 de novembro do ano passado, Lima foi preso na Operação Compliance Zero, junto com Vorcaro e outros executivos do Master, deflagrando uma crise de confiança em relação à sua instituição. Em fevereiro deste ano, o Pleno foi liquidado.
O governo do Rio de Janeiro suspendeu a exclusividade do Credcesta no estado no final do ano passado, após as prisões e a liquidação do Master. A Bahia manteve a exclusividade mesmo após a liquidação do Pleno, que cortou a oferta de recursos para o Credcesta.
Entre os executivos do setor de consignado, a percepção é que o governo da Bahia está dando tempo para Lima se organizar, por causa dos laços que o empresário desenvolveu com políticos. Apesar de ser próximo de expoentes do centrão e casado com Flavia Lima, ex-ministra do governo de Jair Bolsonaro e ex-deputada federal pelo PL, o empresário também mantém contato com quadros históricos do PT.
Algumas conexões chamaram a atenção. Documentos enviados pela Receita Federal à CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Crime Organizado, por exemplo, apontam repasses de R$ 12 milhões do Master, entre 2022 e 2025, à BN Financeira, empresa de Bonnie Bonilha, nora de Jaques Wagner. O senador também aparece na lista com o pagamento de uma quantia menor, de R$ 289 mil, como pessoa física.
Wagner afirma que o valor é referente a rendimento de aplicação em conta de pessoa física, que não possui CNPJ e que nunca recebeu qualquer pagamento do Master. A BN Financeira diz que prestou serviços ao Master mediante emissão de nota fiscal, entre 2022 e 2025.
O governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), afirmou à Folha que não descarta a suspensão do contrato de operação do Credcesta, caso exista o entendimento de que não há como manter a operação, e diz que aguarda um parecer da PGE (Procuradoria-Geral do Estado).
"A PGE está analisando o que significa para a gente ter um banco nessa situação. Se o banco não tem condições de operar, a lógica é rever contrato e tomar decisões", afirmou.
Em nota, a Procuradoria-Geral do Estado informou que os aspectos jurídicos relacionados ao contrato firmado pelo Estado para operação do Credcesta estão em fase de análise.
O ex-ministro Rui Costa evitou opinar sobre o assunto e disse que cabe ao governo estadual avaliar a pertinência econômica, técnica e jurídica de manter o contrato.
O petista afirmou ainda que o Banco Central pode definir se os entes públicos devem encerrar seus contratos com o Credcesta.
1 Comentário
Francisco Carlos de Holanda
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10/04/2026
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13:19
