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Banco Central avisou que compra do Master pelo BRB era inviável 2 meses antes de barrar operação
Banco Central avisou que compra do Master pelo BRB era inviável 2 meses antes de barrar operação
Área técnica da autoridade monetária enviou quatro ofícios cobrando informações sobre operação
Por Fernanda Brigatti/Folhapress
02/04/2026 às 17:30
Atualizado em 02/04/2026 às 18:43
Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil/Arquivo
Banco Central
Dois meses antes da decisão final de barrar a compra do Master pelo BRB (Banco de Brasília), o Banco Central já tinha comunicado as duas instituições financeiras que o pedido não tinha condições de ser aprovado.
Em um ofício de 27 de junho do ano passado, técnicos do Departamento de Organização do Sistema Financeiro do BC afirmaram que a documentação apresentada pelos bancos em cinco ocasiões era insuficiente e que o pedido de compra "na forma como atualmente se encontra, não reúne condições de aprovação".
Naquela data, o Banco Central elencou 40 pontos que demandavam mais explicações, demonstrações, detalhamentos e também o envio de documentos como demonstrativos contábeis, relatórios de diligências, atualização das projeções econômico-financeiras e a delimitação definitiva do perímetro da transação.
A definição de quais partes do Master seriam transferidas para o BRB caso a negociação fosse concluída mudou diversas vezes entre o pedido feito pelo Banco de Brasília, em 28 de março, e a data da decisão final, no início de setembro.
Procurada pela reportagem, defesa do Banco Master disse que não comentaria. O BRB foi procurado por e-mail na segunda (30) à noite e por WhatsApp na terça (31), mas não respondeu.
No pedido de complementação de informações enviado em junho, o Banco Central citou um relatório de diligência da consultoria PwC que apontava "falta de informações suporte de forma completa, incluindo a ausência da reconciliação de certos saldos relevantes de ativos, como aplicações compromissadas, operações de crédito e depósitos à vista".
Segundo esse relatório, parte das informações era controlada de forma manual. "Esses fatores aumentam o risco relacionado com a confiabilidade das informações e destacam a necessidade de aprimoramento do ambiente de controles internos das instituições", escreveu a consultoria.
No ofício, o BC pediu que o Master explicasse a composição do Fidc (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios) RSG e também a rentabilidade reportada. Segundo o ofício do Banco Central, o banco reportou rentabilidade de 4.245,81% em 42 dias, no relatório sobre o fundo.
A autoridade monetária voltou a cobrar Master e BRB pouco menos de um mês depois. Em novo ofício, de 23 de julho, o BC novamente avisou que o pedido de autorização não tinha condições de ser aprovado devido a inconsistências e indefinições no perímetro da transação e a falhas nas projeções econômico-financeiras da negociação.
Essas falhas, disseram os técnicos que assinaram o ofício, "comprometem o requisito de viabilidade da operação". Esse documento foi enviado às instituições financeiras 42 dias antes de a autoridade monetária decidir barrar a aquisição pelo BRB.
Segundo papelada enviada pelo Banco Central ao TCU (Tribunal de Contas da União), o ofício de 23 de julho foi a terceira tentativa do órgão de receber informações detalhadas sobre o negócio pretendido pelos dois bancos. Uma última tentativa ainda seria feita alguns dias depois, em 31 de julho.
Os técnicos do BC registraram nos ofícios que BRB e Master seguidamente foram omissos no delineamento do perímetro da transação e que isso "ainda que sujeito a ajustes posteriores, impossibilita a esta autarquia examinar e decidir o estudo de viabilidade econômico-financeira".
Os documentos internos do Banco Central foram enviados ao TCU, que tem mais de um processo aberto para apurar a conduta da autoridade monetária na liquidação do Master e na análise da proposta do BRB para comprar o banco de Daniel Vorcaro.
A área técnica da corte de contas concluiu que o BC foi diligente e tomou decisões com base em critérios técnicos. Para a unidade especializada em bancos do TCU, a AudBancos, há indícios de que o BRB tenha agido de maneira temerária e cometido erros primários ao insistir na compra do Master, mesmo após o BC identificar suspeitas de fraudes na cessão de carteiras de crédito entre as duas instituições.
Sobre essa conclusão do TCU, o governo do Distrito Federal, principal acionista do BRB, disse que o banco "possui governança corporativa robusta e atua com independência em suas decisões de mercado. As tratativas comerciais avaliadas faziam parte de um processo regular de estruturação de negócios".
No mesmo dia da segunda cobrança do BC por mais documentos, planilhas e explicações, o BRB divulgava aos investidores seus resultados do primeiro trimestre de 2025.
A compra do Master, batizada pelo Banco de Brasília de "Projeto Vórtice", é citada como uma medida para impulsionar a expansão nacional da instituição financeira, o que levaria o BRB a figurar "entre os dez maiores do país em volume de crédito", segundo a divulgação do banco.
O BRB queria ficar com 58,04% do Master, fatia que incluiria 49% das ações com direito a voto e 100% das preferenciais.
Em 2025, pouco mais de dois meses depois de a transferência de controle do Master para o BRB ser barrada pelo Banco Central, o banco de Daniel Vorcaro teve decretada sua liquidação.
O ex-banqueiro foi preso, conseguiu cumprir a determinação em casa e, em 4 de março deste ano voltou para o regime fechado depois que a Polícia Federal encontrou em seu celular mensagens que citavam intenção de forjar um assalto contra o jornalista Lauro Jardim, do jornal O Globo, como forma de intimidação.
Segundo as investigações, o ex-banqueiro mantinha uma milícia privada chamada "A Turma" com o objetivo de coagir e ameaçar seus desafetos.
Atualmente ele está na superintendência da PF de Brasília, onde negocia um acordo de colaboração premiada.
