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Estreito de Hormuz leva petróleo, plásticos e fertilizantes, e crise afeta exportações brasileiras

Estreito de Hormuz leva petróleo, plásticos e fertilizantes, e crise afeta exportações brasileiras

Canal travado pelo Irã recebe 25% de petróleo e fertilizantes do mundo, além de 35% de plásticos

Por Pedro Lovisi/Folhapress

09/03/2026 às 17:15

Foto: Reprodução Planet Labs

Imagem de Estreito de Hormuz leva petróleo, plásticos e fertilizantes, e crise afeta exportações brasileiras

Porto de Bandar Abbas, no sul do Irã, é um ponto comercial estratégico localizado no Estreito de Ormuz

Além de ser uma rota estratégica para o comércio de petróleo no mundo, o estreito de Hormuz também é fundamental para o transporte de fertilizantes, plásticos, carnes e grãos. Por causa disso, analistas temem que o bloqueio do canal pelo Irã possa gerar um efeito cascata na economia mundial, altamente dependente desses produtos.

Entre consultorias especializadas no tema é consenso que o fechamento do estreito gera consequências diretas e indiretas. As primeiras passam justamente pelo aumento dos preços causado pela tensão geopolítica, além da paralisação brutal no fornecimento dos produtos que passam pela região. Já a segunda está atrelada aos impactos da falta de suprimento de alguns insumos a indústrias e produtores agrícolas de outros países.

O maior receio, por ora, é sobre a comercialização de petróleo, insumo primário na fabricação de vários combustíveis, seja industriais, elétricos ou automotivos. Do canal, saem cerca de 25% do óleo bruto produzido em todo o mundo, e um bloqueio de longo prazo pode afetar em massa o fornecimento de combustíveis vitais para a economia mundial.

Pesam também no comércio internacional os efeitos do aumento do preço da commodity, que chegou a passar dos US$ 100 nesta semana, algo que não se via desde 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia. O petróleo chegou a disparar quase 30%, na maior variação diária desde 1988, e ficar próximo de US$ 120. Desde o último dia 28, quando EUA e Israel bombardearam o Irã e assassinaram o líder supremo Ali Khamenei, o preço do petróleo subiu 51%.

No caso do petróleo, o impacto pode ser incontornável. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês), Irã, Iraque, Kuwait, Qatar e Bahrain usam o estreito para exportar a grande maioria do petróleo produzido por suas empresas. Entre os grandes produtores de petróleo da região, apenas Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos têm rotas alternativas, ainda assim limitadas.

"Alguns países têm oleodutos que evitam o estreito, mas eles não conseguem substituir totalmente a rota", diz Mario Veraldo, CEO da consultoria MTM Logix. Por isso, se o bloqueio durar por muito tempo, o efeito principal será uma redução temporária da oferta disponível no mercado internacional, o que normalmente se traduz em forte pressão nos preços do petróleo, além de impactos indiretos em frete marítimo, energia e inflação global".

A China é o principal destino do petróleo que sai do estreito. O país asiático é hoje o país que mais cresce no mundo e qualquer interrupção nas indústrias chinesas pode gerar consequências significativas para empresas exortadoras de de outros países, incluindo do Brasil. Outras nações dependentes do fornecimento de óleo bruto da região são Índia, Coreia do Sul e Japão.

Além disso, o bloqueio do estreito tem implicações significativas para o comércio de gás natural, geralmente atrelado à produção de petróleo. Qatar e Emirados Árabes representam 20% de toda a exportação mundial de gás natural liquefeito, um insumo fundamental para indústrias e termelétricas. De acordo com a IEA, cerca de 93% da exportação de GNL do Qatar e 96% dos Emirados Árabes passa pelo canal.

O gás natural, aliás, é um insumo fundamental na produção de fertilizantes, outro setor que deve ser bastante afetado com o bloqueio do canal. Um quarto do comércio mundial de fertilizantes passa pelo estreito de Hormuz, o que joga pressão a produtores agrícolas e, consequentemente, ao preço de alguns alimentos. Nesse caso, o maior impacto é em cima dos fertilizantes com enxofre –44% da produção mundial passa pelo estreito.

Químicos e plásticos também serão impactados. A produção desses insumos está atrelada ao gás natural e, consequentemente, tende a se concentrar em regiões ricas no combustível –cerca de 10% da produção mundial de plástico está no Oriente Médio. Nas contas da MTM Logix, 35% de todo o transporte de químicos e plásticos passam pelo canal.

Mario Veraldo chama atenção também para o comércio de grãos. Os países do Golfo consomem 15% de todos os grãos produzidos no mundo, com destaque para trigo, cevada, milho e arroz. "O trigo é de longe o principal, porque é a base da alimentação. Depois vem cevada e milho, que são usados principalmente para ração animal, especialmente em países do Golfo que têm produção de aves e pecuária", afirma.

COMÉRCIO DO BRASIL

Grande parte das exportações de frango do Brasil está em risco, de acordo com a DataLiner/Datamar, ferramenta que analisa dados do comércio exterior.

A empresa aponta que 23,4% de todo frango exportado pelo Brasil tem como destino os sete países da região (Qatar, Bahrein, Irã, Iraque, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Arábia Saudita). Quando analisados todos os tipos de carne, a porcentagem é de 14,8%.

O setor de madeira também deve ser impactado. Hoje, os sete países consomem 5,1% de toda a madeira exportada pelo Brasil.

Já nas importações, o Brasil pode ser impactado na compra de plástico e petróleo. Segundo a DataLiner/Datamar, 5,1% dos derivados de petróleo e 4,1% do plástico importados pelo país vêm da região.

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