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BC é alvo de ataques coordenados nas redes sociais por atuação no caso Master, aponta levantamento
BC é alvo de ataques coordenados nas redes sociais por atuação no caso Master, aponta levantamento
Monitoramento feito pela Febraban mostra pico de postagens dias antes da virada do ano, com foco em ex-diretor do Banco Central responsável por vetar negócio com BRB
Por Célia Froufe/Estadão
06/01/2026 às 18:00
Foto: Marcello Casal jr./Agência Brasil/Arquivo
Banco Central do Brasil
Instituições e autoridades envolvidas com a liquidação do Banco Master sofreram uma série de ataques nas redes sociais pouco antes da virada do ano. O movimento foi concentrado em 36 horas com picos muito claros em algumas contas que são conhecidas por alavancar novas celebridades, principalmente do mundo artístico, mas não teve o potencial de “furar a bolha” e viralizar para geradores de conteúdos mais tradicionais.
Uma série de postagens tentou colocar em xeque a credibilidade de órgãos públicos e privados, como o Banco Central e a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) em relação à operação de liquidação extrajudicial do Master, decretada em novembro pelo BC e que está sob o escrutínio do Tribunal de Contas da União (TCU).
Personagens como os presidentes dessas instituições — Gabriel Galípolo e Isaac Sidney — estão entre os citados, mas o principal alvo foi o ex-diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução da autoridade monetária Renato Dias Gomes - responsável pelo veto da oferta de compra do Master pelo Banco de Brasília (BRB).
Procurados, Renato Gomes, BC e Master não quiseram se pronunciar sobre o caso.
Levantamento feito pela Febraban repassado ao jornal O Estado de São Paulo mostra que o pico ocorreu no dia 27 de dezembro e somou 4.560 posts. Houve uma “redução significativa” da volumetria nos últimos três dias, com 132 publicações registradas nas 24 horas até o dia 5, todas provenientes do X.
Em diferentes publicações, há fotos montadas do ex-diretor com uma caixa de pizza - em uma conta com 25,3 milhões de seguidores - ou ao lado de um poste com fios emaranhados - em página seguida por 4,1 milhões de usuários -, o que seria uma ilustração sobre a situação em que deixou a situação do setor bancário quando seu mandato venceu, no último dia 31. Gomes era tido desde antes da liquidação como uma das vozes mais duras em relação à continuidade das operações do banco de Daniel Vorcaro.
Pessoas que acompanham o assunto de perto avaliam que há um método nessa comunicação pelas redes sociais. Uma das postagens, com a foto de Gomes com uma caixa de pizza nas mãos, traz o seguinte título: “Mais rápido do que uma pizza: Renato Gomes liquida banco em 40 minutos e joga conta bilionária no seu colo”.
“A gestão de Renato Gomes teria custado caro em algo que não se recompõe da noite para o dia: credibilidade, segurança jurídica e confiança institucional. Quando um órgão regulador deixa de dialogar, de explicar suas decisões e de sinalizar caminhos claros, todo o sistema sente. Bancos, investidores e o próprio mercado passam a operar no escuro, sem previsibilidade e com medo da próxima decisão relâmpago".
A análise feita pelo BC sobre a oferta do banco estatal por parte da instituição de Vorcaro, no entanto, demorou mais de cinco meses, uma vez que o veto ao negócio foi anunciado em setembro. Já a liquidação do Master foi decretada em novembro, com voto recomendado por outro integrante do BC: Ailton de Aquino, diretor de fiscalização.
Aquino foi convocado pelo relator do caso no STF, ministro Dias Toffoli, para a acareação do caso. Ao final, no entanto, ele somente prestou depoimento e foi liberado do confronto de versões com Vorcaro e o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa.
Procuradas, as contas “comuacin” e “alfinetei”, exemplificadas acima, não se manifestaram.
Alguns influenciadores foram às redes dizer que foram procurados para criticar a atuação da autoridade monetária no caso. O vereador de Erechim (RS), Rony Gabriel (PL), e a influenciadora Juliana Moreira Leite afirmam ter recebido propostas para compartilhar conteúdos em defesa do Master e contra o BC em seus perfis nas redes sociais.
Rony Gabriel diz em um vídeo publicado no Instaram que foi procurado no dia 20 de dezembro do ano passado por uma empresa que fazia “gerenciamento de reputação para um grande executivo”. A proposta era, segundo ele, que fossem produzidos vídeos para seus perfis nas redes sociais para “dizer que o Banco Master era uma vítima do Banco Central”.
‘BC nas páginas de fofoca’
O tipo de conteúdo em sites voltados a celebridades trouxe desconfiança até de alguns internautas, que fizeram questionamentos no campo de comentários. “De repente as páginas de FOFOCA resolveram falar sobre o Banco Central. Estranho”, escreveu um deles. “Do nada uma nota sobre a atuação do Banco Central numa página de fofoca. O ano eleitoral de 2026 promete”, trouxe outro.
Acusado de gestão fraudulenta, o controlador do Master foi preso pela Polícia Federal em novembro no aeroporto de Guarulhos, quando tentava embarcar para Dubai. Foi solto dias depois, mas precisa seguir medidas restritivas, como usar tornozeleira eletrônica.
Nesta segunda-feira, 5, o setor financeiro voltou a defender a atuação do BC no caso, após o TCU determinar inspeção na autoridade monetária para avaliar a liquidação do Master. O apoio foi reforçado em uma nota conjunta assinada por 11 entidades representativas de bancos, fintechs e cooperativas de crédito.
No comunicado, o grupo reitera a “plena confiança” nas decisões técnicas do BC nos âmbitos de atuação regulatória e de fiscalização. Também reforça a importância de preservar a independência institucional da autarquia, para manter os pilares de um sistema sólido, resiliente e íntegro.
Afetados avaliam como reagir
Afetados pelas postagens estão analisando cuidadosamente o conteúdo para avaliar se vão e qual vai ser a posição a ser tomada.
Para alguns agentes, é difícil identificar claramente quem está por trás desses disparos, que buscavam viralização, já que eram feitos em perfis com milhões de seguidores - alguns na casa dos 20 milhões. Se é praticamente impossível detectar os responsáveis pelos envios, não foi difícil apontar que muitos dos impulsionamentos foram feitos com robôs.
A reportagem apurou que a Febraban, por exemplo, estuda neste momento se usará os próprios posts para rebater as acusações. Para as diferentes fontes consultadas, porém, esta pode ser apenas uma armadilha. O uso das páginas oficiais das instituições também chegou a ser cogitado, mas da mesma forma, teme-se apenas aumentar o ruído.
Uma das possibilidades que estão sobre a mesa da Febraban é a de registrar o ocorrido com a Polícia Federal. A PF, que investiga suspeitas de ações fraudulentas no Master, é quem teria condições de fazer apurações das postagens feitas de forma coordenada e para manipular a opinião pública. A instituição e seu presidente, Isaac Sidney, foram muitas vezes citados no caso Master como sendo lideranças de um movimento a favor do BC e contra o STF e o TCU.
“Isaac Sidney e o episódio que colocou o Banco Central, a Febraban e o mercado em alerta”, trouxe uma das postagens. “Um banco foi liquidado em tempo recorde. O TCU pediu explicações ao Banco Central. O prazo venceu e a resposta não veio. Em vez de esclarecimentos, o sistema reagiu. A Febraban saiu em defesa do Banco Central, tratando a pergunta como ameaça. O que acharam?”, questionou na sequência.
O BC, no entanto, respondeu ao questionamento feito pelo TCU.
Foram pouco mais de 36 horas de ataques sistemáticos nos dias 28 e 29 que foram selecionados, capturados em tela e analisados em relatórios elaborados por especialistas. As publicações foram feitas no X, Facebook, YouTube e, principalmente, no Instagram.
Os conteúdos identificados apresentam, de acordo com especialistas, elementos que podem caracterizar a prática de ilícitos penais, em especial crimes contra a honra, considerando a forma de divulgação, o alcance, a reiteração e eventual atuação coordenada para amplificação artificial. Se acionar a PF, a Febraban deve buscar as providências cabíveis, a identificação de autores, coautores e eventuais responsáveis pela produção, publicação e disseminação dos conteúdos.
O que diz a legislação
A lei 7492, que define os crimes contra o sistema financeiro nacional, especifica que as penas para quem divulga informação falsa ou prejudicialmente incompleta sobre instituições financeiras podem levar à reclusão de dois a seis anos.
Conforme a professora de direito penal e direito penal econômico da Universidade Presbiteriana Mackenzie Jenifer Moraes, no entanto, o que é difícil muitas vezes é provar o dolo dos autores.
“A caracterização do crime depende do que foi dito e como foi dito. É preciso identificar que foi feito de maneira dolosa, que houve orquestramento para abalar a credibilidade das instituições”, explicou. Nestes casos, apenas a PF tem condições de fazer as investigações, de acordo com a especialista.
De qualquer forma, para Moraes, se o autor da postagem estava “apenas falando mal” de uma pessoa física ou jurídica, o delito pode ser classificado como um crime comum, como injúria ou difamação. “É crime do mesmo jeito”, explicou. A questão, segundo ela, é que geralmente a punição a essas ações é algo que varia muito, pois entra no campo subjetivo do magistrado que pegar o caso. “É comum o arquivamento por falta de prova do dolo”.
