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O sentimento velado que levou à tranquila vitória de Rangel ao TCM, por Raul Monteiro*
O sentimento velado que levou à tranquila vitória de Rangel ao TCM, por Raul Monteiro*
Por Raul Monteiro*
07/03/2024 às 08:09
Atualizado em 07/03/2024 às 08:09
Foto: Divulgação

A eleição do deputado estadual Paulo Rangel (PT) para a vaga de conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios, na última terça-feira, mostrou como o grupo situacionista liderado hoje pelo governador Jerônimo Rodrigues (PT) é encarado na Assembleia Legislativa. Depois de, semanas antes do pleito, ter dado declarações e demonstrações de que gostaria de ver o petista escolhido pelos deputados, o governador retraiu-se e não moveu palha em favor do correligionário. Foi a mesma postura adotada pelos senadores Jaques Wagner (PT) e Otto Alencar (PSD), que se limitaram a defender o nome de Rangel como o mais adequado para a posição.
Ao contrário do que disse parte da imprensa, não foi preciso nenhum trabalho forte de articulação junto à base por parte de Jerônimo, de Wagner e de Otto - e muito menos do ministro Rui Costa (Casa Civil) - para o desfecho da eleição, em que Rangel obteve 36 votos e o ex-deputado Marcelo Nilo (Republicanos), antigo aliado do PT que se aliou a ACM Neto (União Brasil) na última sucessão estadual, conseguiu o apoio de 22 parlamentares. Na verdade, o que tornou um vitorioso e outro derrotado foi o temor de um resultado que frustrasse a expectativa de sucesso que o governo e seus líderes passaram a alimentar para o pleito.
Apesar do tom soft de Jerônimo, afável até com os adversários, e do próprio Wagner, que raramente se altera, o governismo, maioria na Casa, passou a temer que, se o petista perdesse, fosse desencadeada uma onda de retaliações pelo governo difícil de suportar. Não que a vida sob a aba do Executivo, segundo relatos dos próprios deputados do governo, esteja sendo fácil ou repleta de vantagens que diferenciariam seu status em relação ao dos colegas oposicionistas. Nos tempos atuais, melhor é se apresentar como aliado com acesso a Jerônimo do que como adversário da máquina governista, o que não deixa de ser uma bela justificativa para a submissão política.
Quem melhor exibiu o tamanho do receio de ser tratado como oposição foi o governista PCdoB. Em sua única demonstração concreta de que não toleraria riscos para Rangel, o governo atuou para impedir que o deputado comunista Fabrício Castro conseguisse se inscrever na disputa. Naturalmente, a iniciativa levou o parlamentar à revolta e o partido, a profundo desapontamento. Mas, ao invés de votar em Nilo ou protestar anulando seus votos, a bancada decidiu se ausentar da votação. Como o processo foi secreto, não queria que eventuais votos imprevistos em Nilo fossem atribuídos a seus deputados e a uma traição ao governo.
Melhor, portanto, engolir o choro! Sob tal clima de temor, pouco se discutiu sobre o papel do TCM, histórico cabide de empregos e de aposentadorias para políticos, áulicos e agora parentes. Muito menos sobre o fato de que, com a eleição de Rangel, uma figura de excepcional trato com todos, o PT definitivamente assumiu o controle político sobre a Corte de faz de Contas, alerta de risco até mesmo para os aliados do governo sabiamente levantado por Nilo, de resto acusado de auto-engano ao acreditar numa vitória baseada, principalmente, num prestígio pregresso, corroído pela mudança de composição que a Assembleia sofreu desde que ele deixou seu comando, há oito anos.
*Artigo do editor Raul Monteiro publicado na edição de hoje da Tribuna.
