Papa diz que Deus rejeita orações de líderes que fazem guerras
Por Redação
29/03/2026 às 09:14
Atualizado em 29/03/2026 às 08:53
Foto: Reprodução/Instagram/Arquivo
Sem citar nomes, Leão 14 dá declaração durante celebração de Domingo de Ramos, em meio a conflito no Irã
O Papa Leão 14 disse neste domingo (29) que Deus rejeita as orações de líderes que iniciam guerras e têm "mãos cheias de sangue", em declarações incomumente contundentes no mesmo dia em que a guerra no Irã entra em seu segundo mês.
Dirigindo-se a dezenas de milhares de pessoas na Praça de São Pedro no Domingo de Ramos, celebração que abre a Semana Santa que antecede a Páscoa para os 1,4 bilhão de católicos no mundo, o pontífice chamou o conflito no Oriente Médio de atroz e disse que Jesus não pode ser usado para justificar nenhuma guerra.
"Este é o nosso Deus: Jesus, rei da paz, que rejeita a guerra, a quem ninguém pode usar para justificar a guerra", disse Leão 14, o primeiro papa americano, à multidão sob o sol no Vaticano.
"[Jesus] não ouve as orações daqueles que fazem guerra, mas as rejeita, dizendo: 'Ainda que façais muitas orações, não as ouvirei: vossas mãos estão cheias de sangue'", afirmou, citando uma passagem bíblica.
O pontífice não citou especificamente nenhum líder mundial, mas tem intensificado as críticas à guerra no Irã nas últimas semanas.
Durante um apelo ao final da celebração, o papa lamentou que os cristãos no Oriente Médio "estão sofrendo as consequências de um conflito atroz" e podem não conseguir celebrar a Páscoa.
Em Jerusalém, em meio a restrições de aglomerações em meio à guerra, a polícia impediu a realização da missa de Domingo de Ramos na igreja do Santo Sepulcro, na Cidade Velha, afirmou o patriarcado Latino da cidade santa.
"Este incidente contitui um grave precedente e demonstra uma falta de consideração com a sensibilidade de bilhões de pessoas em todo o mundo que, durante esta semana, voltam seu olhar a Jerusalém", afirmou o patriarcado em comunicado. Procurada pela AFP, a polícia não se manifestou.
O papa Leão 14, conhecido por escolher suas palavras cuidadosamente, tem pedido repetidamente um cessar-fogo imediato no conflito e afirmou na última segunda-feira (23) que os ataques aéreos militares são indiscriminados e deveriam ser proibidos.
Altas autoridades do governo de Donald Trump e aliados têm invocado a linguagem cristã e a perspectiva de que travam uma guerra santa para justificar os ataques conjuntos dos EUA e de Israel ao Irã, iniciados em 28 de fevereiro, que deram início à guerra expandida após reação iraniana.
O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, é um dos principais nomes dessa tendência. Ele passou a liderar cultos de oração cristã no Pentágono, orou em um culto na quarta-feira (25) por "violência avassaladora de ação contra aqueles que não merecem misericórdia", e pediu em entrevistas coletivas que os americanos orem de joelhos pelas tropas americanas.
O vice-presidente do país, J. D. Vance, católico e próximo da base mais radical de apoio a Trump que fez campanha para que o país deixasse de entrar em guerras pelo mundo, falou sob a mesma perspectiva sobre o conflito nesta semana.
"Eles [soldados] estão lutando em um momento em que estão prestes a entrar, como cristãos, na semana mais importante do calendário cristão, a Semana Santa que celebra o retorno de Jesus Cristo a Jerusalém", disse Vance em reunião de gabinete, quando também pediu apoio às tropas.
Em sua homilia neste domingo, Leão 14 fez referência a uma passagem bíblica na qual Jesus, prestes a ser preso antes de sua crucificação, repreendeu um de seus seguidores por golpear com uma espada a pessoa que o prendia.
"[Jesus] não se armou, nem se defendeu, nem travou nenhuma guerra", disse Leão. "Ele revelou a face gentil de Deus, que sempre rejeita a violência. Em vez de salvar a si mesmo, permitiu ser pregado na cruz."
