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Copom vê atividade econômica mais fraca sob efeito de juros altos e queda da inflação, mostra ata

Copom vê atividade econômica mais fraca sob efeito de juros altos e queda da inflação, mostra ata

Por Nathalia Garcia/Folhapress

22/09/2026 às 10:17

Foto: Marcello Casal Jr./Arquivo/Agência Brasil

Imagem de Copom vê atividade econômica mais fraca sob efeito de juros altos e queda da inflação, mostra ata

No documento, o comitê afirmou que têm se acumulado gradualmente as evidências da transmissão da política de juros sobre o dinamismo da economia

O Copom (Comitê de Política Monetária) disse ver perda de força da atividade econômica sob efeito de juros altos e queda da inflação, segundo ata divulgada pelo Banco Central nesta terça-feira (22).

Apesar de reconhecer um cenário doméstico mais favorável para sua atuação, o colegiado do BC preservou uma comunicação cautelosa e defendeu sua estratégia de queda de juros a conta-gotas. Na última quarta (16), o Copom decidiu por unanimidade reduzir pela quinta vez seguida a taxa básica (Selic) em 0,25 ponto percentual, de 14% para 13,75% ao ano.

No documento, o comitê afirmou que têm se acumulado gradualmente as evidências da transmissão da política de juros sobre o dinamismo da economia.

"A leitura mais recente do PIB [Produto Interno Bruto], referente ao segundo trimestre de 2026, confirmou a desaceleração apontada por outros indicadores e revelou que o movimento foi mais intenso nas atividades econômicas e nos componentes da demanda mais sensíveis ao ciclo econômico", disse.

Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o PIB desacelerou no Brasil no segundo trimestre, com avanço de 0,5% em relação aos três meses anteriores. O resultado veio após alta de 1,1% no primeiro trimestre. O recuo da taxa que mede o consumo das famílias puxou o indicador para baixo.

O Copom disse também ter observado a evolução do mercado de crédito bancário com recursos livres, com desaceleração nas linhas de prazos mais longos.

No entanto, mencionou a expansão nas modalidades com crédito direcionado, com juros mais baixos do que as linhas pactuadas livremente entre bancos e clientes, depois de o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ter lançado medidas com potencial para impulsionar o consumo das famílias em ano eleitoral.

"Nota-se, em particular, redução nas modalidades de mais longo prazo, mais sensíveis à política monetária que as modalidades de curto prazo ou emergenciais, mais onerosas. Estas continuaram crescendo, porém com desaceleração na margem", disse. "Por outro lado, os créditos com recursos direcionados mantiveram trajetória de expansão para pessoas físicas, na linha do crédito imobiliário, e para empresas, sustentados pelas operações com fundos garantidores."

A questão fiscal foi mantida no balanço de riscos para a inflação, com o alerta de que novos estímulos, em especial sobre consumo, podem atrapalhar a queda da Selic. O colegiado voltou a defender harmonia entre as políticas fiscal e de juros, com convicção de que elas devem ser previsíveis e críveis.

Além do efeito sobre o curto prazo, o Copom chamou novamente atenção para a dimensão mais estrutural da trajetória das contas públicas, que pode afetar a percepção sobre a sustentabilidade da dívida e o custo extra que o investidor cobra para financiar o governo no longo prazo.

"O comitê reafirma a visão de que o esmorecimento no esforço de reformas estruturais e disciplina fiscal, o aumento de crédito direcionado e as incertezas sobre a estabilização da dívida pública têm o potencial de elevar a taxa de juros neutra da economia [aquela que não estimula nem desestimula a atividade econômica], com impactos deletérios sobre a potência da política monetária e, consequentemente, sobre o custo de desinflação em termos de atividade", repetiu.

Em relação ao comportamento da inflação, afirmou que as leituras mais recentes apontam para queda da inflação ao consumidor, tanto no índice cheio quanto na média das medidas subjacentes (que apontam tendência para os preços). Mas ponderou que o índice acumulado em 12 meses situa-se acima da meta, ainda que abaixo do limite superior do intervalo de tolerância.

O IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) desacelerou para 4,22% no acumulado de 12 meses até agosto, puxado pela queda da conta de luz sob impacto temporário do bônus de Itaipu.

O alvo central do BC é 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos. No modelo de meta contínua, em vigor atualmente, o objetivo é considerado descumprido pela autoridade monetária quando a inflação acumulada permanece durante seis meses seguidos fora do intervalo, que vai de 1,5% (piso) a 4,5% (teto).

Apesar de ter reconhecido a perda de força da atividade e o recuo de preços, o comitê reforçou que a inflação permanece pressionada pela demanda e que monitora com atenção eventuais efeitos indiretos dos choques de oferta sobre a trajetória de preços. Além disso, demonstrou incômodo com o distanciamento das expectativas de inflação em relação à meta.

Reafirmou que acompanhará a evolução do cenário de forma a manter a Selic em patamar restritivo para cumprir seu objetivo de controle da inflação e que é preciso ter "serenidade e cautela" na condução dos juros diante de um contexto de maior incerteza, com expectativas de inflação distantes do alvo e riscos elevados para suas projeções.

Mais uma vez, o colegiado do Banco Central evitou antecipar seus passos seguintes, reforçando a postura "dependente dos dados" adotada pela gestão de Gabriel Galípolo. Isso significa que o Copom evita se comprometer antecipadamente com qualquer movimento futuro e que suas decisões ficam atreladas à evolução dos dados divulgados entre uma reunião e outra.

O Copom voltará a se reunir nos dias 3 e 4 de novembro, quando já será conhecido o resultado das eleições presidenciais.

Assim como no comunicado, o comitê repetiu na ata que, devido aos riscos associados à evolução dos preços, o tamanho total do ciclo de queda de juros será definido "à luz de novas informações" com o objetivo de levar a inflação à meta de 3%.

Desde o início do recuo da Selic, em março, foram cinco cortes consecutivos de mesma intensidade (0,25 ponto), com queda acumulada de 1,25 ponto percentual.

No cenário de referência do Copom, a estimativa de inflação subiu de 5,1% para 5,2% para este ano e de 3,8% para 3,9% para 2027. Devido aos efeitos defasados da política de juros sobre a economia, o BC já tem na mira o primeiro trimestre de 2028. Nesse intervalo, a expectativa se manteve parada em 3,2%.

Esse cálculo foi feito com base na trajetória para a taxa de juros extraída da pesquisa Focus, que projetava a Selic em 13,75% ao ano em 2026, e a taxa de câmbio a R$ 5,15, evoluindo segundo a paridade do poder de compra. O preço do petróleo seguia a curva futura pelos próximos seis meses e passava a aumentar 2% ao ano posteriormente.

Em relatório, o economista-chefe do Itaú Unibanco e ex-diretor do BC, Diogo Guillen, avaliou que a ata foi consistente com a decisão do Copom e que o documento mantém em aberto o debate sobre os próximos passos do BC e não oferece sinais mais claros sobre a trajetória futura da taxa de juros.

"A principal novidade foi a inclusão de um trecho sobre o crédito bancário, destacando a diferença entre as modalidades de prazo mais longo, que vêm apresentando desaceleração, e as linhas emergenciais, que continuam registrando crescimento", disse.

A avaliação da equipe da Warren Rena, em relatório, é que a continuidade no ciclo de cortes de juros se justifica essencialmente pela comunicação do BC, que pretende manter a taxa restritiva, com uma calibragem gradual do nível da Selic. "Caso não haja uma evolução mais positiva no cenário, entendemos que o Banco Central terá que interromper a calibração no futuro", afirmou.

Entre os destaques da ata, mencionou a introdução do trecho sobre o mercado de crédito e a citação voltada para o crédito direcionado. "Aqui, pode ser entendido como uma manifestação do Banco Central em relação a políticas de governo que reduzem a eficiência desse canal de transmissão", disse.

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