Lula vai à ONU acenar ao eleitor antes da eleição e pode encontrar Trump
Por Isabella Menon e Mayara Paixão, Folhapress
20/09/2026 às 18:47
Foto: Ricardo Stuckert/PR/Arquivo
Presidente brasileiro deverá evitar confronto direto com líder americano e reforçar defesa da não intervenção
O presidente Lula (PT) desembarca em Nova York neste domingo (20) para participar da Assembleia-Geral da ONU em uma passagem curta pelos Estados Unidos marcada pelo momento delicado da relação entre Brasília e Washington e às vésperas da eleição que disputa páreo a páreo com o senador Flávio Bolsonaro (PL).
O petista fará na terça-feira (22) o tradicional discurso de abertura das falas de chefes de Estado no evento, que reúne representantes dos 193 países-membros das Nações Unidas. Ele será seguido pelo líder do país anfitrião —portanto, Donald Trump.
A sequência cria a possibilidade de um encontro rápido entre os dois presidentes nos bastidores, ainda que não haja uma reunião formal prevista. Foi justamente nesse curto intervalo que os dois se encontraram pela primeira vez no ano passado, quando conversaram por cerca de 40 segundos antes do discurso do americano.
O contato inesperado, em setembro de 2025, abriu caminho para uma retomada do diálogo entre os dois governos depois de meses de atritos. Nos dias seguintes, representantes brasileiros e americanos ampliaram as conversas sobre o tarifaço imposto a produtos do Brasil e outras medidas adotadas por Washington, entre elas sanções financeiras e restrições de vistos.
Um ano depois, Lula chega a Nova York com a relação bilateral novamente sob pressão. A poucas semanas das eleições brasileiras, integrantes do governo têm manifestado preocupação com uma possível interferência externa no processo eleitoral e passaram a colocar a defesa da soberania nacional no centro do discurso político.
O tema deve aparecer também na fala de Lula na ONU. A expectativa é que o presidente defenda o princípio da não intervenção nos assuntos internos dos países e ressalte que decisões políticas, judiciais e eleitorais brasileiras devem ser tomadas sem pressão externa. A orientação, porém, é fazer essa defesa em termos mais amplos, sem transformar o discurso em um ataque nominal ao governo americano.
A soberania já vinha sendo explorada por Lula em discursos recentes, especialmente ao tratar de comércio, minerais estratégicos, combate ao crime organizado e das eleições de outubro. Em agosto, ele afirmou que o Brasil deseja manter uma relação de cooperação com Washington, mas não aceita interferência em assuntos internos.
As eleições brasileiras, marcadas para 4 de outubro, acrescentam uma camada de sensibilidade à viagem. O governo tem demonstrado preocupação com manifestações ou medidas americanas que possam repercutir na campanha, enquanto procura evitar uma nova escalada diplomática a poucos dias da votação.
Ao mesmo tempo, Lula deve usar seu espaço de discurso, que deve durar em torno de 20 minutos segundo previsões iniciais da equipe, para acenar à sua base, com mensagens importantes que vão além da soberania: o petista também deve falar da importância do combate ao crime organizado (mas de maneira diferente da feita hoje pelos EUA na América Latina), sobre a emergência climática e a fome.
Nesta segunda (21), o presidente tem um encontro marcado com o prefeito de Nova York, o socialista democrata Zohran Mamdani. Ainda que seus auxiliares neguem que a reunião, feita a convite do nova-iorquino, possa enviar um sinal ruim a Trump, fato é que hoje Mamdani é a figura pública com maior capacidade de antagonizar com Trump, ainda que não possa disputar a Presidência por não ter nascido em solo americano.
Os atritos entre Brasil e EUA se acumularam ao longo deste ano. Entre eles estão novas disputas comerciais, divergências sobre o combate ao crime organizado e a classificação de facções brasileiras, além da revogação do visto da embaixadora em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti.
A medida ocorreu em meio à demora do governo brasileiro em conceder o agrément —o aval diplomático necessário— ao indicado para assumir a embaixada americana em Brasília.
O desembarque do presidente em Nova York também ocorre em meio a uma derrota simbólica para o Brasil. A ONU está prestes a eleger um novo secretário-geral, com a saída do português António Guterres após dez anos no cargo, e a candidata patrocinada pelo Brasil, a chilena Michelle Bachelet, desistiu da campanha no sábado (19).
Bachelet vinha apresentando mau desempenho nas votações secretas que ocorrem no Conselho de Segurança, o órgão que decide quem será o novo chefe da ONU. Na última votação até o momento, ficou claro que ela era vetada por ao menos um dos cinco membros-permanentes da organização —o que impede que tenha chances reais.
