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Facções criminosas usam vídeos de dança e emojis para alcançar público jovem nas redes sociais
Facções criminosas usam vídeos de dança e emojis para alcançar público jovem nas redes sociais
Meta diz que mantém campanha educativa para evitar que usuários interajam com conteúdo potencialmente perigoso
Por Felipe Bramucci/Folhapress
06/04/2026 às 20:00
Foto: Reprodução/Instagram
Dois traficantes de costas segurando rifles em suas mãos
Dancinhas com objetos na cintura que simulam armas de fogo, músicas de funk e emojis viraram ferramenta para expandir a influência de facções criminosas entre os mais jovens nas redes sociais.
Esse fenômeno é conhecido entre especialistas como narcocultura digital e descreve a apropriação de símbolos, estéticas e narrativas do mundo do crime pelos ambientes virtuais, especialmente em plataformas como o Instagram e o TikTok.
Em muitos casos, o conteúdo se apresenta como tendência. Vídeos que replicam coreografias populares incorporam gestos e objetos que remetem a armas de fogo. As trilhas sonoras com batidas de funk trazem menções diretas a organizações criminosas.
Para entender o alcance desse tipo de conteúdo, a reportagem fez um teste para ver se o algoritmo das redes pode sugerir esse tipo de conteúdo.
A reportagem criou um perfil no Instagram, sem qualquer histórico de navegação, e passou a consumir vídeos que, a princípio, não faziam apologia ao crime nem a facções criminosas —como registros de bailes funk, gravações de manobras em motos e conteúdos de humor associados à periferia.
Ao longo da navegação, porém, o algoritmo passou a associar esse universo a publicações sobre facções e começou a recomendar esse tipo de conteúdo. Em menos de 30 minutos, a plataforma já tratava postagens ligadas a facções como de interesse do usuário.
Procurada, a Meta afirmou, em nota, que mantém no Brasil uma campanha educativa voltada à conscientização de jovens sobre conteúdos potencialmente perigosos. A empresa informou ainda que removeu as publicações identificadas pela reportagem e que colabora com autoridades de investigação, nos termos da legislação aplicável.
Entre os conteúdos mostrados com mais frequência estavam imagens de supostos integrantes de facções, com rostos e armas encobertos por emojis de símbolos associados a esses grupos.
O emoji de urso aparece como referência a Edgar Alves de Andrade, conhecido como Doca, apontado como uma das principais lideranças do Comando Vermelho no Rio de Janeiro. Ele é ligado ao tráfico na região da Penha e dá nome ao grupo conhecido como Tropa do Urso, associado a ações armadas da facção.
Os conteúdos indicados pelo algoritmo aparecem em formatos de edits, que são vídeos curtos com músicas de funk ou trap, efeitos visuais e cortes rápidos. Além de imagens, a reportagem também encontrou postagens feitas por supostos integrantes de facções que atuam como influenciadores.
Lideranças criminosas viraram personagens envoltas em trilhas dramáticas e efeitos visuais. A estética se aproxima da cultura pop, juntando o universo do crime a referências comuns ao entretenimento digital.
Mais do que visibilidade, essa subcultura vende uma ideia. A de ganhos rápidos, reconhecimento e poder. Em paralelo, práticas como o estelionato digital são normalizadas e até celebradas. Nas redes, recebem apelidos como raul e bigode, termos usados para designar criminosos que aplicam golpes online.
O padrão se repete, com elementos visuais simples e de fácil replicação combinados a símbolos que funcionam como marcadores de pertencimento, enquanto usuários levantavam a bandeira da mesma facção na seção de comentários.
