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EUA chegam aos 250 anos com debate entre celebração patriótica e revisionismo

EUA chegam aos 250 anos com debate entre celebração patriótica e revisionismo

Grandes efemérides sempre estimularam disputas sobre memória nacional, e a deste ano é marcada pela polarização

Por Diogo Bercito/Folhapress

04/07/2026 às 16:15

Foto: Reprodução/Instagram

Imagem de EUA chegam aos 250 anos com debate entre celebração patriótica e revisionismo

Governo de Donald Trump imprime às celebrações um tom mais partidário do que em aniversários anteriores

Americanos celebram neste 4 de julho o 250º aniversário da Declaração de Independência dos Estados Unidos. A data redonda, um quarto de milênio, tem inspirado debates sobre o significado dessa longa história e sobre o futuro do país, que, em 1776, declarou independência em relação ao Império Britânico.

Longe de serem algo novo, esses questionamentos são recorrentes. No aniversário de 76 anos, em 1852, o abolicionista Frederick Douglass proferiu um de seus discursos mais conhecidos. O título era "O Que, Para o Escravo, É o 4 de Julho?" Douglass criticava os EUA por se gabarem de sua liberdade enquanto mantinham pessoas escravizadas.

Já no primeiro centenário, em 1876, o comitê da festa escanteou a grande sufragista Susan B. Anthony. Em protesto, ela declamou ao público o discurso que intitulou "Declaração de Independência das Mulheres".

"Os aniversários são momentos em que as pessoas aproveitam para refletir sobre o passado, o presente e o futuro, assim como sobre as virtudes e os vícios da nação", diz Marc Stein, professor da Universidade Estadual de San Francisco. Stein é autor de "Bicentennial", um livro recém-publicado sobre as celebrações dos 200 anos dos EUA, em 1976.

"As comemorações tendem a ser hiperpatrióticas, nacionalistas e extremamente elogiosas", diz, atribuindo essa característica à ascensão dos EUA como grande potência a partir do século 19.

Em seu livro, Stein sugere que o bicentenário de 1976 foi marcado por intensos debates sociais sobre o lugar das classes trabalhadoras. Houve também maior preocupação com a população gay e, de maneira geral, com os excluídos do chamado "sonho americano".

Saiu daquele contexto o icônico livro "Roots", de 1976, no qual Alex Haley narra a saga de uma família afro-americana. Haley, que tinha participado do comitê do bicentenário, influenciou um novo momento do debate racial nos EUA.

M.J. Rymsza-Pawlowska, que leciona na Universidade Americana, também pesquisa a história do bicentenário. Ela afirma que as conversas em torno das celebrações de 1976 moldaram o próprio campo da história pública nos EUA. "O governo federal financiou diversas instituições, como museus, levando a projetos de história oral e centros comunitários", diz. "Não parece ser o caso com o aniversário deste ano."

Pelo contrário. O governo tem retirado financiamento de instituições públicas dedicadas à história. "Esta administração [de Donald Trump] deu ordens para restaurar a ‘verdade’ da história americana, apagando dos nossos museus qualquer história que não seja elogiosa", diz. Isso impede que as instituições deem conta das populações marginalizadas no país.

Nos últimos anos, Rymsza-Pawlowska identificou um crescente apetite dos americanos por sua história, incluindo reflexões sobre o lugar das populações indígenas. "Nos museus, temos visto um enorme crescimento de histórias mais acessíveis e com mais nuances".

Outra crítica feita nos últimos meses é o quanto se tornou um evento partidário e, mais do que isso, como foi atrelado à imagem de Trump.

"Sempre houve aspectos políticos", diz Stein. Foi o caso em 1976. O então presidente Gerald Ford participou de eventos bipartidários —o republicano passou o 4 de Julho daquele ano nas cidades de Filadélfia e Nova York, majoritariamente democráticas. É difícil imaginar Trump fazendo isso hoje, afirma o professor.

Em vez desse gesto bipartidário, Trump se referiu ao aniversário de 250 anos como um grande "comício" e planeja um discurso no National Mall, o parque gramado nas redondezas da Casa Branca e do Capitólio.

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