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EUA avaliam classificar PCC e CV como terroristas após lobby de filhos e aliados de Bolsonaro
EUA avaliam classificar PCC e CV como terroristas após lobby de filhos e aliados de Bolsonaro
Por Ana Ionova e Edward Wong, Folhapress
27/03/2026 às 17:58
Foto: Dado Galdieri/NYT/Arquivos
Traficantes armados integrantes de grupo criminoso se reúnem após operação policial em uma favela, em 2019
O governo Trump está avaliando classificar as duas maiores facções criminosas do Brasil como grupos terroristas, após lobby de dois filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro, preso e aliado do presidente Donald Trump, segundo autoridades americanas e brasileiras.
A segurança se tornou uma grande preocupação para os eleitores brasileiros, e a classificação poderia colocar mais holofotes sobre a questão e ajudar um dos filhos de Bolsonaro, Flávio Bolsonaro (PL).
Ele está desafiando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), nas eleições nacionais de outubro e acusou Lula de ser leniente com o crime.
A proposta, discutida nas últimas semanas dentro do Departamento de Estado, levantou preocupações entre autoridades brasileiras de que os Estados Unidos possam tentar interferir na balança eleitoral para ajudar outro Bolsonaro.
No ano passado, Trump usou tarifas e sanções para tentar manter Jair Bolsonaro fora da prisão, acusado de supervisionar um golpe após perder a última eleição em 2022, para Lula. Bolsonaro acabou sendo condenado e sentenciado à prisão.
O governo Trump classificou mais de uma dúzia de gangues latino-americanas como organizações terroristas como parte de uma campanha para combater grupos criminosos que, segundo autoridades americanas, ameaçam os Estados Unidos, incluindo grandes cartéis de drogas mexicanos. As classificações significam que o governo dos EUA pode impor restrições financeiras aos grupos e seus associados.
No entanto, as facções brasileiras, o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o Comando Vermelho, não desempenham um papel importante no tráfico de drogas para os Estados Unidos. Elas enviam cocaína principalmente para a Europa e outras partes do mundo.
Mas o secretário de Estado Marco Rubio fez uma pressão neste mês. Em 8 de março, um dia depois de Trump sediar uma cúpula de líderes conservadores latino-americanos para discutir crime e drogas, Rubio disse ao ministro das Relações Exteriores do Brasil que o governo Trump planejava fazer a classificação, segundo autoridades com conhecimento da conversa.
Rubio também pediu ao ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, que classificasse as facções como grupos terroristas, mas Vieira disse que seu governo não faria isso, disseram as autoridades.
As autoridades falaram sob condição de anonimato para discutir conversas privadas.
Rubio se encontrou com Vieira em uma reunião diplomática na França nesta sexta-feira, e era previsto que o tema das classificações poderia surgir se eles se reunissem a sós.
O Departamento de Estado não finalizou as classificações, e qualquer decisão interna ainda pode ser revertida.
O departamento se recusou a comentar sobre as possíveis classificações, mas reconheceu que as duas facções brasileiras estavam em seu radar.
Os grupos representam "ameaças significativas à segurança regional devido ao seu envolvimento em tráfico de drogas, violência e crime transnacional", disse o Departamento de Estado em comunicado.
O gabinete de Lula também se recusou a comentar sobre as classificações americanas.
Uma autoridade brasileira disse que Lula e Trump negociaram medidas para combater a lavagem de dinheiro e o tráfico de armas pelas duas facções nas últimas semanas. As classificações poderiam comprometer essas conversas, disse a autoridade, que pediu anonimato para falar sobre discussões internas de política.
Em declaração ao The New York Times, Flávio Bolsonaro disse que não apoia interferência estrangeira para resolver os problemas do Brasil com facções criminosas, mas é "a favor da cooperação internacional" sobre o assunto. Eduardo Bolsonaro não respondeu a um pedido de comentário.
Nos bastidores, os aliados mais próximos do ex-presidente trabalharam por meses para convencer autoridades americanas de que as facções criminosas brasileiras representam uma ameaça direta à segurança e aos interesses americanos, segundo duas pessoas com conhecimento da situação que falaram anonimamente para descrever discussões sensíveis.
Flávio Bolsonaro, que além de concorrer à presidência também é senador, viajou a Washington no ano passado para se reunir com autoridades da Casa Branca e do Departamento de Estado, segundo as pessoas.
Ele estava acompanhado de seu irmão, Eduardo Bolsonaro, disseram eles, que tem vivido nos Estados Unidos enquanto faz lobby junto a Trump para ajudar seu pai e o movimento conservador da família.
Durante a visita, Flávio Bolsonaro, que liderava uma comissão de segurança no Senado na época, apresentou às autoridades americanas um relatório sobre as atividades das facções no Brasil e nos Estados Unidos, segundo uma pessoa presente na reunião. O dossiê incluía detalhes de suposto tráfico de armas e lavagem de dinheiro, disse a pessoa.
O governo Lula teme que o rótulo de terrorismo possa permitir que os Estados Unidos imponham sanções a bancos brasileiros que possam ter feito negócios inadvertidamente com as facções, disse a autoridade brasileira.
O governo brasileiro também teme que a classificação possa abrir caminho para operações militares unilaterais dos EUA no país, disse a autoridade.
Trump usou a classificação de facções criminosas para justificar uma série de ações militares na América Latina, incluindo dezenas de ataques letais a embarcações que ele disse, sem apresentar provas, estarem transportando drogas para os Estados Unidos. A classificação de grupos venezuelanos também fez parte da justificativa pública do governo Trump para a operação militar americana em janeiro para capturar o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro.
Neste mês, autoridades americanas disseram ter bombardeado um campo de treinamento de traficantes de drogas no Equador, mas isso acabou sendo somente uma fazenda, segundo uma investigação do New York Times.
O Brasil tem leis antiterrorismo em vigor, mas não classifica o tráfico de drogas como terrorismo nem mantém sua própria lista de grupos terroristas. Em vez disso, age em sintonia com o Conselho de Segurança da ONU, aplicando sanções a grupos que o organismo internacional designa como organizações terroristas.
Se o governo brasileiro classificasse facções criminosas como terroristas, isso seria uma grande mudança de política. E ceder à pressão americana contradiria a posição de Lula contra a interferência dos EUA nos assuntos de seu país, que ele chamou de ameaça à soberania do Brasil.
Do lado americano, Darren Beattie, o recém-nomeado enviado do governo Trump para o Brasil, e Ricardo Pita, um assessor do Departamento de Estado, têm sido vozes de destaque pressionando pela classificação, segundo duas autoridades.
Beattie, que afirmou que a última eleição do Brasil foi roubada de Jair Bolsonaro, provocou tensões diplomáticas neste mês quando tentou visitar Bolsonaro na prisão. Isso levou autoridades brasileiras a revogar seu visto.
Beattie, que até recentemente supervisionava a diplomacia pública no Departamento de Estado, tentou forjar laços mais estreitos entre o governo Trump e partidos políticos de extrema direita no exterior. No primeiro governo Trump, Beattie foi demitido de um cargo de redator de discursos na Casa Branca depois de falar em uma conferência frequentada por nacionalistas brancos.
Durante uma viagem ao Brasil em maio de 2025, Pita visitou Bolsonaro enquanto ele aguardava julgamento e tirou fotos com o ex-presidente, segundo postagens nas redes sociais de Eduardo Bolsonaro.
Jair Bolsonaro foi condenado a 27 anos de prisão por planejar um golpe, e acabou de ser transferido para prisão domiciliar devido à sua saúde debilitada.
Mesmo enquanto Lula resistiu à pressão americana para classificar facções criminosas como grupos terroristas, ele tentou sinalizar a Trump que compartilha suas preocupações.
O gabinete de Lula disse que ele planeja discutir o tráfico de drogas com Trump durante uma próxima visita à Casa Branca.
O combate aos cartéis de drogas se tornou uma grande questão política em toda a América Latina, energizando partidos políticos de direita que retratam a esquerda como fraca no combate ao crime.
No Brasil, Flávio Bolsonaro e outros parlamentares de direita tentaram avançar com legislação que classificaria facções criminosas como organizações terroristas, embora esses esforços tenham estagnado.
"Claramente, a direita quer explorar politicamente essa questão", disse Fábio Kerche, professor de ciência política da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. "Eles estão tentando vender essa ideia de que a esquerda protege os criminosos."
O Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho se expandiram por todo o Brasil e ameaçam até comunidades remotas da Amazônia por meio de violência e extorsão. Autoridades brasileiras dizem que os grupos também se infiltraram no sistema financeiro, acumulando participações em distribuição de gás, imóveis e criptomoedas.
O policiamento do tráfico de drogas é principalmente responsabilidade dos estados e municípios brasileiros, mas Lula respondeu à pressão política aumentando os poderes da Polícia Federal para combater o crime organizado e apreender ativos financeiros.
Agora, a questão do crime organizado pode se mostrar decisiva na época das eleições: uma nova pesquisa mostrou que crime e violência eram a principal preocupação de quase metade dos brasileiros.
"A realidade é que Lula se encontra entre a cruz e a espada", disse Thomas Traumann, analista político.
