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Governo Lula deixa de fora taxação de petroleiras usada para fomentar inovação na Europa
Governo Lula deixa de fora taxação de petroleiras usada para fomentar inovação na Europa
Política adotada na Europa poderia elevar arrecadação do governo
Por Luany Galdeano/Folhapress
11/05/2026 às 13:25
Atualizado em 11/05/2026 às 14:48
Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil/Arquivo
O presidente Lula
Medida adotada na Europa, a taxação do lucro extraordinário das empresas do setor energético ficou de fora do pacote do governo Lula (PT) para conter a alta de combustíveis, mas pode ser eficaz em meio às guerras que afetam o valor de petróleo e gás e um incentivo para a inovação no setor, segundo análise do Observatório Brasileiro do Sistema Tributário, iniciativa do Sindifisco Nacional em parceria com a Universidade Federal de Goiás.
O governo protocolou um projeto de lei no Legislativo que prevê o aumento de arrecadação extraordinária com royalties, participação especial, impostos sobre empresas do setor (IRPJ e CSLL), dividendos e exportações de petróleo para compensar cortes em tributos sobre combustíveis, como PIS/Cofins e Cide (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico).
A proposta não prevê uma alíquota a mais sobre as empresas, mas sim um aumento na arrecadação como consequência da alta de preços. A tática é diferente das chamadas "windfall taxes", termo inglês para taxações de lucro extraordinário, cujo objetivo é capturar o ganho excedente gerado por eventos externos, como guerras.
Procurado por email às 16h da última terça-feira (5), o Ministério da Fazenda não retornou à reportagem.
Na segunda (4), o ministro da Fazenda, Dario Durigan, falou sobre o projeto no Legislativo e sinalizou que não há intenção de elevar as alíquotas.
"Não queremos aumentar tributo. A [Lei de Responsabilidade Fiscal] diz que, para tirar tributo, tenho que aumentar para garantir a neutralidade. Mas não quero. O que pedimos é que, em vez de aumentar, me permita reconhecer a defasagem que teve no Orçamento aprovado e permitir fazer compensação com o governo garantindo a neutralidade fiscal."
Mesmo a taxa sobre a exportação de petróleo e óleo, de 12%, também não incide sobre o lucro, mas sim sobre as vendas ao exterior.
Para Isac Falcão, coordenador executivo do Observatório, a tributação do lucro extraordinário também é uma maneira de manter o investimento das empresas em inovação, já que o aumento do lucro nesses casos não tem relação com a atuação das companhias.
"Os fatores de produção [da empresa] não mudaram substancialmente. Por outro lado, há uma variação de preço do combustível muito grande", afirma. "Essa renda disponível a menos [da população], onde que está aparecendo? No balanço das empresas de óleo, gás e energia. Então, é importante que esse recurso faça o caminho inverso".
Uma estimativa da ONG Global Witness mostrou que, até o fim de 2026, as empresas terão US$ 234 bilhões de lucros excepcionais com a guerra (cerca de R$ 1,1 trilhão).
As taxações de lucro extraordinário são um instrumento antigo, cuja implementação cresceu após a guerra na Ucrânia, iniciada em 2022. Devido ao conflito, que culminou em uma crise energética no continente, a União Europeia editou uma resolução para que países do bloco adotassem a medida, entre 2022 e 2023.
A política também se espalhou para nações de fora do bloco, como a Inglaterra. Lá, a taxação continuou em vigor mesmo após 2023 e permanecerá em 38% até 31 de março de 2030 –caso os preços de óleo e gás caiam por seis meses. Além disso, a volta da política na UE está sendo debatida na Comissão Europeia, em meio à guerra no Irã.
Por exemplo: uma empresa do setor de combustíveis que tem um lucro real de R$ 100 milhões pode pagar uma tributação média de 34%, considerando IRPJ e CSLL. Isso renderia uma arrecadação de cerca de R$ 34 milhões.
Se essa mesma empresa tiver um lucro 50% maior devido à guerra, a cifra subiria para R$ 150 milhões. Considerando as alíquotas já existentes, a arrecadação também cresceria, chegando a R$ 50,9 milhões.
A proposta da taxação do lucro extraordinário é acrescentar uma nova alíquota sobre o lucro real. Com base na resolução adotada na União Europeia, seria possível aderir a um limite de 120% do lucro médio para considerar o lucro extraordinário. Nesse mesmo exemplo, R$ 120 milhões estariam dentro do limite, enquanto os outros R$ 30 milhões ficam sujeitos à nova tributação.
A alíquota prevista na regulamentação da UE é de 33%. Se esse percentual for aplicado sobre os R$ 30 milhões, haveria uma arrecadação de R$ 9,9 milhões a mais. Ao todo, dos R$ 150 milhões, a empresa pagaria R$ 60,8 milhões em tributação, um percentual de 40,5% sobre o lucro real.
Na Europa, um dos desafios na aplicação da medida foi a elisão fiscal, quando empresas deslocam lucros para evitar a tributação. Foi o caso da República Tcheca, onde a imposição de uma alíquota de 60% sobre o lucro excedente levou as companhias a moverem suas operações para a Suíça, frustrando a arrecadação projetada, de acordo com a análise.
Como consequência, a carga tributária passou a incidir de forma desproporcional sobre agentes menos móveis, sobretudo as empresas estatais. Segundo o estudo, a conclusão é de que, sem uma coordenação internacional, a tributação de lucros extraordinários tende a penalizar a imobilidade.
"Não é um problema insolúvel, mas que precisa ser atacado e resolvido na legislação nacional da República Tcheca, com o Judiciário e a Receita Federal".
A coordenação internacional seria uma condição para que a taxação windfall seja eficaz e alcance seus objetivos, conforme a análise. Uma possibilidade, segundo Isac, seria a proposta de um tributo global sobre lucros excedentes, uma espécie de extensão do "Pilar Dois" da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), que estabeleceu a tributação mínima de 15% sobre lucros corporativos).
"O Brasil tem que conversar com os outros países para conjuntamente estabelecer mecanismos de repressão às formas de planejamento tributário abusivo".
