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Crescente no 1º turno desde 2006, abstenção pode definir eleição com cenário apertado

Crescente no 1º turno desde 2006, abstenção pode definir eleição com cenário apertado

Por Paula Soprana/Folhapress

03/10/2026 às 09:57

Foto: Marcello Casal Jr./Arquivo/Agência Brasil

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Na disputa deste ano, a ausência de eleitores tende a penalizar Lula

A abstenção no primeiro turno das eleições presidenciais cresce desde 2006, com alta de quatro pontos percentuais até 2022, quando o índice chegou a 20,79%, 32,2 milhões de brasileiros ausentes. Em uma eleição com apenas dois candidatos competitivos e empatados dentro da margem de erro no agregado das pesquisas, a abstenção pode definir o resultado.

No pleito passado, entre Jair Bolsonaro (PL) e Lula (PT), as margens nas pesquisas não eram tão apertadas a poucos dias da votação, e a abstenção caiu no segundo turno pela primeira vez desde 2002, mesmo com o rescaldo das restrições da pandemia. O petista voltou ao Palácio do Planalto.

Na disputa deste ano, a ausência de eleitores tende a penalizar Lula, na avaliação do cientista político Antônio Lavareda, presidente da Abrapel (Associação Brasileira de Pesquisas Eleitorais). Ele aposta que o crescimento da abstenção é certo (cresce a cada pleito) e que o índice é puxado pelos eleitores menos escolarizados e de menor renda, público de maior apoio do petista.

"A abstenção vai prejudicar Lula porque ele tem menos votos entre os menos escolarizados do que tinha em 2022. Há uma insatisfação com a economia e a percepção de que ela não melhorará", afirma.

Lavareda diz que a chamada correlação de Spearman (que mede se duas variáveis tendem a variar juntas e em que direção) entre escolaridade e abstenção é quase absoluta, de -0,97, o que significa que, quanto menor a escolaridade, maior a tendência de abstenção.

Para ele, isso não foi um problema em 2018, por exemplo, porque o então presidenciável Fernando Haddad (PT) teve votação muito baixa no primeiro turno, de 22%, "e com pouca presença da base da pirâmide social, diferentemente de Lula, que arrasta o público de baixa renda e escolaridade".

Essa fidelidade da base da pirâmide a Lula poderia ser uma motivação para o voto, mas para o cientista político quem se abstém são os eleitores com "menor consistência" em relação ao voto e à política, e para os quais também pesam as dificuldades logísticas.

As cidades com maior abstenção estão localizadas em áreas mais remotas da região Norte, em algumas áreas de fronteira e em municípios pequenos.

Além disso, há evidências de que a campanha deste ano tem o menor engajamento desde a redemocratização: é a primeira eleição em décadas sem debate entre os principais candidatos e o grau de interesse medido nas pesquisas é baixo.

Segundo o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), os analfabetos respondem pelo perfil com maior taxa de abstenção. Em 2022, eles registraram 52% de abstenção no primeiro turno e 49,3% no segundo. Entre os eleitores com ensino superior completo, a taxa foi de 12,4%.

Também apresentam taxas elevadas de abstenção os eleitores mais velhos, para os quais o voto é facultativo. Entre os maiores de 70 anos, a abstenção foi de 58,8% no primeiro turno e de 54,7% no segundo.

A última pesquisa Datafolha, de quinta-feira (1º), indicou Lula com 42% das intenções de votos totais no primeiro turno, contra 38% de Flávio Bolsonaro. Os eleitores dispostos a votar nulo ou em branco somaram 5%, enquanto 2% se declararam indecisos.

Em votos válidos (que excluem brancos, nulos e indecisos), Lula registrou 45%, e Flávio Bolsonaro, 40%. No segundo turno, em votos totais, há empate técnico dentro da margem de erro: 48% para Lula e 45% para Flávio.

Luciana Chong, diretora do instituto, concorda sobre o peso da abstenção neste ano diante das margens, mas afirma ser difícil prever qual dos candidatos será penalizado.

"Na última pesquisa, incluímos a pergunta sobre a chance de votar, de 0 a 10, e separamos em dois grupos: um que deu notas de 0 a 8 e outro que deu notas 9 e 10. No primeiro grupo, que é o que podemos associar a uma maior chance de abstenção, estão 17%. Neste perfil, jovens estão acima da média e também os menos escolarizados, potenciais eleitores de Lula. Só que o índice é maior no Sudeste. No Nordeste, você tem mais eleitores dando notas 9 e 10, ou seja, dizendo que votarão no domingo", afirma.

Por isso, segundo ela, "não dá para ser tão categórico". "O menos escolarizado lidera a abstenção e vota em Lula, mas também há uma fatia que está com Flávio, e o Sudeste tem menos chance de votar do que o Nordeste."

Receoso em fazer estimativas, Jairo Nicolau, professor e pesquisador do CPDOC/FGV (Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getulio Vargas), considera curioso que a recusa à política manifestada pelo eleitorado nos últimos anos ainda não tenha se transformado no chamado "não voto".

"Em 2013 foi aquela confusão, e em 2014 não aconteceu nada nas urnas [alteração significativa em abstenção, brancos e nulos]. Ou seja, foi uma insatisfação temporária. Depois veio a Lava Jato, a insatisfação virou bolsonarismo. Na última eleição, houve redução da abstenção no segundo turno, e brancos e nulos até caíram para presidente. E agora vem esse clima estranho e a gente não sabe em que isso vai se traduzir. Acho que uma hora vai se traduzir em recusa."

Para Bruno Reis, professor de ciência política da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), seja qual for a abstenção, o comparecimento dos eleitores brasileiros, em torno de 80%, continuará alto —o que ele considera um sintoma positivo do sistema eleitoral.

"O voto obrigatório no Brasil é quase simbólico, já que, com R$ 5, você regulariza sua situação em dois minutos numa seção eleitoral qualquer. Na realidade, não tem penalização nenhuma para não comparecer. E cerca de 80% comparecem."

Colaborou Fabio Victor, de São Paulo

 

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