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Governo Lula quer um emissário no BC com possível indicação de Guilherme Mello
Governo Lula quer um emissário no BC com possível indicação de Guilherme Mello
Por Adriana Fernandes, Mariana Carneiro e Joana Cunha/Folhapress
03/02/2026 às 06:43
Foto: Marcello Casal Jr./Arquivo/Agência Brasil
Sede do BC
O governo Lula (PT) pretende, com a possível indicação do economista Guilherme Mello, ter um emissário no Banco Central. O movimento ocorre simultaneamente ao avanço das investigações do caso Master e num momento em que a instituição é alvo de críticas de aliados do presidente pela elevada taxa de juros.
Há preocupação da ala política do governo e do PT de o aprofundamento das investigações atrapalhar as negociações com o Congresso ao longo deste ano eleitoral. Como revelou a Folha, as investigações da Polícia Federal envolvendo o Master apontam possível envolvimento de políticos com foro especial.
A indicação de Mello foi feita a Lula pelo ministro Fernando Haddad (Fazenda). O presidente avalia indicá-lo para uma das duas vagas abertas atualmente no BC, apesar das resistências do mercado financeiro ao seu nome.
Procurado, o Ministério da Fazenda não se manifestou sobre a indicação.
Mello tem forte ligação com o PT —trabalhou na formulação do plano econômico do governo Lula— e sua indicação, se confirmada por Lula, sinalizaria influência não apenas de Haddad, mas do partido e do governo no órgão.
O surgimento do nome do economista Guilherme Mello para a vaga foi recebido com desconfiança pelo mercado financeiro. A leitura é de que Lula passaria um sinal de interferência política do PT num dos momentos mais difíceis para o BC com a crise do Master e o início do processo de queda da taxa Selic.
O balanço de forças produzido pela eventual entrada de Mello no BC é visto pelo mercado como uma tentativa de desidratação do poder do atual presidente, Gabriel Galípolo. Segundo pessoas a par do tema, ouvidas pela Folha na condição de anonimato, Galípolo não foi consultado sobre o nome, embora os dois tenham bom relacionamento.
De acordo com um auxiliar de Lula, o governo quer dar um recado ao mundo político de que o Palácio do Planalto e o PT estão distantes da investigação contra o Banco Master.
Uma das cadeiras abertas no colegiado do BC é a da diretoria de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução do Banco Central (BC), a área que foi responsável por analisar a compra do Master pelo BRB (Banco de Brasília). Foi essa diretoria que propôs a rejeição da operação, depois aprovada por unanimidade pelo colegiado de diretores da autarquia. A diretoria foi ocupada por Renato Gomes, que deixou o cargo em 31 de dezembro com o fim do seu mandato legal no BC.
Outra vaga a ser ocupada no colegiado do BC, que define os rumos da taxa Selic, é a diretoria de Política Econômica, que era comandada pelo economista Diogo Guillen.
Além de Haddad, a indicação recebeu o apoio da ministra Gleisi Hoffmann (Relações Institucionais), do presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, e da secretária-executiva da Casa Civil, Miriam Belchior.
A chegada de um diretor alinhado ao PT e a Haddad representaria, segundo observadores do trabalho da equipe econômica, a instalação no BC de uma voz que nem sempre estará afinada com Galípolo.
Além disso, nos últimos dias, o governo deu um sinal de distanciamento em relação ao atual presidente do Banco Central ao sinalizar o apoio de sua base no Senado à convocação de Galípolo para uma sabatina pública na CAE (Comissão de Assuntos Econômicos) para prestar informações sobre a atuação na liquidação do Banco Master.
O autor do pedido de convocação é o senador e irmão de Vital do Rêgo Filho, presidente do TCU (Tribunal de Contas da União), Veneziano Vital do Rêgo. Nas últimas semanas, a corte de contas ficou no centro de um embate jurídico com o BC, com pressão sobre a decisão do BC de liquidar o Master.
A CAE é presidida pelo senador Renan Calheiros (MDB-AL), aliado de Lula, que criou um grupo de trabalho para acompanhar as investigações sobre o Banco Master.
Pessoas próximas a Guilherme Mello relatam que ele não teria manifestado a Haddad o desejo de ocupar a vaga no BC, e que ele estaria bem no posto de secretário do Ministério da Fazenda.
A avaliação é que a maneira como a notícia de sua indicação foi vazada, no final de semana, não pegou bem e serviu para manter o nome de Mello sob fritura por dois dias, já que seu perfil de formação heterodoxa seria mal recebido pelo mercado.
A conclusão foi que faltou habilidade a Haddad, já que a notícia da indicação de Mello provocou ruído e impacto negativo sobre os juros futuros. Segundo economistas que acompanharam o caso no fim de semana, ficou a percepção de que o movimento seria apenas um capricho de Haddad para mostrar poder de influência sobre o BC e expor divergências com Galípolo.
Procurado pela reportagem, Mello não respondeu.
