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Mulher na vice de Flávio vira consenso após crise com Michelle, mas perfil expõe disputa no PL

Mulher na vice de Flávio vira consenso após crise com Michelle, mas perfil expõe disputa no PL

Definição opõe ala ideológica, nomes de perfil técnico e entraves partidários envolvendo PP e Republicanos

Por Hugo Henud/Estadão

04/07/2026 às 16:00

Atualizado em 04/07/2026 às 15:42

Foto: Divulgação/Arquivo

Imagem de Mulher na vice de Flávio vira consenso após crise com Michelle, mas perfil expõe disputa no PL

O senador Flávio Bolsonaro com a esposa Fernanda Bolsoanro e a ex-presidente da Caixa Daniella Marques

A duas semanas das convenções partidárias, a escolha de uma mulher para a vice de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se consolidou entre aliados como ponto de convergência para ampliar a competitividade na corrida presidencial. A preferência já havia sido manifestada pelo senador como forma de reduzir a rejeição no eleitorado feminino, mas ganhou peso adicional após a crise com Michelle Bolsonaro. A definição, no entanto, abriu uma disputa sobre o perfil da escolhida, envolvendo alas do PL e partidos aliados: de nomes mais identificados com a ala ideológica do bolsonarismo, como Bia Kicis (PL-DF) e Júlia Zanatta (PL-SC), a opções vistas como mais técnicas e moderadas, como a ex-presidente da Caixa Daniella Marques.

A pressão aumentou depois que Michelle divulgou um vídeo de quase 30 minutos em que acusou Flávio de tê-la “humilhado” e de tentar afastá-la das decisões políticas do partido. O episódio culminou na saída da ex-primeira-dama do comando do PL Mulher. Na sequência, Paulo Figueiredo, aliado de Eduardo Bolsonaro, criticou a postura de Michelle e afirmou que mulheres “votam muito mal”. A declaração foi repudiada pelo próprio Flávio em encontro com parlamentares em Brasília nesta semana.

Para aliados do senador ouvidos pelo jornal O Estado de São Paulo, a escolha de uma mulher para a vice já era vista como peça chave para reduzir a resistência histórica do eleitorado feminino ao clã Bolsonaro. A sinalização havia sido feita pelo próprio Flávio: em evento com mulheres empreendedoras em São Paulo, no início de junho, o senador afirmou que gostaria, “preferencialmente”, de ter uma mulher na chapa. A crise envolvendo Michelle, porém, elevou a pressão sobre a pré-campanha e aumentou o custo político de abrir mão dessa opção.

O recorte por gênero da Genial/Quaest de junho ajuda a dimensionar o desafio que a escolha da vice tenta enfrentar: Luiz Inácio Lula da Silva (PT) registra 41% das intenções de voto entre mulheres, contra 24% de Flávio.

A convergência em torno de uma vice mulher, no entanto, não elimina a disputa sobre o perfil da escolhida. Uma ala mais ideológica defende um nome mais identificado com as bandeiras do bolsonarismo, como as deputadas federais Júlia Zanatta e Bia Kicis. As duas participaram, na última quarta-feira, de um evento promovido por Flávio com lideranças femininas, realizado após a crise com a ex-primeira-dama.

Próxima a Flávio, Bia Kicis trata a menção ao seu nome como um reconhecimento político, mas procura destacar atributos que, segundo ela, poderiam agregar à chapa, como capacidade de negociação e diálogo. A deputada afirma, no entanto, que o senador ainda avalia outros nomes. “Ele está avaliando, está em um período de avaliação”, afirma.

Já Júlia Zanatta afirma que Flávio deixou claro que prefere uma mulher na vice não apenas por uma questão de gênero, mas pela avaliação de que há quadros femininos qualificados no campo conservador. A parlamentar também diz que a possibilidade de ser vice do senador não foi articulada por ela, mas ganhou força nas redes sociais e depois foi endossada publicamente por Eduardo Bolsonaro. “Não foi algo combinado, não foi algo que eu trabalhei. Mas, se eles decidirem que sou eu, eu vou”, afirma Zanatta.

Para a deputada, no entanto, a definição da vice precisa levar em conta o impacto sobre diferentes forças políticas que orbitam a pré-campanha. Por isso, a parlamentar defende que Flávio adie ao máximo a escolha, deixando a decisão para perto da convenção do partido, marcada para 25 de julho, como forma de evitar desgastes internos. “Porque, obviamente, quando você escolhe um, desagrada os outros. Mas tem outras forças políticas interessadas, e isso tem que ser muito bem avaliado”, diz.

Esse risco já aparece nas resistências internas a nomes muito identificados com a militância bolsonarista. Integrantes da ala mais pragmática do PL avaliam que essas opções conversam sobretudo com o eleitor já convertido e pouco acrescentariam à estratégia de ampliar a chapa para além da base. A leitura é que Flávio precisa ganhar fôlego entre eleitores de centro ou centro-direita, o que favoreceria uma escolha de perfil menos ideológico e mais alinhado à tentativa de apresentar o senador como um nome moderado.

Nesse cenário, passaram a ganhar força entre aliados do senador nomes vistos como capazes de ampliar o alcance eleitoral da chapa. Esses perfis, porém, também enfrentam obstáculos para se concretizar. Um deles é o da senadora Tereza Cristina (PP-MS), apontada em conversas internas como uma das preferidas do coordenador da pré-campanha, o senador Rogério Marinho (PL-RN). Aliados veem a ex-ministra da Agricultura de Jair Bolsonaro como um nome competitivo, com potencial de diálogo fora da base mais ideológica, mas consideram sua viabilização difícil.

Nos bastidores, integrantes do PL afirmam que Tereza teria outros objetivos políticos, entre eles uma eventual disputa pelo comando do Senado, embora ainda haja tentativas de convencê-la a aceitar a vaga. Para esse grupo, a viabilidade da senadora também esbarra no distanciamento entre Flávio e Ciro Nogueira, presidente do PP e integrante da federação União-PP. A relação entre os dois se desgastou após os desdobramentos do caso Banco Master, e há insatisfação no comando do PP com a falta de solidariedade pública de Flávio a Ciro.

A proximidade de Tereza com Michelle também pesa: sua ausência no evento promovido por Flávio com lideranças femininas foi interpretada como sinal de afastamento e gesto de apoio à ex-primeira-dama em meio à crise.

Outro nome do PP citado nas conversas é o da deputada federal Simone Marquetto (PP-SP), que passou a integrar a pré-campanha de Flávio na área de desenvolvimento social e mulheres. Apesar da aproximação com o entorno do senador e da interlocução com lideranças do PL, como Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), integrantes do PP também avaliam que uma eventual indicação dela enfrentaria o mesmo entrave partidário que dificulta Tereza Cristina: a escolha não dependeria apenas de Flávio, mas de uma costura com a cúpula da legenda.

Fora do PP, a principal aposta da ala mais pragmática é a ex-presidente da Caixa Daniella Marques, filiada ao Republicanos no início do ano e incorporada à coordenação da pré-campanha de Flávio. Para esse grupo, Daniella reúne atributos que contrastam com os nomes mais ideológicos cotados para a vaga: perfil técnico, bom trânsito no mercado e uma imagem menos associada ao estilo de confronto do bolsonarismo raiz.

A viabilidade de Daniella, no entanto, também enfrenta entraves partidários e eleitorais. Como ela está no Republicanos, uma eventual indicação dependeria de negociação com a cúpula da legenda, especialmente com o presidente nacional do partido, Marcos Pereira. Integrantes do Republicanos avaliam que a legenda poderia se interessar pela vaga caso enxergue competitividade real na chapa, mas lembram que a discussão passaria por um acordo mais amplo com o PL, incluindo a resolução de impasses em palanques estaduais.

Há ainda dúvidas no próprio PL sobre o desempenho eleitoral de Daniella em uma chapa presidencial. Embora seja vista como um nome de bom trato e menor rejeição fora da direita ideológica, ela nunca teve o nome testado em uma disputa majoritária nacional, o que alimenta questionamentos sobre sua capacidade de agregar votos para além do gesto de moderação.

Integrantes do partido afirmam que a definição final dependerá também do desempenho das cotadas em pesquisas internas. A ideia é medir não apenas o grau de conhecimento de cada nome, mas sua capacidade de reduzir resistências, ampliar o diálogo com o eleitorado feminino e agregar votos fora da base bolsonarista mais fiel.

Decisão deve ficar para o período das convenções

Com resistências em diferentes frentes, a tendência entre aliados é que a decisão seja empurrada para perto da convenção do PL, marcada para 25 de julho, justamente para evitar que a escolha antecipe atritos internos e feche portas com partidos ainda em negociação.

A indefinição contrasta com movimentos recentes de outros pré-candidatos à Presidência. Lula já confirmou Geraldo Alckmin (PSB) como vice na chapa à reeleição, Ronaldo Caiado (PSD) anunciou o presidente da sigla, Gilberto Kassab, para o posto, e Renan Santos (Missão) escolheu Aroldo Medina para compor sua chapa.

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