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Argentina recusa se manifestar sobre vitória de Lula e diz que Milei 'não é hipócrita'
Argentina recusa se manifestar sobre vitória de Lula e diz que Milei 'não é hipócrita'
Por Daniela Arcanjo, Folhapress
27/10/2026 às 14:00
Foto: Reprodução/Instagram/Arquivo
O presidente argentino, Javier Milei e o senador Flávio Bolsonaro (PL)
O porta-voz de Javier Milei, Adrian Ravier, afirmou a jornalistas na manhã desta terça-feira (27) que não haverá nenhum tipo de comunicado do governo argentino em relação à vitória de Luiz Inácio Lula Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL), aliado do ultraliberal.
"Tomou-se nota do resultado eleitoral no Brasil", afirmou o funcionário na entrevista coletiva semanal na Casa Rosada ao responder por que ainda não houve manifestação sobre as eleições de domingo (25). Em seguida, afirmou: "Em 2023, quando Javier Milei foi eleito presidente, não houve qualquer gesto do presidente Lula para cumprimentá-lo pessoalmente, nem nada do tipo".
A declaração está incorreta. O petista foi um dos primeiros líderes da América Latina a reconhecer os resultados quando o Milei foi eleito, em novembro de 2023, embora não tenha citado o nome do presidente argentino.
"A democracia é a voz do povo, e ela deve ser sempre respeitada. Meus parabéns às instituições argentinas pela condução do processo eleitoral e ao povo argentino que participou da jornada eleitoral de forma ordeira e pacífica", disse Lula na ocasião.
"Desejo boa sorte e êxito ao novo governo. A Argentina é um grande país e merece todo o nosso respeito. O Brasil sempre estará à disposição para trabalhar junto com nossos irmãos argentinos."
Questionado em seguida sobre as implicações comerciais da decisão de não reconhecer o resultado, o porta-voz de Milei afirmou que "do lado argentino, a diplomacia continua, as relações comerciais continuam".
"Todas as pessoas e empresas, tanto da Argentina quanto do Brasil, que desejem comercializar e estabelecer relações, poderão continuar a fazê-lo com total normalidade. Nem hoje, nem na semana que vem. O que posso dizer aqui é que o presidente não é um hipócrita. Digamos que existe uma diferença ideológica real entre os dois mandatários", concluiu.
As desavenças entre os dois remontam a 2023, quando Milei se referiu ao petista como comunista e corrupto durante sua vitoriosa campanha à Casa Rosada. Em junho de 2024, Lula sugeriu que seu homólogo pedisse desculpas, ao que o argentino respondeu que havia coisas mais importantes do que "o ego inflado de algum esquerdinha".
Em nenhum momento, porém, a crise havia sido tão séria quanto na campanha eleitoral deste ano. No final de julho, Milei viajou a São Paulo para o lançamento da campanha de Flávio e usou seu discurso no evento para chamar Lula de ladrão, presidiário e "lixo socialista", além de referir-se a Alexandre de Moraes, ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) como "lixo careca".
Como resposta, o governo brasileiro convocou o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Julio Bitelli, e seu homólogo argentino em Brasília, Daniel Raimondi. Semanas depois, diante da escalada de ofensas de Milei, o Itamaraty decidiu manter Bitelli no Brasil e dispensar Raimondi —um inédito rebaixamento das relações entre os dois países.
Desde o início dessa crise, Milei já compartilhou em suas redes sociais uma mensagem dizendo que "os brasileiros merecem muito mais do que esse porco", em referência a Lula, e uma caricatura do pestista em meio a escombros e ao lado de outros líderes de esquerda da América Latina.
