Trump indica Kevin Warsh para assumir a presidência do Fed
Novo dirigente deve assumir cargo em maio
Por Isabella Menon/Folhapress
30/01/2026 às 17:45
Foto: Reprodução
O indicado de Trump para a presidência do Fed, Kevin Warsh
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou na manhã desta sexta-feira (30) Kevin Warsh como seu indicado para a presidência do Fed (Federal Reserve, o banco central dos EUA). O anúncio foi feito através de sua rede social Truth Social. Warsh ainda será submetido a uma sabatina no Senado e, se aprovado, deve assumir o cargo a partir de maio.
"Conheço Kevin há muito tempo e não tenho dúvida de que ele entrará para a história como um dos GRANDES presidentes do Fed, talvez o melhor. Além de tudo, ele é ‘central casting’ e nunca vai decepcionar", disse Trump.
Ex-diretor do Fed com raízes em Wall Street, Kevin Warsh esteve com Trump nesta quinta. Ele estava no páreo para o posto desde 2017, mas perdeu o posto para Powell. Para o mercado, ele tem uma postura considerada "hawkish" —jargão do mercado financeira considerada mais rígida no combate à inflação. O novo indicado ao posto já possui experiência no Fed, tendo trabalhado como governador da instituição entre 2006 e 2011.
Antes da abertura da bolsa de valores no EUA, o anúncio já gerou reação no mercado. Os índices de mercado futuro indicavam uma leve queda nas bolsas de valores americanas, de 0,37% (Dow Jones) a 0,44% (Nasdaq). Na abertura, a leve baixa continuou.
Já o índice DXY, que o compara a moeda uma cesta de outras seis divisas fortes, abriu em leve alta de 0,17% nesta manhã. No Brasil, o dólar comercial era cotado em R$ 5,2021, às 9h25, uma leve alta de 0,21%, após uma semana de quedas consecutivas do dólar.
Nas últimas semanas, Trump vinha sinalizando que a escolha do novo presidente do Fed estava próxima e afirmou ter entrevistado quatro finalistas para a função. "Todos são ótimos", disse o presidente em Davos, durante o Fórum Econômico Mundial, na semana passada. "O problema é que eles dizem que vão fazer uma coisa e fazem outra. É incrível como as pessoas mudam quando assumem o trabalho".
As declarações de Trump dialogam com os ataques recorrentes ao atual presidente do Fed, Jerome Powell, indicado pelo republicano em seu primeiro mandato, em 2017 —e reconduzido ao cargo pelo democrata Joe Biden, em 2021. Desde o início do segundo mandato de Trump, Powell tem sido alvo de críticas por resistir às pressões da Casa Branca por cortes mais agressivos na taxa de juros.
Entre os nomes considerados para a sucessão de Powell estavam Kevin Hassett, diretor do National Economic Council, quem Trump disse abertamente que sentiria falta na Casa Branca caso o nomeasse para o Fed. Também foram costados Christopher Waller, diretor do Fed; e Rick Rieder, executivo da gestora BlackRock. O processo de seleção foi supervisionado pelo secretário do Tesouro, Scott Bessent.
Em um relatório, o banco Goldman Sachs aponta que o novo nome pode enfrentar uma resistência do Senado, uma vez que o senador republicano Thom Tillis afirmou que vai bloqueará qualquer nomeado para o Fed até que a investigação sobre Powell seja resolvida. O banco relembra que a oposição de apenas um membro republicano no Comitê Bancário do Senado pode ser suficiente para travar a nomeação, caso não haja apoio dos democratas.
O banco também observa que, em comentários recentes. Warsh defendeu a redução das taxas de juros e o encolhimento do balanço patrimonial do Fed. Ele é descrito como um crítico ferrenho do atual modelo de "reservas amplas" utilizado para a implementação da política monetária.
O Goldman Sachs ainda relembra que, para Warsh, a abordagem atual do Fed em relação à regulação impõe custos de conformidade excessivos às instituições financeiras e coloca em desvantagem os bancos de pequeno e médio porte. Ele elogiou a postura adotada pela vice-presidente de supervisão, Michelle Bowman.
Em análise, Matthias Scheiber, gestor sênior de portfólio e líder da equipe de Multiativos, e Rushabh Amin, gestor da área de Soluções Multiativos da Allspring Global Investments, que gere mais de US$ 571 bilhões de ativos, avaliam que a nomeação tende a reduzir parte da incerteza que vinha pesando sobre os mercados.
Segundo eles, embora Warsh ainda dependa da confirmação do Senado para assumir o cargo, a definição do nome já contribui para melhorar o grau de previsibilidade e, de forma mais ampla, reforçar a confiança dos investidores.
Os gestores ressaltam, no entanto, que as preocupações com o duplo mandato do Fed — controle da inflação e estímulo ao emprego — e com a independência da autoridade monetária permanecem centrais.
Para Scheiber e Amin, as reações iniciais dos mercados são excessivamente de curto prazo para permitir conclusões definitivas sobre os impactos da indicação. Além disso, a nomeação de Warsh não implica, necessariamente, uma mudança imediata na condução da política monetária, uma vez que o conjunto dos membros votantes do Fed é visto como mais inclinado a uma postura monetária restritiva do que as posições públicas recentemente atribuídas ao indicado.
Expectativa do anúncio
Trump antecipou que o anúncio sobre o Fed ocorreria nesta sexta-feira, durante a pré-estreia do documentário "Melania", protagonizado pela primeira-dama Melania Trump. No tapete vermelho do evento, o presidente classificou o indiciado como "uma pessoa excepcional" e adiantou que "a escolha não deve surpreender. Muitos acreditam que poderia ter sido indicada já há alguns anos".
Segundo o presidente, novo presidente do Fed "trata-se de alguém muito respeitado, amplamente conhecido no mercado financeiro. Acho que será uma escolha muito boa —espero que seja".
O aviso do anúncio do nome aconteceu poucos dias após o Fed decidir manter a taxa básica de juros dos Estados Unidos na faixa entre 3,5% e 3,75%. A decisão era amplamente esperada pelo mercado, apesar da pressão pública de Trump por novas reduções e das investidas contra Powell.
A decisão desagradou Trump. "Deveríamos ter uma taxa substancialmente mais baixa agora que até esse idiota admite que a inflação não é mais um problema ou uma ameaça", escreveu o presidente no Truth Social. "Ele está custando à América centenas de bilhões de dólares por ano em despesas com juros totalmente desnecessárias e sem justificativa."
O parecer da primeira reunião deste ano interrompeu uma sequência de três cortes consecutivos, que levaram a taxa ao menor nível em três anos. A declaração desta quarta não ofereceu pistas sobre novas reduções.
O atual presidente Powell já foi chamado por Trump de "idiota" e "Mr. Atrasado Demais". Desde o retorno do republicano à Casa Branca, Powell tem sido alvo de ataques verbais e institucionais, incluindo a abertura de uma investigação criminal relacionada a uma reforma na sede do banco central, em Washington, orçada em US$ 2,5 bilhões.
Em nota, Powell afirmou ter "profundo respeito pelo Estado de Direito" e disse que ninguém —"certamente não o presidente do Federal Reserve"— está acima da lei. "Mas essa ação sem precedentes deve ser vista no contexto mais amplo das ameaças e da pressão contínua do governo", declarou. A manifestação gerou apoio até entre senadores republicanos que vinham evitando confrontar Trump.
As críticas persistentes de Trump ao comando do Fed alimentaram preocupações nos mercados financeiros à medida que se aproxima a escolha do novo presidente da instituição. Operadores temem que Trump opte por um dirigente mais suscetível a pressões políticas, em detrimento da condução da política monetária baseada em dados econômicos.
O presidente do Federal Reserve exerce um papel central na condução da política monetária dos Estados Unidos, com influência direta sobre o custo do crédito, os mercados financeiros globais e o ritmo de crescimento da economia americana. O cargo tem mandato de quatro anos e, por tradição, é exercido com autonomia em relação à Casa Branca.
A independência do Fed é considerada um dos pilares da credibilidade da política monetária americana. Interferências políticas na atuação do banco central costumam gerar volatilidade nos mercados, ao elevar incertezas sobre o controle da inflação e a previsibilidade das decisões sobre juros.
Desde que voltou à Casa Branca, Trump intensificou os ataques a Powell. Em abril do ano passado, afirmou que entendia mais de juros do que o chefe do Fed e disse que havia alguém na instituição que "não está realmente fazendo um bom trabalho".
Nesta quarta-feira, após o anúncio da decisão sobre os juros, Powell foi questionado sobre que conselhos daria ao seu sucessor. Ele mandou um recado para o sucessor em três pontos e disse que é precuso: manter distância da política eleitoral; prestar contas ao Congresso e trabalhar para construir relações com os supervisores do Fed; e respeitar os profissionais que atuam diariamente para garantir a missão independente do banco central.
