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Brasil teve mais de 700 mortos em casos de violência política em 20 anos, diz estudo
Brasil teve mais de 700 mortos em casos de violência política em 20 anos, diz estudo
Por Ana Gabriela Oliveira e Lima Carolina Faria, Folhapress
07/02/2026 às 08:07
Foto: Reprodução/Arquivo
Ato em homenagem à vereadora Marielle Franco
No Brasil, 1.228 pessoas foram vítimas, entre o início de 2003 e 2023, de violência política letal, considerando assassinato, tentativa de assassinato e ameaças graves de morte, segundo um estudo da USP (Universidade de São Paulo) e do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento).
O levantamento avaliou a violência entre políticos —incluindo titulares, candidatos e aqueles que deixaram o cargo ou a candidatura em até cinco anos antes do crime— e ativistas. Das 1.228 vítimas, 760 foram mortas, 358 sofreram tentativas de assassinato e 110, ameaças graves de morte.
"Isso significa uma média anual de 61,4 casos, ou cerca de 5,1 por mês, um número extraordinariamente alto para uma democracia estabelecida", aponta o levantamento.
O estudo foi feito com base na coleta de dados extraídos de notícias sobre o tema no portal G1 (de 2010 a 2023) e no jornal O Globo (de 2003 a 2013), explica Angela Alonso, professora da USP à frente do projeto.
Foram selecionadas reportagens compatíveis com os três tipos de violência definidos pelo grupo de pesquisa, do Núcleo de Instituições Políticas e Movimentos Sociais do Cebrap.
A coleta automatizada foi feita com programação, associada a raspadores de notícias de código aberto. Foram testadas palavras-chave como "assassinato político" e "homicídio político" e encontradas mais de 100 mil notícias relevantes para a pesquisa, depois depurada pelos pesquisadores.
A consistência dos padrões encontrados, em consonância com outras pesquisas, "sugere que erros de mensuração não enviesam substancialmente os principais achados", mas que o total de ocorrência pode estar subrepresentado, o que para os estudiosos torna o cenário ainda mais preocupante.
A maioria dos ataques (63%) recaiu sobre os políticos, contrariando o senso comum de que estariam mais protegidos que ativistas (36% das vítimas) em razão da institucionalidade do cargo. O estudo considerou ativistas aqueles que trabalham em sindicatos, movimentos sociais, organizações e associações civis.
Pessoas sem cargo ou candidatura são os mais vulneráveis. Eles correspondem a 60% dos casos de violência, contra 31% daqueles com mandato e 8% dos candidatos.
Na classe política, a violência contra aqueles que atuam no nível municipal concentra 88% dos casos. Embora pese na proporção o fato de haver mais prefeituras e Câmaras Municipais que postos em níveis estaduais e federais, para os estudiosos a porcentagem indica a tendência, identificada em outros estudos, de que a "política local é particularmente violenta" no Brasil.
Por estado, ocorreram mais crimes contra políticos no Alagoas, com 20,1 casos por 1 milhão de eleitores, no Acre (16,2), Rio de Janeiro (11,4) e Mato Grosso (11,1).
Segundo os estudiosos, o resultado pode decorrer, no caso de Alagoas, de "dinâmicas enraizadas na competição política local, como disputas por recursos e contratos municipais". No Rio, os pesquisadores citam a atuação das milícias e do crime organizado.
No total da violência contra políticos, 47% das ameaças, tentativas de assassinato e assassinatos decorreram de disputas por cargos, poder e recursos públicos.
O grupo tem mais mortes nas cidades (83%) e em período de eleições municipais. Já os ativistas registraram mais mortes em áreas rurais ou florestais (72%), além de vulnerabilidade em pleitos nacionais.
O que mais impacta a segurança dos ativistas são conflitos por terra (72%). O número de mortes, tentativa de assassinato e graves ameaças é maior em Roraima (30,7 casos por 1 milhão de eleitores) e em Mato Grosso do Sul (19,8).
A alta em Roraima pode estar relacionada com conflitos por disputa do território yanomami, segundo o estudo. "[Além dos conflitos internos entre os yanomamis], também existem os casos em que eles são mortos por não indígenas. São conflitos fundiários ou por recursos naturais e conflitos de facções", explica Alonso.
Do total de assassinatos, 88% foram cometidos por arma de fogo, seguido de arma branca (6%). Para os estudiosos, as mortes sem contato físico direto com as vítimas indicam que a motivação não é vingança ou ódio.
"Os assassinatos políticos geralmente são planejados sistematicamente e executados profissionalmente. Dois fatores ajudam a explicar esse padrão: a disponibilidade e a normalização das armas de fogo e um mercado estabelecido para assassinos de aluguel", aponta a pesquisa.
O número de mortes consumadas atingiu os níveis mais baixos nos governos Lula 1 (média de 21,5 por ano) e Lula 2 (15,8), aumentou no final do governo Dilma 2, antes do impeachment, e seguiu em patamares altos nos governos Temer, incluindo o período como interino, e de Bolsonaro, apesar de queda em relação ao período anterior, potencialmente relacionada com a pandemia de Covid-19.
Para Alonso, o aumento no governo Dilma está associado ao momento de crise política que levou ao impeachment. Na transição para a direita, ela entende ter havido a intensificação de um discurso armamentista a favor da resolução de conflitos sem ajuda estatal. "Isso significa a sociedade resolver os seus conflitos à bala também", diz.
