Home
/
Noticias
/
Brasil
/
Advogado disse a Vorcaro que estava 'infernizando juiz' horas antes de sua prisão e mostrou prints
Advogado disse a Vorcaro que estava 'infernizando juiz' horas antes de sua prisão e mostrou prints
PF diz que informações sigilosas de inquérito foram vazadas, por ‘meios ilícitos’, ao banqueiro por servidores do BC e advogado e comprovam tentativa de fuga
Por Aguirre Talento/Vinícius Valfré/Estadão
13/03/2026 às 18:00
Atualizado em 13/03/2026 às 18:03
Foto: Divulgação/Banco Master/Arquivo
O banqueiro Daniel Vorcaro
Diálogos do telefone celular de Daniel Vorcaro mostram que seu então advogado Walfrido Warde fez contato telefônico diretamente com o juiz da 10.ª Vara Federal de Brasília, Ricardo Leite, horas antes do cumprimento da primeira prisão do banqueiro, em 17 de novembro do ano passado. Warde enviou a Vorcaro imagens da sua conversa com Ricardo Leite às 18h08 e disse ao banqueiro: “Estamos infernizando o cara”.
Para a Polícia Federal, a cronologia das conversas do dono do Banco Master no dia da prisão e nas semanas anteriores mostra que Vorcaro recebeu, por “meios ilícitos”, informações dos procedimentos internos de fiscalização do Banco Central e do inquérito sigiloso de Brasília e atuou, por meio do advogado, para impedir a própria prisão e fugir do País. Na ocasião, ele foi preso quando embarcava em um voo para o exterior.
Em nota, o escritório Warde Advogados afirmou que advogou em favor de Daniel Vorcaro e do Banco Master “absolutamente dentro da lei”. “Jamais participou de atos de obtenção de dados cobertos pelo sigilo legal ou policial”, diz a nota enviada à reportagem.
A defesa de Vorcaro disse que “entende que não cabe comentar conteúdos que decorrem de vazamentos ilegais de material sigiloso”. “Qualquer manifestação sobre informações obtidas dessa forma apenas reforçaria a disseminação de conteúdos cuja divulgação é, em si, objeto de apuração. Além disso, a comunicação entre cliente e advogado é protegida por prerrogativa legal e constitui garantia essencial do direito de defesa”, afirma a nota.
O jornal O Estado de São Paulo teve acesso a detalhes inéditos do celular do banqueiro. Esses fatos foram informados ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, que decretou a segunda prisão preventiva do empresário, cumprida na semana passada. Nesta sexta-feira, 13, a Segunda Turma do STF formou maioria para manter a prisão.
“Toda a dinâmica revela que Daniel Vorcaro tomou conhecimento prévio da futura operação policial, por meios ilícitos, seja através de servidores do BC, seja através de contato proveniente de Walfrido Warde. Então, passa a atuar em prol de sua defesa, visando frustrar a efetividade da atuação policial”, escreveu a PF, em trecho de relatório obtido com exclusividade pelo Estadão.
No dia 17 de outubro de 2025, servidores do Banco Central fizeram uma reunião com delegados da Polícia Federal sobre a investigação do Banco Master. Em 21 de outubro, Daniel Vorcaro registrou nas anotações do seu celular o nome de todos os delegados da PF que participaram dessa reunião. Ele também gravou o nome de procuradores do Ministério Público Federal que atuavam no caso.
Em uma outra anotação posterior, Vorcaro escreveu que recebeu as informações de seus “amigos no BC”.
No dia 16 de novembro, o banqueiro criou uma nova anotação com o nome do juiz da 10ª Vara Federal de Brasília Ricardo Leite e uma pergunta: “Vocês são próximos?”. Para a PF, essa anotação seria usada como uma mensagem de visualização única para envio no WhatsApp, mas não foi identificado o destinatário.
A informação chamou a atenção dos investigadores da PF. Em relatório de análise, a PF registrou: “O investigado pergunta a alguém, não identificado, se tal pessoa teria relação de proximidade (...). Como se tratava de inquérito sigiloso, a essa altura, no dia 16/11/2025, não haveria nenhuma razão ou meio lícito conhecido para que o alvo da investigação soubesse o nome e jurisdição”.
Às 7h28 do dia seguinte, Vorcaro recebeu uma mensagem de seu então advogado Walfrido Warde perguntando se ele poderia falar por ligação telefônica “para tratar de assunto importante”. Após essa conversa, ele pede a uma secretária para cancelar um compromisso: “Não marca mais a reunião porque agora mudei o roteiro”. Às 8h48, Vorcaro avisou ao seu advogado que já estaria agendando um voo para aquele mesmo dia, saindo de São Paulo.
Depois disso, o diálogo mostra que Daniel Vorcaro avisou a seu advogado que faria nas próximas horas um anúncio sobre a venda do Banco Master para o Grupo Fictor e explicou ter solicitado uma conversa urgente com o Banco Central para avisar sobre o negócio. No comunicado da operação, Vorcaro ressaltou que se tratava de uma transação privada, “com players complementares e de alcance global”. “O Banco Master, ao longo dos últimos meses, provou sua força e resiliência, superando desafios significativos”, disse. “Quem sairá ganhando serão os clientes”.
Para a PF, as conversas mostram que essa transação foi arquitetada artificialmente apenas para dar um argumento para a fuga do empresário ao exterior.
Vorcaro, então, conseguiu acessar o inquérito sigiloso que tramitava na 10ª Vara de Brasília por meio de um esquema hackeamento de sistemas. Ele usou o site O Bastidor, dirigido pelo jornalista Diego Escotesguy, para tornar pública a informação sobre a Vara onde tramitava o processo criminal sigiloso. Com base nessa publicação, na tarde daquele dia, Warde mandou uma petição por e-mail à 10ª Vara Federal.
O conteúdo chamou a atenção dos investigadores: o advogado dizia ao juiz que não era necessário decretar “medidas cautelares” contra Vorcaro — Ricardo Leite tinha proferido a decisão de prisão pouco antes de receber essa petição. Na época, essa ação da defesa do banqueiro já tinha despertado suspeita de vazamento das informações.
Diante da falta de resposta, Warde procura diretamente Ricardo Leite por contato telefônico. Às 18h08 desse mesmo dia, Warde envia a Vorcaro prints de uma conversa de WhatsApp que havia mantido com o juiz Ricardo Leite. Tratava-se de uma notícia sobre a venda do Banco Master à Fictor. Para a PF, isso foi mais uma demonstração que a transação era uma cortina de fumaça para impedir sua prisão. “Tomo a liberdade de encaminhar essa informação que tem relação com o nosso pedido de audiência”, escreveu Warde ao juiz. No print, não há registro de resposta de Ricardo Leite.
Após enviar o print a Vorcaro, Warde lhe diz: “Estamos infernizando o cara”.
Em nota, o escritório Warde Advogados afirmou que “as mensagens que revelam a tentativa de Walfrido Warde despachar com o juiz da causa não indicam nada além do exercício corriqueiro e combativo da advocacia em prol de um cliente”.
A operação policial só seria deflagrada no dia seguinte, pela manhã. Diante da movimentação de Vorcaro e de sua defesa, porém, os investigadores monitoraram seus passos e descobriram que ele estava a caminho de um jatinho particular no Aeroporto de Guarulhos para fugir ao exterior. Interceptado ao passar no raio-x, Vorcaro recebeu a ordem de prisão ainda no aeroporto, por volta das 22h.
Naquela ocasião, ele ficou 11 dias preso e foi solto por ordem do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1). Na decisão, a desembargadora Solange Salgado entendeu que a viagem ao exterior estava fundamentada e não foi uma tentativa de fuga. Após colher os novos elementos, porém, a PF informou a André Mendonça que os diálogos corroboravam a suspeita inicial de fuga e, por isso, mereciam a revisão da decisão do TRF-1.
Leia também: STF forma maioria para manter Vorcaro em presídio de segurança máxima em votação de 50 minutos
