Na ONU, Lula critica ingerência externa nas eleições, sem mencionar EUA
Por Mayara Paixão e Isabella Menon/Folhapress
22/09/2026 às 12:55
Atualizado em 22/09/2026 às 12:38
Foto: Ricardo Stuckert/Arquivo/PR
O presidente Lula
"Não somos quintal de ninguém", disse o presidente Lula (PT) em discurso na ONU nesta terça-feira (22) marcado por constantes referências contrárias à interferência externa na América Latina. Sem mencionar nominalmente os Estados Unidos, o presidente falou reiteradamente sobre as ações do governo de Donald Trump.
"Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais", disse ele. "Diferências ideológicas não devem ser obstáculo para integração entre vizinhos. A democracia está em xeque", seguiu, após mencionar as interferências praticadas pela "maior potência militar do mundo" (os EUA).
O tema permeou sua fala e voltou com maior clareza ao final. Lula mencionou as eleições do próximo dia 4, nas quais concorre à reeleição e tem no senador Flávio Bolsonaro (PL) o seu maior adversário. Afirmou que o país terá um pleito transparente e competitivo.
"Um pleito no qual os candidatos desfrutam da mais ampla liberdade de expressão", seguiu. E acrescentou, em referência indireta à família Bolsonaro: "Sabemos que alguns abusam dessa liberdade para se associar a interesses estrangeiros contrários ao país."
"Sob o olhar atento de uma cidadania plural e de uma imprensa livre, não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular", continuou o presidente, que adendou o seu tradicional "a democracia brasileira pertence aos brasileiros".
Lula abriu os discursos de chefe de Estado no evento, função que cabe tradicionalmente ao Brasil. Como era esperado, também falou sobre o crime organizado, bandeira dos EUA nas Américas:
"O Brasil não subestima o crime organizado. Estamos preparados para enfrentar os criminosos. Mas não vamos terceirizar a responsabilidade de defender nossas fronteiras. Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas armas."
Lula está entre os chefes de Estado que por mais vezes discursaram na Assembleia-Geral. Hoje em seu terceiro mandato, ele já compareceu ao evento dez vezes —ficou de fora em 2005, época do escândalo do Mensalão, e 2010, quando preparava a campanha da ex-presidente Dilma Rousseff para sucedê-lo.
Há temas que aparecem em seu discurso independentemente da agenda doméstica ou internacional naquele ano: a necessidade de reforma do Conselho de Segurança da ONU, o órgão que, com seus cinco membros permanentes com poder de veto tem o maior poder decisório da organização; e a necessidade de combater a fome e pobreza no mundo.
Neste ano, sua ida a Nova York se dá sob dois precedentes importantes. O primeiro, a eleição no Brasil daqui a duas semanas. O segundo, a frágil relação bilateral com o governo de Trump, que aplicou tarifas econômicas contra o Brasil, muito maiores que as designadas a outros países, e tem tentado interferir no processo internacional.
Como é de praxe, Lula esteve durante a tarde de toda esta segunda-feira (21) ajustando os itens finais do discurso. Boa parte do que disse na ONU já havia sido adiantado pelo petista em outras declarações dadas em Nova York, em especial a defesa da soberania brasileira contra interferências de outros países (leia-se, dos EUA).
Na véspera de discursar no plenário, ele se reuniu com adversários de Trump: primeiro, o prefeito de Nova York, o socialista democrata Zohran Mamdani; depois, o senador independente Bernie Sanders. Ele também concedeu entrevista à CNN internacional, quando voltou a chamar o republicano de "imperador" e criticar o que chama de uma guerra econômica em curso no mundo.
O presidente retorna ao Brasil pouco após discursar no plenário da organização para seguir com sua agenda de campanha.
