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Infraestrutura bate recorde de investimentos, mas ainda enfrenta déficit bilionário
Infraestrutura bate recorde de investimentos, mas ainda enfrenta déficit bilionário
Por Luiz Guilherme Gerbelli e Renée Pereira / Estadão
27/03/2026 às 12:50
Atualizado em 27/03/2026 às 12:15
Foto: Divulgação/Arquivo
Desde 2021, setor vive um novo ciclo de expansão, com R$ 1,4 trilhão de investimentos, sendo boa parte vinda da iniciativa privada
O Brasil parece estar no caminho para, pelo menos, mitigar um dos seus principais gargalos históricos: o investimento em infraestrutura. Após um período de forte retração, marcado sobretudo pelos efeitos da Operação Lava Jato, o País entrou num ciclo de expansão dos volumes aplicados no setor. Esse movimento é explicado por uma agenda mais robusta de concessões rodoviárias e pelos avanços trazidos pelo marco regulatório do saneamento básico. Desde 2021, o volume de investimentos somou R$ 1,4 trilhão - volume 37% superior aos seis anos anteriores.
Esse avanço deve culminar em um novo recorde de investimento neste ano, de R$ 300 bilhões (os dados não levam em conta os números do setor de óleo e gás), sendo boa parte vinda da iniciativa privada.
Mas, apesar do número exuberante, o volume ainda está longe de ser o ideal. No ano passado, foram R$ 280 bilhões investidos em todo o País, entre recursos públicos e privados, segundo estimativa da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib). Nos cálculos da entidade, o investimento necessário seria de quase R$ 500 bilhões para modernizar a infraestrutura.
Hoje, o Brasil ainda investe cerca de 2% dos 4% ou 5% do PIB necessários para modernizar o setor. Mas, segundo especialistas, o avanço dos últimos anos é um alento diante do recuo verificado na década passada. “Esse novo ciclo de investimento é inédito”, afirma Roberto Guimarães, diretor de economia e planejamento da Abdib.
Os montantes destinados à infraestrutura no País têm crescido ano após ano e revelam uma clara retomada no setor, turbinada por projetos de diferentes níveis de governo e pelo aumento do aporte da iniciativa privada.
Na série histórica da infraestrutura brasileira, houve crescimento de recursos aportados entre 2010 e 2014, mas essa melhora foi interrompida pela combinação da crise econômica e política de 2015 e 2016, período no qual o Produto Interno Bruto (PIB) caiu mais de 3% em cada um desses anos. O investimento ficou praticamente estagnado até a pandemia de covid, em 2020.
“Com as sucessivas crises, houve um hiato de investimento entre 2016 e 2020. E, a partir de 2021, começa a retomada”, afirma Eduardo Corsetti, diretor de infraestrutura e energia do Itaú BBA.
A agenda do investimento em infraestrutura tem avançado não só por causa da União, mas também por causa das prefeituras e dos governos estaduais. No último levantamento da Abdib, por exemplo, em 2025, o Brasil tinha 469 projetos e iniciativas de investimento em infraestrutura. Desse total, 147 eram do governo federal e 322, de Estados e municípios.
“Não tem mais o ranço ideológico (dos políticos)”, afirma Guimarães. “São projetos novos e que estão sendo estruturados. Eles totalizam quase R$ 800 bilhões.”
Ao longo dos últimos anos, vários fatores contribuíram para o atual momento da infraestrutura, como marcos regulatórios mais maduros, taxas de retorno mais realistas, diversificação das fontes de financiamento e aumento da participação privada nos projetos - em 2025, dos R$ 280 bilhões, R$ 235 bilhões vieram do investimento privado.
“Em 2025, encerramos um ano muito forte e estamos com perspectivas também de um novo crescimento relevante para este ano”, diz José Rudge, também diretor de Infraestrutura & Energia do Itaú BBA.
“Transportes e saneamento foram o grande destaque pela quantidade de leilões, especialmente em rodovias. E, talvez, o setor de energia tenha ficado mais tímido, digamos assim, apesar de ainda representar um pedaço importante”, acrescenta.
Com o marco do saneamento, sancionado em 2020, os Estados e municípios têm promovido uma série de leilões das empresas estatais para tentar cumprir a meta de universalização dos serviços de água e esgoto no Brasil até 2033.
