Home
/
Noticias
/
Economia
/
Galípolo diz à PF que 'esgotou repertório de palavrões' por demora de servidores na fiscalização do Master
Galípolo diz à PF que 'esgotou repertório de palavrões' por demora de servidores na fiscalização do Master
Segundo presidente do BC, ex-gestores resistiam a apresentar informações sobre o banco
Por Nathalia Garcia/Folhapress
08/10/2026 às 18:30
Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil/Arquivo
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, disse em depoimento à Polícia Federal que "esgotou seu repertório de palavrões" em pressão sobre servidores por demora na fiscalização do Banco Master, de Daniel Vorcaro. Segundo ele, os funcionários que chefiavam a área de Supervisão Bancária resistiam a apresentar as análises solicitadas sobre a instituição financeira.
A íntegra das declarações consta em transcrição obtida pelo jornal Folha de São Paulo. Trechos da oitiva foram revelados pelo jornal O Estado de S. Paulo. Galípolo prestou depoimento à PF na última terça-feira (6) na condição de testemunha.
Segundo o inquérito, Belline Santana, ex-chefe de Supervisão Bancária, e Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de Fiscalização e na época chefe adjunto de Supervisão Bancária, teriam atuado em favor dos interesses de Vorcaro dentro do BC. A defesa de ambos nega que eles tenham adotado medidas de favorecimento ao ex-banqueiro.
Em relatório produzido pela PF, consta que Galípolo disse que se exaltou muitas vezes, "queixando-se da demora na produção dessas análises, tendo em conta o pedido de comunicação à polícia e de análise do fluxo, de comunicação ao Ministério Público e de análise do próprio balanço".
Segundo o presidente do BC, foram realizadas duas reuniões ampliadas, com mais de uma dezena de pessoas, incluindo a diretoria, nas quais "esgotou seu repertório de palavrões ao pedir com bastante ênfase aquela análise do balanço, não conseguindo entender por que parte do que estava sendo pedido, e que estava bastante claro do ponto de vista contábil e matemático, não chegava."
Ele contou também que a produção do comunicado sobre as fraudes ao Ministério Público foi um "processo de parto a fórceps, sendo preciso voltar, dar carga, pedir e se exaltar para que aquilo fosse produzido, buscando entender por que não estava sendo produzido".
De acordo com Galípolo, essa cobrança de providências foi rotina ao longo do ano passado. Diante da demora, o chefe do BC disse ter discutido com a diretoria sobre fazer atas das reuniões para registro.
Em nota, o advogado Leonardo Palazzi afirmou que o depoimento de Galípolo "não apontou qualquer indício concreto de irregularidade no exercício das atribuições funcionais" de Belline, "limitando-se a generalizações e a referências à atuação de outro servidor do Banco Central".
"Uma análise mais detida do referido depoimento revela, inclusive, contradições quanto ao escopo da supervisão prudencial e às medidas adotadas pela própria autarquia", afirmou.
Os lançamentos do balanço do Master foram motivo de divergência entre Paulo Sérgio e Galípolo, que tiveram discussões acaloradas durante reunião da diretoria com a equipe técnica.
O presidente do BC disse também à PF que a negociação envolvendo a aquisição do Master pelo BRB (Banco de Brasília) foi outro foco de embate com Paulo Sérgio, que defendia que os problemas com a compra de carteiras seriam resolvidos com o avanço da operação.
Ele também informou que o então chefe adjunto de Supervisão Bancária queria produzir documentos que eram de competência de outro departamento, o que lhe causou estranheza. A maneira como Paulo Sérgio opinava de maneira favorável à compra do Master pelo BRB "soou como comportamento exótico" para Galípolo, conforme depoimento prestado à PF.
Na visão do chefe da autarquia, de acordo com seu relato, era preciso seguir um rito de maneira "bastante estrita e rigorosa" na análise da operação para evitar argumentos de que a decisão não tinha sido técnica, "num contexto de vitimização do banco que vinha sendo tentado ao longo do seu primeiro ano de gestão".
No momento da liquidação do Master, em novembro de 2025, Galípolo disse ter tido conversas restritas para evitar vazamento de informações. Segundo ele, a cúpula do BC tinha identificado que dados confidenciais debatidos internamente "pareciam chegar até os acionistas e à alta direção do banco" de Vorcaro.
O presidente do BC contou sobre a criação de uma equipe paralela, sem Belline e Paulo Sérgio, para analisar inconsistências nas carteiras geradas ou compradas pelo Master, sob a necessidade de ter "outros olhos" de supervisão. De acordo com Galípolo, o diretor Aílton de Aquino (Fiscalização) fez os primeiros alertas sobre o caso.
"De início, sempre se tem muita dúvida sobre se a equipe original, que supervisionava e fiscalizava há muito tempo, poderia não ter identificado o problema efetivamente, mas que, com o tempo, aquilo culminou no próprio processo de uma notificação à Polícia Federal sobre um comportamento que levava à suspeita de benefícios indevidos, de vantagens indevidas", disse.
Segundo o chefe do BC, a reunião solicitada pelo Master na véspera da liquidação, na qual veio a público o interesse da Fictor, motivou Galípolo a ligar para a Polícia Federal "para dizer que havia receio de que acontecesse alguma coisa, pois o banco pedia uma reunião com urgência para aquele momento, o que lhe pareceu indicar que [Vorcaro] poderia estar tentando fugir ou algo do tipo".
Investigação interna do Banco Central concluiu que Belline simulou contratos de serviços para um projeto social para ocultar o recebimento de propina do Master ou de pessoas ligadas ao grupo.
A sindicância do BC também detectou indícios de que Paulo Sérgio simulou a venda de um sítio em Minas Gerais para uma empresa controlada por Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, com o mesmo objetivo de ocultar recebimento de propina.
A conduta dos ex-gestores do BC está sendo analisada pela CGU (Controladoria-Geral da União) desde março em um PAD (Processo Administrativo Disciplinar) que pode levar à expulsão dos servidores do quadro funcional da autarquia se forem considerados culpados.
Além de Galípolo, a PF também convocou o ex-chefe do BC, Roberto Campos Neto, e o dono do BTG Pactual, André Esteves, para falar à corporação. Os depoimentos deles também estavam previstos para esta semana, mas foram adiados. A oitiva do diretor Aílton de Aquino está marcada para esta quinta-feira (8).
