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‘Conselho de Segurança da ONU tem sido omisso na busca por soluções de conflitos’, diz Lula
‘Conselho de Segurança da ONU tem sido omisso na busca por soluções de conflitos’, diz Lula
Por Flávia Said / Estadão
23/03/2026 às 06:46
Atualizado em 23/03/2026 às 07:07
Foto: Ricardo Stuckert / PR
Fotografia oficial da 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre Espécies Migratórias da ONU, em Campo Grande
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a criticar o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) neste domingo, 22, ao sustentar que o órgão tem sido omisso na busca por soluções de conflitos.
Lula iniciou seu discurso na sessão especial da 15ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro (COP15) de Espécies Migratórias da ONU, em Campo Grande (MS), dizendo que o evento faz todos lembrarem que migrar é natural. “A natureza não conhece limites entre Estados. A onça-pintada movimenta-se por quase todo o território preservado das Américas em busca de áreas para caçar e se reproduzir com segurança. Como ela, todos os anos, milhões de aves, mamíferos, répteis, peixes e até insetos atravessam continentes e oceanos”, exemplificou.
“Esta COP15 ocorre em um momento de grandes tensões geopolíticas. Ações unilaterais, atentados à soberania e execuções sumárias estão se tornando regra”, criticou, sem mencionar países. Ele lembrou que, nos seus 80 anos, a ONU teve atuação importante nos processos de descolonização, na proibição de armas químicas e biológicas, na recomposição da camada de ozônio, na erradicação da varíola e na afirmação dos direitos humanos e no amparo aos refugiados e imigrantes. “Mas o Conselho de Segurança tem sido omisso na busca por soluções de conflitos”, criticou.
O titular do Palácio do Planalto seguiu dizendo que “um mundo sem regras é um mundo inseguro, onde qualquer um pode ser a próxima vítima”. Por fim, ele defendeu, como vem fazendo em eventos internacionais, o multilateralismo.
“A história da humanidade também é uma história de migrações, deslocamentos, vínculos e conexões. No lugar de muros e discursos de ódio, precisamos de política de acolhimento e de um multilateralismo forte e renovado. Que esta COP15 seja um espaço de avanços coletivos em defesa da natureza e da humanidade”, finalizou.
Este foi o segundo discurso do presidente da República crítico à ONU neste fim de semana. No sábado, 21, ao participar do Fórum Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac)-África, realizado em Bogotá, na Colômbia, Lula se disse “indignado com a passividade dos membros do Conselho de Segurança” da ONU por não serem capazes de acabar com as guerras.
“O que estamos assistindo no mundo da falta total e absoluta de funcionamento das Nações Unidas. O Conselho de Segurança da ONU e seus membros permanentes foram criados para tentar manter a paz (nesse momento, Lula bateu na mesa). E são eles que estão fazendo as guerras! E quando é que vamos tomar atitudes para não permitir que países mais poderosos se achem donos dos países mais frágeis?”, questionou o presidente.
A 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (COP15 da CMS) é realizada pela primeira vez no Brasil, em Campo Grande (MS), de 23 a 29 de março de 2026. O Brasil exerce a presidência da conferência pela primeira vez.
Acompanharam o presidente na sessão de abertura os ministros das Relações Exteriores, Mauro Vieira; de Minas e Energia, Alexandre Silveira; e as ministras do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva; e do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet. Também estava presente o governador de Mato Grosso do Sul, Eduardo Riedel (PP), além de outras autoridades locais.
Antes da sessão, Lula teve reunião bilateral com o presidente do Paraguai, Santiago Peña, que também participou na sessão. Diferente de Lula, Peña não teceu comentários sobre política internacional.
Lula também aproveitou o evento para voltar a criticar o ex-governo Jair Bolsonaro (PL) pelas políticas na área ambiental, dizendo que a imagem do País na área ambiental estava sendo questionada internacionalmente.
“Até há pouco tempo, a imagem internacional do Brasil na área ambiental enfrentava questionamentos profundos, impactando diretamente nossas relações econômicas e comerciais”, disse Lula. “Desde 2023, escolhemos trilhar um novo caminho, guiados pela convicção de que conservar e produzir de forma sustentável não apenas é possível, mas é necessário. Reconstruímos o arcabouço institucional e as políticas ambientais que haviam sido desmontadas”, prosseguiu o presidente.
Lula elencou resultados do governo na área. “O desmatamento na Amazônia caiu pela metade. No Cerrado, a queda foi de mais de 30%. Reduzimos as queimadas no Pantanal em mais de 90%”, citou. Ele ainda mencionou ações internacionais: “Recolocamos o Brasil no mapa dos esforços multilaterais para o meio ambiente. Presidimos e sediamos a COP30 do clima. Lançamos o fundo floresta tropical para sempre e a colisão de mercados de carbono. Como anfitriões, nas cúpulas do G20 e dos BRICS em 2025, colocamos o desenvolvimento justo e sustentável no centro das discussões”.
A respeito do tema da conferência em si, Lula defendeu que a sobrevivência das espécies migratórias depende de ação coletiva e sustentou que não haverá prosperidade duradoura na América Latina sem a proteção da biodiversidade da região.
“A mudança do clima, a poluição das águas, o extrativismo e as obras de infraestrutura sem planejamento adequado são desafios crescentes. Passadas quase cinco décadas, é natural que a Convenção precise se atualizar”, defendeu.
Lula disse ainda que a presidência brasileira da COP15 tem três prioridades. “Primeira, dialogar com os princípios consagrados pelas Convenções do Clima e da Identificação e da Biodiversidade, como as responsabilidades comuns, porém diferenciadas. Segunda, trabalhar para ampliar e mobilizar recursos financeiros, criar fundos e mecanismos multilaterais inovadores, principalmente para os países em desenvolvimento. Terceira, universalizar. A Declaração do Pantanal, que adotamos hoje, propõe que mais países se envolvam de maneira eficaz na proteção das espécies e das rotas migratórias.”
