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Com Selic em 15%, taxa de juros real é a mais alta em 20 anos

Com Selic em 15%, taxa de juros real é a mais alta em 20 anos

Por Felipe Gutierrez/Folhapress

29/01/2026 às 06:46

Foto: Pedro França/Arquivo/Agência Senado

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Gabriel Galípolo

Com a manutenção da Selic, a taxa básica de juros da economia, em 15% ao ano, a taxa real, aquela que inclui na conta a expectativa da inflação nos próximos 12 meses, se mantém em cerca de 10,6%. Trata-se do patamar mais elevado desde maio de 2006, quando era 10,7%.

Os juros reais passaram 20 anos abaixo de 10% e só voltaram a ultrapassar esse patamar em julho do ano passado, quando a Selic chegou a 15%. Desde então, as expectativas de inflação começaram a diminuir (no último boletim Focus, a mediana é de 4% neste ano), o que eleva a taxa real.

O cenário de maio de 2006 tinha algumas semelhanças com o atual: a Selic estava em 15,25%, e a expectativa de inflação, em 4,1%.

O Copom (Comitê de Política Monetária) decidiu manter a taxa em 15% pela quinta vez. A escolha foi unânime entre os diretores.

Bernardo Carvalho, professor da FGV (Fundação Getulio Vargas) e colunista da Folha, afirma que no passado o patamar alto da taxa real era em torno de 7%, e que o patamar de 10% não é comum para os últimos anos da economia brasileira.

Carvalho afirma que os mecanismos de transmissão dos instrumentos da política monetária no Brasil são menos eficazes do que em outros países por dois motivos. Um deles é que aqui há muitas linhas de crédito direcionadas —por exemplo, habitação é financiada pela taxa da poupança, e empresas têm acesso a crédito do BNDES—, o que diminui o total de tomadores de recursos livres.

Mesmo quem não consegue linha especial não é tão afetado pela Selic, pois o spread bancário (diferença entre juros pagos pelos bancos ao captar recursos) costuma ser muito alto, e um aumento na taxa básica é pouco relevante se comparado ao patamar de juros do mercado.

Por isso, para que a política monetária tenha eficácia, o Banco Central precisa "dar uma porrada" nos juros, diz.

O economista também atribui os aumentos recentes ao medo do BC de perder credibilidade durante a transição de comando entre Roberto Campos Neto e Gabriel Galípolo.

Quando o último assumiu a presidência, havia expectativas –que Carvalho classifica como "completamente erradas"– de que ele afrouxaria a política monetária. Diante do risco de as expectativas de inflação "destrambelharem", o BC optou sucessivas vezes por elevar os juros em um ponto percentual, num movimento que Carvalho diz considerar excessivo.

O economista Ailton Braga, que é assessor técnico do Senado e já foi analista do BC, afirma que mesmo com a alta das taxas de juros reais, o gasto público primário de União, estados e municípios cresceu a um ritmo de 7% ao ano entre 2022 e 2024, e que esse impulso fiscal aumenta o consumo das famílias.

Ele diz que o mercado de crédito costuma ampliar a oferta quando há aumento de renda disponível, o que também dá impulso ao consumo.

A professora do Insper Juliana Inhasz diz que o ponto central da manutenção dos juros nominais e consequente alta dos juros reais é a inflação de serviços, que ainda é um ponto de grande preocupação.

"A alta de preços de serviços é resistente, ainda há expectativas desancoradas e o fiscal é um elemento de bastante transtorno", afirma ela.

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