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‘A história está se repetindo’, diz Bruno Barreto após dirigir obra sobre os ’963 dias’ de Temer
‘A história está se repetindo’, diz Bruno Barreto após dirigir obra sobre os ’963 dias’ de Temer
Por Marcelo Godoy, Estadão
27/06/2026 às 09:23
Atualizado em 27/06/2026 às 12:03
Foto: Reprodução/Arquivo
Cineasta afirma que sua intenção ao dirigir o documentário não era criar empatia pelo ex-presidente
O cineasta Bruno Barreto, de 71 anos, tomou uma decisão: nunca mais vai dirigir um documentário. A revelação foi feita em meio à entrevista ao Estadão, em uma frase tão límpida e direta quanto desconcertante por sair da boca de um homem que acabou de concluir a edição de um documentário: 963 dias, sobre a presidência de Michel Temer (2016-2018), a mais nova obra do diretor do longa O que é isso companheiro?, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, em 1997.
Ainda que a frase não se relacione ao conteúdo de sua nova obra, mas com o fato de se ver, sobretudo, como um ficcionista, sempre é possível indagar: o que leva um homem das artes, como Barreto, dedicar-se a escrutinar a memória de um presidente que enfrentou a oposição aberta da maioria de sua classe, com direito a protesto no tapete vermelho de Cannes? Jair Bolsonaro tornou aqueles dias parte de uma era que acabou. Mas ninguém percebe ao certo quando isso acontece. Stefan Zweig contou em O mundo que eu vi, que nunca amou mais “a nossa velha Europa do que nos anos que precederam a Primeira Grande Guerra”. Jamais o escritor austríaco esperou mais a concórdia entre os países do velho continente ou acreditou em seu futuro do que naquele tempo, pois pensava estar “vislumbrando uma nova aurora”.
É esse o sentimento que permeia todo o documentário de Barreto. Embora o ex-presidente, sua família e o entorno no Palácio do Planalto sejam os personagens por meio dos quais ouvimos essa história, mais do que de Temer, Barreto diz, com razão, que sua obra, a exemplo de Zweig, trata de como chegamos aqui, a um mundo dominado pelo radicalismo político, onde a busca pelo consenso e pelo bem comum da República desapareceu das praças públicas. O cineasta ouve ainda um time invejável de jornalistas, entre os quais o editorialista Antonio Carlos Pereira, então responsável pela Opinião do Estadão, e a colunista Raquel Landim. Barreto atendeu ao jornal por quase uma hora, na noite da terça-feira, dia 23.
A Cultura foi a primeira polêmica enfrentada por Temer após assumir o governo, quando ele quis unir a pasta da área com a da Educação. E ele acabou por manter o Ministério da Cultura. Como foi para alguém dessa área, como você, trabalhar com uma obra que trata da memória do governo do ex-presidente?
No dia 16 de agosto de 2018, pouco antes de Temer virar o presidente de fato, eu o recebi na minha casa. O que aconteceu? O Paulo Rebello (de Castro, economista que assumiu o IBGE no governo Temer), que é um amigo de longa data, me disse: “Olha, o Temer tem uma possibilidade única de recolocar o País nos trilhos, pois não tem de se preocupar com voto. Só que o grande desafio vai ser comunicar”. E eu, como comunicador, quis recebê-lo. Não como alguém da cultura, pois pensava em ir além de meu próprio umbigo. E fiz uma recepção, um encontro muito informal, aqui em casa. Havia apenas 15 pessoas. O Renato Meirelles organizou esse encontro, que tinha Ana Paula Padrão, o Walcyr Carrasco e mais jornalistas e pessoas de comunicação. Eram poucas pessoas, incluindo eu e minha mulher. Queríamos ajudar, e ele ficou muito grato. Surgiu daí um relacionamento, ficou um respeito, uma consideração entre nós. E eu disse para ele: “Olha, eu queria muito contar a história de seu governo”.
Uma vez, marquei um almoço aqui em casa com o Temer e com o Elio Gaspari. E o Elio disse: “Presidente, não houve um complô contra o senhor, porque complô é quando as pessoas se sentam em volta da mesa e traçam uma estratégia. Mas aconteceu algo pior do que um complô: aconteceu uma convergência em grande parte provocada pelo espírito justiceiro da Lava Jato.” E isso, independentemente de a Lava Jato ter tido lá as suas qualidades, seus bons propósitos no início, porque tudo é muito complexo, entendeu? Eu como artista sempre me recusei a ter um viés ideológico. Não sou de esquerda nem de direita por uma razão muito egoísta: porque acho que isso me limita como artista. Minha arte está acima disso. Minha arte é contar a história.
Enfim, a ideia do documentário é minha. Eu propus isso ao Temer. Tudo bem que o Elsinho (Mouco, marqueteiro do ex-presidente) é o produtor, mas o controle artístico é todo meu. Eu, por contrato, tinha o direito de tirar meu nome do filme, se eu não ficasse satisfeito. Então, o controle é todo meu. E eu sempre fui um solitário. Nunca pertenci a tribo nenhuma; na minha classe, eu sou um um total solitário.
E isso é bom ou ruim?
Isso é bom, porque eu sou totalmente independente. Eu queria contar uma história por causa do que o Elio disse, por essa convergência. Houve uma convergência, sobre o último governo antes dessa polarização. O documentário é sobre isso; não é sobre o Temer. Se fosse, não teria um segmento de 20 minutos que só fala da imprensa. Eu queria usar o governo Temer como um caso de estudo para falar do último governo que tentou buscar o consenso, pois sem ele não se governa. Eu fiz isso para servir. O filme é uma reflexão. É claro que tem um conceito, mas tem intuição.
Você tem um documentário sobre escravidão no século XXI (Escravidão - Século XXI). Eu queria que você comparasse a experiência de contar a história de pessoas do andar de baixo e a de contar a história de um presidente, alguém do andar de cima. Como funciona a narrativa nesses dois casos?
Essa não é a primeira vez (que falo sobre um presidente). Tem um projeto da minha vida, que eu botei meu dinheiro para fazer o roteiro, que é O Hóspede Americano, cujos personagens principais são o presidente dos Estados Unidos Theodore Roosevelt, que veio descer o Rio da Dúvida, e o Marechal Rondon. Eu tenho muito orgulho desse projeto. Theodore Roosevelt sempre foi uma ovelha negra na política americana. Havia um preconceito. Eu acho o seguinte: tenho uma profunda simpatia e atração pelas pessoas que sofrem preconceitos. Elas não são apenas negras, trans e homossexuais. O Temer é um grande anti-herói. Ele não é bom de voto, não é uma pessoa muito carismática, mas é um servidor público. Eu não sei se ele é santo. Isso não vem ao caso. Mas ele é um cara que quis servir ao País.
O depoimento de Luciana Temer, filha do ex-presidente, é um ponto forte do documentário. Ele preenche essa função de desenvolver a empatia no espectador quando ela fala que cortaria as mãos pela honra do ex-presidente, pois, antes de tudo, é uma filha que defende o pai?
A Luciana é uma pessoa reconhecidamente isenta. Outra coisa é que, antes de tudo, sou um ficcionista. Fiz poucos documentários. Eu quis fazer esse do Temer. Mas não vou fazer mais documentário, porque eu amo a ficção.
Esse documentário, se você for ver, ele tem uma trilha de filme de ficção, de thriller. Eu tentei dar uma certa emoção quando a (economista) Zeina Latif e o (economista) Marcos Lisboa estão falando de inflação, de juro e de dívida pública, pois são coisas áridas. A música chega para segurar o espectador pelo cangote. Eu encomendei a trilha a um dos grandes compositores argentinos, chamado Federico Jusid, que fez o grande filme argentino O segredo dos seus olhos.
Dito tudo isso, eu gosto daquele momento da Luciana. Por quê? Porque eu acho que a maneira de ela falar já deixa mais ou menos claro que ela é independente, mesmo quem não sabe que ela trabalhou com o Fernando Haddad.
A intenção não é nem tanto criar empatia pelo Temer, a minha intenção é só fazer o espectador refletir. Eu quero trazer complexidade, que é o que mais falta nos dias de hoje, no mundo inteiro, e, sobretudo, na arte: a complexidade. E, sem ela, a vida é muito chata; não existe justiça e não existe arte. Nós estamos vivendo uma profunda crise de mediocridade, exatamente pela ausência de complexidade.
Um documentário não é uma reportagem, mas o que você diria às pessoas que te perguntarem por que você não entrevistou Dilma, Lula, Janot e Lauro Jardim, por exemplo?
O Lauro Jardim se negou a falar. Eu queria ouvi-lo, você pode publicar isso. Eu falei para o Lauro: “Vou botar aqui uma cartela (legenda no filme) dizendo que a gente procurou e você se negou a falar". E ele disse: “Ah, tudo bem, então”. Aí eu mostrei o filme para ele. Eu sou amigo do Lauro. Aí ele me contou: “Pô, mas sabe, eu fiquei com aquela notícia (a acusação de Joesley Batista contra Temer) uma semana, aquilo não foi passado para mim no dia 17 de maio, foi passado uma semana, dez dias antes, e, quando eu achei que (outros jornalistas) iam dar, eu publiquei. Eu disse: “Pois é, você devia ter falado no filme e contado isso. Eu queria botar isso no filme; ficaria mais completo”. Agora, por que que eu não procurei a Dilma? A Dilma não ia me surpreender, o Lula não ia me surpreender também. Eu quero pessoas que vão me dizer coisas que eu não sei o que que elas vão dizer. Entendeu? Para trazer complexidade. Mas, o que acho mais importante, é que botei na cadeira dos entrevistados grandes jornalistas do País.
Eu ia falar exatamente isso, porque o papel da imprensa nas crises do governo Temer tem um grande destaque no documentário que discute não só o governo, mas também o jornalismo, certo?
Exatamente. Eu vou te falar uma coisa que eu gostaria muito que você botasse. A pergunta é: mas por que você não botou Rocha Loures (ex-deputado e assessor especial de Temer, investigado no escândalo da JBS, não é citado no documentário) ? Eu não botei o Rocha Loures porque eu ia abrir uma aba ali, a do filho de uma família muito rica que queria mostrar que era amigo do presidente. E foi ele realmente quem marcou aquele encontro (com Joesley Batista), o que não fica claro no documentário. Mas por quê? Poque se eu entrasse e dissesse que foi ele quem marcou, eu teria de dizer quem ele é também. E isso acontece muito. Tem um cara no Rio de Janeiro, que é meu amigo, uma pessoa riquíssima, o Paulo Fernando, que foi laranja do Cabral. O pai dele é dono da Coca-Cola em Minas, a mãe é Magalhães Pinto, e ele fez isso porque o ser humano é muito imprevisível e, por vaidade de dizer que “eu sou amigo do governador”, que eu “vou te ajudar”, sei lá o quê... E o cara acabou com tornozeleira eletrônica. Entendeu? Então, o Rocha Loures seria uma nova aba.
Eu imaginei que você ia dizer que o documentário não era sobre os escândalos do governo Temer...
Não é, não é sobre isso, mas eu vou ali fundo naquele momento, que é o momento mais, vamos dizer, cinematográfico. Ele não vai renunciar...
Você mostra a solidão do poder...
Pelo que a Marcela (Temer) conta, o cara pensou, ficou claro que ele pensou em renunciar. E é como a filha dele disse: “Eu nunca pensei no meu pai como guerreiro, mas ali ele foi (no escândalo da JBS)“. Mas o filme não é sobre isso, ele é uma tentativa de entender essa convergência que se criou. Aí eu até entendo o Lauro Jardim (jornalista que publicou em primeira mão a informação de que havia uma gravação do encontro entre Temer e Joesley), mas chegar ao furo não é chegar à verdade. O Temer traz a complexidade, uma espécie de busca pelo consenso quando ainda não havia essa polarização.
Você tem nostalgia, Bruno? Uma certa nostalgia?
Olha, eu tenho nostalgia só de uma pessoa nesse País: Fernando Henrique Cardoso. Essa é a grande nostalgia que eu tenho. Que de longe, acho que foi o nosso único estadista, nosso grande presidente.
Ao assistir seu filme, era como se eu estivesse lendo, por exemplo, a obra de um historiador que tivesse nascido na Era Vitoriana e tivesse escrevendo nos anos 20 sobre o que foi aquele tempo. É como se você estivesse falando de um outro mundo, de um mundo que estivesse quase acabado. Você teve essa impressão quando estava editando o documentário?
Tive. Porque são pessoas pensantes. Até o próprio Alexandre (de Moraes) ali, com todos os problemas que está enfrentando hoje. O que ele fala ali, você não pode negar. Eu não sabia que o Temer era cria do (Franco) Montoro (governador de São Paulo, de 1983 a 1987). E sim, uma nostalgia com Montoro, que foi um grande político. O Temer, o Fernando Henrique, o Franco Montoro, o Ulisses Guimarães, com todas as suas imperfeições, mal ou bem, eram grandes políticos.
Todo trabalho histórico deve conversar com o presente. Como você acredita que o seu documentário conversa com o presente do País?
Eu acho que não podia conversar mais diretamente com o presente do País. Eu vou te dar um exemplo de um mês atrás: a capa da Veja. Bota Bolsonaro, Temer e Lula na mesma capa. Então, ele está repetindo tudo de novo. É dizer: “Olha, ninguém presta”, política de terra arrasada. O novo Bolsonaro vai surgir. E muito provavelmente não vai ser nem o filho dele. Não faz nem dez anos, e a história está se repetindo. Na Lava Jato foram R$ 10 bilhões, né? Agora já são R$ 60 bilhões e não é a Petrobras, não é o Petrolão; é o banco só de um cara. Então, acho que o documentário conversa com o presente; é muito atual. Talvez, há um ano ele não fosse tão atual. Ou seja, a gente vê corrupção e polarização; a gente vê personagens que, infelizmente, não têm tanto respeito assim pela institucionalidade, do que significa ocupar um cargo público, uma função pública e tudo isso vai criando desesperança, um caldo de cultura que não promove o mérito e o consenso, não promove o bem-estar comum, mas uma ideia de jogar tudo pela janela, de criminalizar tudo e todos.
Você não teme, por exemplo, sofrer o que a Petra Costa sofreu quando fez a Democracia em Vertigem, quando muita gente que assistiu não gostava dos personagens retratados por ela e a acusaram de fazer um documentário hagiográfico?
Chapa branca eu sei que não é. Isso eu sei que não é. Sobre a Petra, teve muita gente – por exemplo, o (Fernando) Gabeira – que escreveu sobre aquele filme, dizendo que era uma peça de ficção. Aquele filme eu acho que é uma uma peça de ficção porque, na medida em que você faz um um documentário narrado na primeira pessoa, ele já não é mais um documentário. Porque ele é uma impressão, ele é um documentário impressionista. O documentário em si como gênero – e ele já é altamente questionável como gênero – ele não é, por mais imparcial que seja, ele não vai ser imparcial, porque na sua edição já existe uma parcialidade. Aliás, quem faz isso brilhantemente, acho que é um dos maiores filmes que eu vi na minha vida, sem nenhum exagero, e revejo a cada dois anos, é o João Moreira Salles com o Santiago. Porque ele, inclusive, ali, ele deixa claro que é um documento; ele manda o entrevistado repetir a resposta e aí ele vira até o filho do patrão mandando repetir a resposta. É genial, é de uma honestidade, de uma coragem...
Em resumo, sua ideia não era fazer um documentário sobre Temer, mas sobre como nós chegamos até a presidência Bolsonaro, até o momento que a gente vive hoje no País, como a gente chegou à polarização atual, ao estado atual da nossa política?
Sim. Isso Isso é inegável. Isso é muito cristalino para mim. E isso é fascinante para qualquer contador de história, porque eu vivo da dramaturgia. A gente não precisa amar os nossos personagens. A gente não precisa amar os nossos objetos de estudo. Mas eu acho que a gente precisa ter uma profunda curiosidade. E eu vou me descobrindo em personagens pelos quais eu tenho curiosidade. Eu vou acabar achando um pedaço de mim ou alguns pedaços de mim nesses personagens. O ato de fazer um filme é um ato de se inteirar e pesquisar e pisar, e eu vou dividir com o espectador essa jornada de descoberta desse universo e dessas pessoas. Uma vez a Sony Classics fez 25 anos e no Bossa Nova, eles pediram para eu escrever uma frase lá e eu mandei a seguinte: ‘If making films is a craft, selling them is witchcraft (Se fazer filmes é um ofício, vendê-los é feitiço)’.
