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Sucateamento da investigação criminal na Bahia entra na mesa de negociação após 17 anos de impasse
Sucateamento da investigação criminal na Bahia entra na mesa de negociação após 17 anos de impasse
Por Redação
03/08/2026 às 16:36
Atualizado em 03/08/2026 às 16:29
Foto: Divulgação
Mediação no TJ-BA discutirá reestruturação de carreiras consideradas estratégicas para a investigação de homicídios e o enfrentamento ao crime organizado
O Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA) realiza nesta terça-feira (4) uma audiência de mediação para tentar solucionar um impasse que se arrasta há 17 anos e que, segundo o próprio Tribunal, deixou de representar apenas uma discussão funcional para se tornar uma questão estrutural da segurança pública. A reunião colocará frente a frente representantes do Governo da Bahia e das entidades da Polícia Civil para discutir a regulamentação das carreiras de investigador, escrivão e perito técnico, em meio a um cenário de déficit de efetivo, evasão de servidores e baixa capacidade de esclarecimento de homicídios.
A mediação ocorre um ano após o julgamento do mandado de injunção coletivo terminar empatado em 11 votos a 11 no Órgão Especial do TJ-BA. Nos embargos de declaração, porém, o caso ganhou um novo rumo. A desembargadora Marielza Brandão Franco classificou a controvérsia como um processo estrutural, entendimento acompanhado pela maioria da Corte, que suspendeu o julgamento e encaminhou o processo ao Núcleo Permanente de Métodos Consensuais de Solução de Conflitos (Nupemec) para tentativa de solução negociada.
A origem do impasse remonta à Lei Estadual nº 11.370/2009. A norma passou a exigir formação superior para investigadores, escrivães e peritos técnicos, ampliou significativamente suas atribuições e determinou que uma lei específica regulamentasse a estrutura funcional e remuneratória dessas carreiras. Passados 17 anos, essa regulamentação nunca foi concluída.
O debate ocorre em um momento delicado para a segurança pública baiana. Apesar da redução recente dos Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLI) divulgada pelo Governo do Estado, a Bahia registrou, em 2025, o maior número absoluto de Mortes Violentas Intencionais do país, com 5.473 ocorrências. No mesmo contexto, estudo divulgado pelo Instituto Sou da Paz apontou que apenas 14% dos homicídios dolosos registrados entre 2020 e 2023 resultaram em denúncia do Ministério Público dentro do período analisado, um dos menores índices do Brasil.
Para José Amando Júnior, advogado do Sindicato dos Policiais Civis da Bahia (Sindipoc) e representante jurídico também da Associação dos Escrivães de Polícia da Bahia (Aepba) e da União dos Policiais do Brasil na Bahia (Unipol-BA), o reconhecimento do caráter estrutural do processo representa uma mudança importante na forma como o tema passa a ser tratado pela Justiça.
“O Tribunal compreendeu que essa não é apenas uma discussão sobre carreiras. Trata-se da estrutura da investigação criminal na Bahia. Quando uma lei aumenta responsabilidades, exige maior qualificação dos profissionais e deixa de regulamentar a própria carreira durante 17 anos, o problema deixa de ser corporativo e passa a afetar diretamente a capacidade do Estado de investigar crimes”, explica.
As entidades sustentam que a ausência de regulamentação contribuiu para a perda de atratividade das carreiras, aumento da evasão de profissionais e dificuldade de recomposição dos quadros da Polícia Civil. Dados apresentados ao Tribunal mostram que 123 dos 348 investigadores, escrivães e peritos técnicos nomeados no concurso de 2018 deixaram a instituição. Agora, às vésperas de um novo concurso com 650 vagas destinadas justamente às carreiras mais desfalcadas, cresce o receio de repetição desse cenário.
A preocupação vai além da reposição de servidores. Segundo as entidades, carreiras com alta rotatividade comprometem a formação de equipes especializadas, a produção de inteligência policial, a preservação da memória institucional e a continuidade de investigações complexas, especialmente aquelas relacionadas a homicídios, organizações criminosas e crimes interestaduais.
O debate ganhou ainda mais visibilidade após o arquivamento de 380 inquéritos de homicídio em Camaçari por falta de provas. Ao comentar o episódio, o então juiz da Vara do Júri e Execuções Penais, Waldir Viana, fez uma afirmação que passou a sintetizar o diagnóstico sobre a investigação criminal no estado: “A Polícia Civil está sucateada”.
Na audiência desta terça-feira, Governo da Bahia e entidades discutirão uma proposta de implementação gradual da regulamentação prevista na Lei nº 11.370/2009, incluindo cronograma, impacto orçamentário e elaboração da legislação necessária para reestruturar as carreiras.
José Amando Júnior afirma que a mediação representa a melhor oportunidade para encerrar um conflito que já ultrapassou a esfera administrativa.
“A Bahia tem a oportunidade de construir uma solução institucional para um problema que se agravou ao longo de quase duas décadas. Não estamos discutindo apenas remuneração. Estamos discutindo a capacidade do Estado de manter profissionais qualificados, preservar a continuidade das investigações e oferecer uma resposta mais eficiente à criminalidade. É isso que esperamos construir na mesa de mediação”. Caso não haja consenso, o processo retornará ao Órgão Especial do Tribunal de Justiça para continuidade do julgamento.
