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Petrobras diz que alta do gás de cozinha se deve a lucro de distribuidoras, após críticas de Lula
Petrobras diz que alta do gás de cozinha se deve a lucro de distribuidoras, após críticas de Lula
Por André Borges, Folhapress
07/04/2026 às 13:50
Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil/Arquivo
Petrobras concentra 90% do mercado de gás de cozinha vendido no país
O aumento de preço do gás de cozinha desencadeou uma troca de farpas e acusações entre Petrobras, distribuidoras de gás e o governo federal, na tentativa de se afastar do ônus pela alta do produto.
No sábado (4), após ser alvo de diversas críticas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do MME (Ministério de Minas e Energia), por ter vendido gás de cozinha ao dobro do preço no mais recente leilão de gás, a Petrobras enviou uma carta à Senacon (Secretaria Nacional do Consumidor) do Ministério da Justiça.
No documento, a qual a Folha teve acesso, a petroleira defende seu modelo de leilões e dispara críticas às distribuidoras de gás, dizendo que essas empresas tiveram um forte aumento em suas margens de lucro nos últimos anos, o que teria levado ao encarecimento do produto.
Segundo a Petrobras, o problema não está na sua política de preços ou no modelo de leilões, mas no quanto essas empresas passaram a faturar. Ao citar dados de um estudo público da EPE (Empresa de Pesquisa Energética), a Petrobras afirma que, entre 2019 e 2023, as distribuidoras tiveram aumento de custos e despesas no mesmo ritmo da inflação, enquanto o lucro dessas empresas teve crescimento muito maior, elevando o custo ao consumidor.
"A margem líquida das distribuidoras apresentou um crescimento de 188% em base percentual e de 243% em reais (de R$ 197/tonelada em 2019 para R$ 675/tonelada em 2023)", enquanto a inflação foi de 48% no mesmo período, afirma a Petrobras, no documento.
A estatal também afirma que essas margens estão acima do padrão internacional e que a participação da distribuição no preço final do botijão tem aumentado ao longo dos anos. Os dados citados pela empresa apontam que as distribuidoras nacionais tiveram, em 2023, margens líquidas 34% acima da média das empresas internacionais.
"Conclui-se, portanto, que há uma assimetria na transmissão dos reajustes de preços das refinarias para os consumidores. Aumentos são imediatamente e integralmente repassados, enquanto as reduções são represadas e incorporadas às margens de distribuição e revenda", acusa a Petrobras.
O setor de distribuição de gás de cozinha, conhecido como GLP, é altamente concentrado, com cerca de 95% do mercado nas mãos de cinco grandes grupos: Copa Energia, Nacional Gás, Supergasbras, Ultragaz e Consigaz. Essas empresas são responsáveis pelo envase em botijões e distribuição do produto até o consumidor final.
A Folha questionou o Sindigás (Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Gás Liquefeito de Petróleo) sobre as declarações da Petrobras. O representante das distribuidoras disse que "não se manifesta sobre preços, projeções de preços ou qualquer tipo de estimativa relacionada ao mercado", mas fez coro ao governo e atacou o modelo de leilões da petroleira.
Segundo o Sindigás, a Petrobras é que tem usado leilões para obter preços com ágio na venda de gás, quando esse produto deveria ser vendido às distribuidoras por meio de contratos regulados, ou seja, sem disputa que resultasse em aumento de preços.
"O leilão oferta produto retirado do volume necessário ao atendimento regular do mercado, ou seja, leiloa-se escassez, e não excedente", acusam as empresas, alegando, ainda, que a realização dessas ofertas ocorre nas vésperas da virada mensal, inviabilizando alternativas logísticas.
"O mecanismo de leilões se configura como uma forma de o produtor (Petrobras) capturar a remuneração associada às referências internacionais, sem, contudo, promover ajustes transparentes em seus preços de lista", dizem.
O Sindigás e suas empresas associadas afirmam que já apresentaram estudos técnicos sobre o tema e que o assunto está sob análise da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis).
A produção e oferta de gás de cozinha no país é realizada por refinarias, unidades de processamento de gás natural, petroquímicas e importadoras.
Em 2025, a demanda nacional de GLP foi de 7,4 milhões de toneladas. Considerando a produção nacional e a importação, a Petrobras teve participação de 89,8% no fornecimento desse combustível. Entre os demais agentes, responsáveis pelos outros 10,2%, destaca-se a Refinaria de Mataripe (Acelen) com 4,8%.
De acordo com dados da ANP, a produção nacional atingiu 5,8 milhões de toneladas em 2025, enquanto as importações somaram 1,6 milhão de toneladas. Com isso, a dependência externa do Brasil foi de 21%, sendo a Petrobras responsável por 93,8% das importações.
Na carta enviada à Senacon, a Petrobras defende o leilão realizado no dia 31 de março, no qual a empresa vendeu cerca de 70 mil toneladas de GLP, aproximadamente 12% do consumo mensal, com ágio de até 117%.
O resultado enfureceu o presidente Lula, que afirmou que o governo pretende anular o leilão, sob o argumento que a população mais pobre não pode arcar com os efeitos da alta internacional do petróleo.
Em entrevista na quinta (2), Lula classificou o leilão como bandidagem e disse que sua realização desrespeitou orientação do governo e da direção da Petrobras. "Vamos anular esse leilão, porque o povo pobre não pagará, em hipótese alguma, o preço dessa guerra", afirmou o presidente da República.
O tema ganhou ainda mais peso diante da criação do programa Gás do Povo, que oferece gratuitamente botijão para famílias de baixa renda.
Diante da pressão política em pleno ano eleitoral, a Petrobras afirmou que está "reavaliando seus procedimentos internos, inclusive no que diz respeito especificamente ao leilão realizado no dia 31/03/2026" , mas não detalhou quais mudanças pretende adotar.
A empresa defendeu os leilões como mecanismo legítimo de mercado e disse que "o preço final é determinado pela disposição a pagar dos participantes, refletindo de forma transparente as condições reais de mercado".
Segundo a petroleira, o modelo funcionaria como uma "salvaguarda eficiente contra a captura de margens extraordinárias" pela própria empresa.
A Petrobras disse que "não possui discricionariedade seja para impor pregos arbitrários acima do equilíbrio competitivo ou seja para elevar, de forma abusiva, os preços, sendo o resultado do leilão uma expressão direta da interação entre oferta e demanda".
A estatal argumentou, ainda, que os leilões representam uma parcela limitada do mercado e ajudam a equilibrar oferta e demanda, especialmente diante da necessidade de importação.
A companhia afirma que os preços praticados por ela permanecem abaixo de referências internacionais. Segundo os dados apresentados, o preço médio do GLP vendido pela Petrobras em abril de 2026 foi de R$ 2.932,5 por tonelada, inferior ao parâmetro de paridade de importação divulgado pela ANP.
Ao citar uma fiscalização do TCU realizada no ano passado sobre "supostas irregularidades ocorridas na Petrobras, relacionadas a possível prática de gestão antieconômica, a fiscalização "destacou o impacto positivo dos leilões para que o preço médio praticado pela Petrobras alcançasse o valor marginal (VM) para a companhia, o que representa o seu custo de oportunidade dadas as alternativas para oferta do produto, dentre elas, a produção e a importação".
Questionada pela Folha, a Petrobras apenas confirmou o teor e o envio das informações contidas na carta.
No cenário externo, dados da ANP mostram que o custo do GLP importado subiu cerca de 60% após o início da guerra no Oriente Médio. Como o Brasil depende de importações para cerca de 20% do consumo, essa alta internacional pressiona diretamente toda a cadeia.
Além disso, houve reajustes no refino privado, como aumentos de cerca de 16% no GLP, equivalentes a aproximadamente R$ 7 por botijão, sinalizando repasses ao consumidor. O resultado é um cenário de pressão crescente, em que o preço final ainda gira em torno de R$ 110, com tendência de alta nas próximas semanas.
Na segunda-feira (6), o conselho de administração da Petrobras demitiu o diretor de Logística, Comercialização e Mercados da estatal, Cláudio Schlosser, que era responsável pelas áreas de vendas e formação de preços de combustíveis.
