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A empresários Lula diz que estabilidade fiscal é obrigatória e defende reforma do Judiciário

A empresários Lula diz que estabilidade fiscal é obrigatória e defende reforma do Judiciário

Presidente apoia discussão sobre mandato para ministros do Supremo e afirma que sociedade deve participar de mudança

Por Alexa Salomão/Joana Cunha/Pedro S. Teixeira/Folhapress

26/09/2026 às 08:40

Foto: Ricardo Stuckert/PR

Imagem de A empresários Lula diz que estabilidade fiscal é obrigatória e defende reforma do Judiciário

Presidente Lula (PT) durante encontro com quase empresários e executivos em São Paulo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) defendeu nesta sexta-feira (25) uma reforma do Judiciário, criticou a atuação das agências reguladoras e fez duras críticas a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, durante encontro com quase 700 empresários e executivos em São Paulo.

Diante de uma plateia especialmente interessada em ouvir propostas para a economia, Lula afirmou que manter as contas públicas sob controle é uma obrigação de qualquer governo.

"Estabilidade fiscal é uma coisa obrigatória, não é nem competência do governo, é obrigatória dele", afirmou. "Essa questão da estabilidade fiscal, da estabilidade econômica é uma obrigação nossa, não é nem mérito".

Lula disse que recebeu o governo com déficit de 2,8% e afirmou que neste ano entregaria superávit de 0,1%, números que apresentou como demonstração de uma trajetória de ajuste das contas. Ao mesmo tempo, rejeitou que o equilíbrio fiscal seja obtido por meio de cortes na Previdência e nas políticas sociais.

"Quando você vê alguém falar: ‘Eu preciso cortar gasto na Previdência, eu preciso cortar gasto na política de inclusão social’, você está fazendo o que se fez historicamente nesse país que não deu certo: é tornar o pobre mais pobre", afirmou. Em seguida, disse que responsabilidade social e fiscal precisam caminhar juntas.

O presidente também reclamou de o Brasil ainda não ter recuperado o grau de investimento, apesar da queda do risco-país. Ao lembrar que o país conquistou a classificação durante seus primeiros governos, disse ter chegado a procurar agências de classificação de risco nos Estados Unidos para questioná-las.

Na parte mais política do discurso, Lula defendeu uma reforma do Judiciário e afirmou que o país precisa discutir inclusive a forma de escolha dos ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) e a possibilidade de substituir o cargo vitalício por mandatos.

"Como é que vai escolher o ministro da Suprema Corte? Ele vai ter mandato perpétuo ou vai ter um mandato? Não vou saber como, não vou decidir sozinho, mas eu acho que a sociedade vai ter que se manifestar, porque o que está acontecendo não é bom para o país", afirmou.

Na sequência, Lula mencionou o dono do Master. "Esse Vorcaro devia ser um malandro mesmo, que esse cara conseguiu corromper todo mundo. O que ele não corrompeu com dinheiro, ele corrompeu com orgia", disse.

As declarações foram feitas no Hotel Tivoli Mofarrej, na região da avenida Paulista, em encontro promovido pela Esfera Brasil, pelo grupo jurídico Prerrogativas e pelo Parlatório. O evento reuniu representantes de alguns dos maiores grupos empresariais do país e fazia parte de uma série de encontros com candidatos à Presidência.

Entre os que foram ouvir Lula estavam Joesley Batista, acionista da J&F e membro do conselho de administração da JBS, líder do setor de carnes; Gustavo Pimenta, CEO da Vale, uma das maiores mineradoras do mundo; e Rodrigo Vidigal, presidente da fabricante de celulares Motorola no Brasil.

Do setor financeiro, participaram, por exemplo, Milton Maluhy Filho, CEO do Itaú Unibanco, e Ricardo Lacerda, sócio-fundador e CEO do BR Partners Banco de Investimentos.

Na área de energia, marcaram presença Ivan Monteiro, CEO da Axia Energia, antiga Eletrobras; João Brito Martins, CEO da EDP para a América do Sul; e Rubens Ometto, fundador e presidente do conselho de administração da Cosan.

Apesar da grande procura —o número de participantes superou o previsto inicialmente—, muitos falaram antes de Lula, alongando o evento. Alguns dos principais convidados não permaneceram até o fim.

A reportagem viu um banqueiro deixando o local antes do início da fala de Lula. Já durante o discurso presidencial saíram outros executivos. Ao serem abordados pela reportagem, disseram que antecipavam a saída para evitar o trânsito.

O clima que antecedeu a fala do presidente era de expectativa. Como definiu um executivo presente, os empresários esperavam que Lula sinalizasse um norte para a economia, especialmente em relação à política fiscal. Entre as preocupações mencionadas pelos participantes estavam os juros elevados e o endividamento das famílias.

Outro bilionário ouvido pelo jornal Folha de São Paulo disse que a grande expectativa de quem havia ido assistir às falas de Lula nesta noite era ouvir do presidente uma declaração mais firme de compromisso com responsabilidade fiscal.

No discurso, Lula também dirigiu críticas às agências reguladoras, especialmente à ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis). O presidente disse ter convocado dirigentes da agência para discutir problemas de fiscalização e afirmou que pretende rever a relação entre as autarquias e o Executivo.

"As agências vão ter que voltar a ser agência reguladora, e quem define a política pública é o Estado brasileiro. É para isso que nós somos eleitos", afirmou. Lula acrescentou: "Nós não fomos eleitos para ver as nossas agências serem cooptadas e os empresários mandarem determinados políticos nas agências."

Segundo Lula, a ANP foi chamada para explicar dificuldades de fiscalização. No relato do presidente, o dirigente da agência mencionou o número de funcionários em trabalho remoto. "Então não tem como fiscalizar", afirmou Lula.

As declarações ocorreram durante uma longa retrospectiva de seus governos, na qual Lula procurou apresentar aos empresários resultados econômicos e sociais de suas gestões e defender sua experiência como diferencial na disputa eleitoral.

ELEIÇÃO E EXPERIÊNCIA

Lula aproveitou o encontro para pedir votos e fez sucessivas críticas a seus adversários, algumas delas sem mencionar diretamente o candidato do PL, Flávio Bolsonaro.

"Vocês estão vendo quem são os candidatos. Eu não preciso falar mal de ninguém. Vocês sabem quem são os candidatos e vocês sabem quantos têm condições de governar esse país", afirmou.

Em seguida, apresentou a experiência dele e do vice-presidente Geraldo Alckmin como argumento eleitoral. "Vocês estão diante de um cara que governou o estado mais rico por 16 anos e o único presidente que está governando há 12 anos. Qual é a dúvida?"

Em outro momento, foi ainda mais explícito: "Se for só isso, eu sei que vocês vão votar em mim, que eu sou melhor do que ele". Lula afirmou que ele e Alckmin formavam uma dupla "melhor do que tudo que está na mesa".

O presidente também associou a eleição à relação do Brasil com os Estados Unidos. Disse que o eleitor teria de escolher entre alguém que defende os interesses brasileiros e alguém que "vai beijar a bandeira americana".

A partir daí, relacionou soberania, minerais críticos e industrialização. Lula afirmou que os Estados Unidos estão interessados nas reservas brasileiras de terras raras e minerais críticos e defendeu que os recursos sejam processados no país, em vez de simplesmente exportados.

"Nós precisamos nos preparar para que essa nova possibilidade de riqueza que está no subsolo seja um novo passaporte para o futuro desse país, que seja extraída aqui, seja transformada aqui, seja trabalhada aqui, industrializada aqui", disse.

Lula afirmou não ser contrário ao investimento estrangeiro, mas defendeu que ele traga conhecimento para o país. "Eu quero. Vai ter que vir para trabalhar sob o nosso comando, porque nós queremos ter conhecimento tecnológico. Porque senão a gente vai virar um mero exportador outra vez."

"EMPRESÁRIOS DESAFORADOS"

Ao falar sobre industrialização, Lula lembrou o ex-presidente da Vale Roger Agnelli, morto em 2016, com quem disse ter discutido sobre a necessidade de agregar valor ao minério extraído no Brasil. Contou também ter participado do lançamento de um projeto siderúrgico em Marabá, no Pará, que acabou não saindo do papel.

O presidente relacionou a queda do consumo de aço à retração de setores como construção civil, indústria automobilística e indústria naval. Lembrou que o mercado brasileiro chegou a vender cerca de 3,8 milhões de automóveis e depois caiu para 1,6 milhão, segundo os números citados por ele.

Foi nesse ponto que elogiou o que chamou de "empresários desaforados".

"Eu admiro muito, admiro muito os empresários desaforados", disse. Dirigindo-se a Joesley Batista, afirmou: "Estou olhando para você, Joesley, porque eu acho que você é empresário desaforado". Segundo Lula, o empresário não queria apenas vender carros e estaria entrando também na produção de foguetes e mísseis. "Nós precisamos encontrar empresários que sejam parceiros para fazer esse país crescer em coisas que a gente precisa".

IA, DATA CENTERS E DISPUTA COM EUA E CHINA

Marcos Almeida, CEO da Brookfield no Brasil, após elogiar aprovação a recente de um incentivo tributário para data centers, disse que tem apenas um pedido para Lula: "Que o governo lute para reconquistar o grau de investimento".

Esse reconhecimento, segundo Almeida, seria atingido com melhorias nas contas públicas e traria novos projetos de infraestrutura ao Brasil. A canadense Brookfield é dona de metade da Ascenty, maior empresa brasileira de complexos de processamento de dados.

Tecnologia ocupou uma parte específica do discurso. Lula elogiou a aprovação do Redata, programa de incentivos a data centers, mas alertou para o consumo de eletricidade dessas instalações e a defendeu expansão da geração para evitar que elas disputem energia com os demais consumidores.

"Essa questão de data center é uma coisa maravilhosa [...]. Mas a gente tem que tomar cuidado. Gasta-se muita energia", afirmou. "A gente não pode permitir que a energia que é produzida para o consumo da sociedade seja utilizada para data center".

Ao mesmo tempo, Lula defendeu uma infraestrutura tecnológica própria.

"Nós temos que ter os nossos data centers, porque eu não quero ficar brigando entre a China e os Estados Unidos para saber qual é a inteligência artificial. Quero a nossa", afirmou.

O presidente disse acreditar que o Brasil tem condições de disputar espaço com as duas potências. "Por que nós temos que ficar atrás de inteligência artificial? [...] Eu estou achando que nós temos competência de disputar com americanos e chineses".

A defesa de autonomia apareceu novamente quando Lula falou das relações com Donald Trump. Disse que o Brasil aprendeu a "não baixar a cabeça" e afirmou que negocia com os Estados Unidos sem abandonar o princípio da reciprocidade.

"Ninguém respeita quem não se respeita", disse. Mais adiante, afirmou que Trump aposta em ampliar a influência americana na América Latina, mas acrescentou: "Enquanto eu for presidente, o dono disso aqui chama-se povo brasileiro".

Já perto do fim do discurso, Lula voltou a falar de juros e ironizou a autonomia do Banco Central, lembrando que manteve Henrique Meirelles durante os oito anos de seus dois primeiros mandatos.

"Vocês brigaram pelo Banco Central independente, vocês brigaram, tinha que ser bom o Banco Central independente, mas agora virou um zoo. Mas vocês que pediram, não fui eu", disse aos empresários.

O discurso terminou em tom abertamente eleitoral. Lula voltou a apresentar sua chapa com Alckmin como "Lula com Chuchu" e pediu votos para o primeiro turno.

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