Lula vê dificuldade para ampliar eleitorado, e PT teme 2º turno na eleição
Por Caio Spechoto e Catia Seabra, Folhapress
03/08/2026 às 13:18
Foto: Ricardo Stuckert/PR/Arquivo
Presidente avalia que nenhum dos principais adversários do primeiro turno o apoiaria contra Flávio Bolsonaro
O presidente Lula (PT) tem dito em conversas reservadas que sua votação no primeiro turno deste ano deverá chegar perto de seu teto eleitoral e que não não vê brechas para ampliar alianças no segundo turno.
Ele avalia não existir, no momento, possibilidade de outros candidatos o apoiarem em uma provável segunda etapa da eleição contra o senador Flávio Bolsonaro (PL). Por essa análise, um aumento expressivo na sua votação entre um turno e outro seria pouco provável.
Nessas conversas, apurou a Folha, Lula avalia que essa eleição presidencial é diferente de todas as outras que já disputou por esse motivo e outros dois: o aumento da importância as redes sociais e a possibilidade de interferência estrangeira na disputa, temores da campanha petista.
Pesquisa BTG/Nexus divulgada nesta segunda-feira (3) mostrou que a distância de Lula para Flávio caiu de 9 para 4 pontos no primeiro turno. No cenário de segundo turno, os dois aparecem tecnicamente empatados.
Parte da cúpula do PT avalia que é possível avançar sobre um pedaço do eleitorado indeciso e, talvez, vencer a eleição no primeiro turno apostando na rejeição a Flávio Bolsonaro.
A insistência numa vitória na primeira etapa já entrou no discurso público de Lula e aliados. O presidente mencionou a hipótese na semana passada, durante a convenção em que o PSB oficializou a indicação de Geraldo Alckmin para continuar como vice.
No discurso, Lula mencionou que está com 80 anos e disse: "[Tem] aquele ditado de que o vinho, quanto mais velho, melhor fica. Eu quero dizer que vocês têm aqui duas garrafas de vinho [ele e Alckmin] da melhor qualidade. Bebam elas para que a gente possa chegar no dia 4 de outubro e matar as eleições no primeiro turno", declarou o petista.
Neste domingo (3), ele deixou clara a importância de ampliar o eleitorado, ao dizer que não quer ser lembrado apenas como "o presidente do Bolsa Família".
Lula costuma dizer em reuniões internas que a eleição será difícil e que seu grupo não pode adotar uma postura de "já ganhou".
A última pesquisa Datafolha mostrou ele com 40% das intenções de voto para o primeiro turno contra 47% dos demais prováveis candidatos. Os que disseram não saber foram 3% e os que afirmaram que votarão em branco ou nulo somam 8%. A pesquisa tem margem de erro de dois pontos percentuais.
O petista precisa ter mais votos do que a soma de todos os adversários para vencer no primeiro turno —o que ele não conseguiu em nenhuma das outras seis eleições presidenciais que disputou.
O petista aparece com 48% contra 43% de Flávio Bolsonaro. Alguns aliados apostam na conversão, já no primeiro turno, de eleitores que hoje se declaram indecisos, ou que avaliam anular seus votos, em uma campanha ancorada na busca da aprovação de seu governo.
Lula e alianças
Lula é o único pré-candidato de esquerda entre os principais na disputa. Além disso, Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) tentam se colocar como líderes do antipetismo para aumentar seu eleitorado.
Nesse cenário, Lula teria que buscar eleitores desses candidatos sem a ajuda deles. Aliados do petista mencionam, nos bastidores, a possibilidade de conseguir acordos discretos com dirigentes partidários –principalmente do PSD– para tentar aumentar a votação em um provável segundo turno.
A barreira para expandir o eleitorado no segundo turno seria uma dificuldade inédita na carreira política do presidente da República.
Em 1989, quando disputou a Presidência pela primeira vez, Lula foi para o segundo turno contra Fernando Collor (então no PRN, sem partido desde 2025) e recebeu o apoio de políticos como Leonel Brizola (PDT) e Mário Covas (PSDB), que tinham sido derrotados na primeira votação. Collor venceu o petista naquela disputa.
Em 1994 e 1998, Lula perdeu para o tucano Fernando Henrique Cardoso no primeiro turno.
Lula venceu a eleição de 2002, quando disputou o segundo turno contra José Serra (PSDB). Na etapa decisiva, recebeu o apoio de Anthony Garotinho (então no PSB) e Ciro Gomes (então no PPS).
Em 2006, contra o hoje vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB, à época no PSDB), o petista não recebeu apoios formais, mas absorveu eleitores que tinham votado no primeiro turno em Heloísa Helena (então no Psol, hoje na Rede) e Cristovam Buarque (então no PDT, hoje no PSB), ambos do campo da esquerda.
Em sua mais recente eleição, em 2022, Lula obteve o apoio de Simone Tebet (então no MDB, hoje no PSB) para o segundo turno. Além disso, o PDT aderiu à candidatura do petista na reta final, mas sem seu então candidato, Ciro Gomes (hoje no PSDB), participar da campanha lulista.
