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Lula usa Petrobras para inflar agenda de investimentos e obras em ano eleitoral
Lula usa Petrobras para inflar agenda de investimentos e obras em ano eleitoral
Por Caio Spechoto e Mariana Brasil/Folhapress
30/07/2026 às 06:46
Foto: Ricardo Stuckert/Arquivo/PR
O presidente Lula
O presidente Lula (PT) usou a Petrobras ao longo do atual mandato para inflar sua agenda de inaugurações e anúncios de investimentos, em cerimônias onde promoveu o próprio governo. O chefe do Executivo buscou se associar a medidas bancadas com recursos da empresa em eventos públicos de divulgações e outras cerimônias que constam em sua agenda na atual gestão.
Só no primeiro semestre deste ano, o petista, que disputará a reeleição, participou de anúncios de investimentos de R$ 120 bilhões bancados pela Petrobras ou subsidiárias. As participações de Lula nesses eventos ficaram mais frequentes conforme as eleições se aproximavam.
Dos 14 compromissos públicos de Lula que envolveram a Petrobras no atual mandato, seis foram nos primeiros seis meses de 2026. O levantamento foi feito pela Folha com base nos dados da agenda do presidente compilados pela agência Fiquem Sabendo, especializada em transparência pública.
Não houve compromissos desse tipo em 2023. Os anos de 2024 e 2025 tiveram quatro cada um. Reuniões privadas com os presidentes da Petrobras no atual governo –primeiro Jean Paul Prates, depois Magda Chambriard– e outros eventos fechados não foram considerados no levantamento.
A Secom (Secretaria de Comunicação da Presidência) afirmou que a participação de Lula nos eventos "decorre da relevância estratégica dessas iniciativas e de seu impacto sobre o desenvolvimento econômico, a geração de empregos e o fortalecimento da capacidade produtiva com o Brasil".
O Planalto também afirmou que o petista participa de compromissos nas mais diversas áreas desde o início de seu mandato, e que os anúncios da Petrobras estão em um contexto de retomada de investimentos.
"As agendas realizadas em parceria com a empresa respeitam integralmente todos os processos de governança e os critérios técnicos internos para a divulgação de investimentos e projetos", afirmou o governo em nota.
A Petrobras declarou que seus projetos só são colocados em prática depois de atenderem aos procedimentos de governança cabíveis, e que a presença do presidente em eventos ajuda a dar publicidade às ações da empresa.
"Dados de repercussão na mídia dos eventos realizados recentemente comprovam que a visibilidade na imprensa e em redes sociais é multiplicada quando há a presença de autoridades", afirmou a estatal.
A participação de Lula em eventos da Petrobras é maior do que era a de seu antecessor e adversário político Jair Bolsonaro (PL). No primeiro semestre de 2022, meses antes de disputar a reeleição, Bolsonaro participou de um evento público diretamente ligado à Petrobras, mas não houve anúncio de investimentos. O compromisso foi uma visita a unidade de processamento de gás em Itaboraí (RJ), em janeiro daquele ano.
Lula e Bolsonaro tinham planos opostos para a petroleira. O petista promove investimentos e defende que a empresa continue sendo estatal. O ex-presidente, por sua vez, falava em privatizá-la e, em seu governo, a companhia vendeu diversos ativos.
Embora Lula não tenha sido criticado por exploração da Petrobras como vitrine eleitoral, o uso político da empresa por governos é uma controvérsia recorrente. Os custos dos combustíveis vendidos pela estatal, por exemplo, são um assunto politicamente sensível que costuma causar desgastes a presidentes da República.
No início de seu governo, Lula mudou a política de preços. Os reajustes passaram a ser menos frequentes. É comum especialistas apontarem defasagens nos valores praticados pela estatal em comparação com o mercado internacional.
Em 2022, Bolsonaro trocou a direção da Petrobras por causa de aumentos nos preços dos combustíveis, que causavam desgaste político às vésperas da eleição.
Investimentos e recados políticos
O maior anúncio da Petrobras com a participação de Lula em 2026 foi de R$ 72,5 bilhões em investimentos em Sergipe. Os recursos são para projetos de extração de petróleo e gás em águas profundas e retomada da produção de uma fábrica de fertilizantes da empresa –o desembolso total não é imediato.
O petista deu recados políticos, criticou adversários e promoveu a própria gestão no discurso proferido na solenidade, realizada em 29 de maio.
Ele também se referiu ao principal adversário na campanha, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), ainda que sem citar o nome. Disse que o rival "não tem vergonha na cara de trair a nossa pátria e ir para os Estados Unidos pedir intervenção americana", em alusão ao tarifaço e a medidas como a classificação de facções criminosas brasileiras como terroristas.
O segundo anúncio mais volumoso foi o de R$ 37 bilhões em investimentos da Petrobras em São Paulo. O evento foi realizado em 18 de maio na refinaria de Paulínia (SP), destino de R$ 6 bilhões do total de recursos.
Na ocasião, ele criticou a privatização da BR Distribuidora no governo anterior. Em seus discursos sobre a Petrobras, Lula costuma se referir em tom crítico à Operação Lava Jato, que investigou desvios na estatal e acabou por levá-lo à prisão em sentença posteriormente anulada. "Eles fizeram para prejudicar a imagem da empresa. Mas a Petrobras é brasileira, e brasileiro não desiste nunca", afirmou, em Paulínia.
Além desse evento, foram anunciados R$ 5 bilhões em investimentos em Mato Grosso do Sul em 25 de junho; R$ 2,8 bilhões no Amazonas em 27 de maio; R$ 2,8 bilhões no Rio Grande do Sul em 20 de janeiro e R$ 100 milhões na Bahia em 14 de maio.
A Petrobras tem R$ 323 bilhões em investimentos previstos no PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), o pacote de obras do atual mandato de Lula. As verbas são anunciadas para períodos de mais de um ano.
O governo federal controla a estatal por deter a maioria das ações com direito a voto, mas tem apenas 36,26% do total de ações da empresa, contando as ordinárias e as preferenciais. Outros 47,64% do capital são de investidores de fora do Brasil, e 16,1% de brasileiros.
Os compromissos públicos foram antes de 4 de julho, quando foi iniciado o período conhecido como defeso eleitoral. As regras eleitorais limitam atividades do presidente da República como anúncios e inaugurações.
A regra visa evitar que governantes usem a máquina pública a seu favor ou de outros candidatos nas eleições. Lula disputará a reeleição em outubro.
