Preço da gasolina sobe nas bombas mesmo sem reajuste da Petrobras; entenda
Por Daniel Tozzi, Letícia Correia e Gabriela Jucá / Estadão
25/03/2026 às 11:38
Foto: Agência Brasil
Posto de Combustível
Mesmo sem um reajuste formal da Petrobras, levantamentos semanais da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) mostram aceleração no preço da gasolina nas bombas. O movimento reflete a disparada recente do petróleo no mercado internacional, em meio à escalada do conflito com o Irã. Até agora, a Petrobras anunciou apenas um reajuste para o diesel.
Na semana encerrada em 28 de fevereiro, quando o conflito efetivamente começou, o valor médio da gasolina ficou em R$ 6,28 por litro, com leve recuo de 0,32% na comparação semanal. A partir daí, a trajetória virou para alta: em 7 de março, o preço subiu para R$ 6,30 (+0,32%), avançou para R$ 6,46 na semana seguinte (+2,54%) e voltou a acelerar para R$ 6,65 em 21/3 (+2,94%), acumulando aumento de cerca de 5,9% no período.
O último ajuste da Petrobras no preço da gasolina ocorreu em janeiro deste ano, com uma redução de 5,2%. O último aumento, de 1,72%, foi anunciado em julho de 2024. Em relação ao diesel, a estatal reajustou em 13 de março o preço do combustível nas refinarias, em 11,6% — na segunda semana de março, o diesel havia subido 20,6%, para R$ 7,65 o litro, em comparação à semana de 22 a 28 de fevereiro, segundo a ANP.
O aumento da gasolina na bomba ocorre em um mercado em que a Petrobras já não dita sozinha a formação de preços ao consumidor. Além de parte do parque de refino estar nas mãos de empresas privadas, a estatal também não tem monopólio na etapa de distribuição, já que a antiga BR Distribuidora também foi privatizada. Com isso, movimentos de alta podem aparecer de forma mais autônoma ao longo da cadeia, independentemente de uma “canetada” da Petrobras para reajustar a gasolina nas refinarias.
Para a inflação oficial do País, o impacto imediato deve ser limitado no IPCA-15 de março, que será divulgado nesta quinta-feira, 26. A janela de coleta do índice — que inclui o final de fevereiro e o começo de março — reduz a contribuição do salto observado na gasolina nas últimas semanas.
Além disso, economistas consultados pelo Estadão/Broadcast lembram que, antes da escalada do conflito, o cenário para a gasolina doméstica era considerado benigno. Com o preço interno operando com defasagem (para baixo) em relação às referências externas em alguns momentos, o debate no mercado chegou a girar em torno da possibilidade de cortes no preço de venda da gasolina da Petrobras às distribuidoras, hipótese que perdeu tração com a virada no petróleo e o aumento das incertezas no exterior.
O economista da Logos Capital e especialista em inflação, Fabio Romão, avalia que, dada a janela de coleta do IPCA-15, a gasolina deverá subir apenas 0,22% nesta leitura, impacto relativamente pequeno na comparação mensal. Ele explica que a variação dos itens do IPCA é feita a partir da janela que começa em meados de fevereiro e vai até o início de março. “Ou seja, as semanas em que o preço ainda estava bem comportado vão entrar na conta”, diz ele.
O impacto maior, porém, deve aparecer com força no IPCA fechado de março, que será divulgado na segunda semana de abril. Com isso, calcula Romão, a gasolina deverá apresentar uma alta mensal de 2,8%. O número deverá representar cerca de 0,14 ponto porcentual da alta total aguardada pela Logos para o índice, de 0,38%.
Flavio Serrano, economista-chefe do Bmg, calcula um impacto ainda maior da gasolina na inflação de março, entre 0,20 e 0,25 ponto porcentual. “Na ponta, nessas últimas duas semanas, o preço da gasolina já subiu cerca de 5,5% no Brasil, na bomba, para o consumidor final. Então vai ter esse impacto, a despeito de não ter tido o aumento da gasolina pela Petrobras”, detalha ele. O Bmg estima IPCA de 0,50% em março.
Na Terra Investimentos, a projeção do economista Homero Guizzo é que o item gasolina tenha alta de 3,5% no IPCA fechado de março. O item deve, sozinho, responder por 0,18 ponto porcentual do total da alta de 0,49% estimada pela casa para a inflação no mês.
O economista do FGV Ibre André Braz, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor - Semanal (IPC-S), reconhece que as leituras recentes apontam variações positivas no preço da gasolina ao consumidor, mas lembra que o movimento não pode ser atribuído automaticamente ao conflito envolvendo Estados Unidos e Irã. Segundo ele, há componentes e fatores de mercado que, por si só, podem explicar oscilações na bomba, independentemente de choques geopolíticos.
Braz destaca que a gasolina C vendida nos postos tem mistura obrigatória de etanol anidro — cerca de 26% —, o que abre espaço para variações causadas pelo comportamento desse insumo. Além disso, ele ressalta que a gasolina é um preço monitorado, com a parcela associada à gasolina A nas refinarias sujeita a decisões do governo, o que dificulta cravar que a alta no varejo já reflita, de forma direta, uma mudança decorrente da guerra na refinaria.
Outro ponto levantado por Braz é o papel das margens de revenda. “Quando a pressão sobre os preços da gasolina aumenta, os postos vendem a um preço mais próximo possível do máximo. Em momentos como esse, de grande tensão, os postos tiram essa margem e colocam o preço no máximo. A gasolina pode estar subindo por conta do conflito, mas não posso afirmar que a gasolina está subindo por conta do conflito”, reflete ele.
