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Juristas repudiam voto secreto no STF, após Lula sugerir sigilo sobre decisões dos ministros

Juristas repudiam voto secreto no STF, após Lula sugerir sigilo sobre decisões dos ministros

Por Pepita Ortega/Estadão Conteúdo

08/09/2023 às 07:16

Atualizado em 08/09/2023 às 07:16

Foto: Divulgação

Plenário do STF

Após o presidente Lula defender que ‘a sociedade não tem que saber como é que vota o ministro da Suprema Corte’ - sugerindo que o teor das decisões seja mantido sob sigilo para evitar ‘animosidades’ -, advogados e juristas avaliam que ‘esse não é o melhor caminho’. Para eles, a recomendação do petista colide com princípios constitucionais. Consideram que ‘votos secretos’ de juízes não se enquadram na previsão da publicidade e transparência.

A superexposição de magistrados, especialmente dos ministros do Supremo Tribunal Federal, até é alvo de ressalvas dos advogados. Mas eles entendem que a fala de Lula foi ‘profundamente infeliz’.

Depois que o ministro Cristiano Zanin - seu amigo e advogado pessoal durante muitos anos, inclusive na Operação Lava Jato - foi criticado por manifestações em julgamentos no STF, o presidente disse. “A Suprema Corte decide, a gente cumpre, é assim que é. Eu, aliás, se eu pudesse dar um conselho, [seria] o seguinte: a sociedade não tem que saber como é que vota o ministro da Suprema Corte. Acho que o cara tem que votar e ninguém precisa saber, votou a maioria, cinco a quatro, seis a quatro, três a dois, não precisa ninguém saber.”

O advogado José Miguel Garcia Medina, doutor em Direito pela PUC-São Paulo, é taxativo. “Votos secretos não parecem compatíveis com a ordem constitucional brasileira. Os problemas são outros: excessiva exposição dos ministros em julgamentos televisionados, ausência de cooperação para que se alcancem resultados que expressem a opinião da Corte, e não a opinião pessoal de cada um deles, criando um ambiente de polarização.”

Medina pondera que ‘o apelo a argumentos morais parece ser mais decisivo para que exista a animosidade a que se referiu o presidente’.

Aílton Soares de Oliveira, advogado constitucionalista, é favorável a julgamentos de tese e não processos com ‘capa’. “É uma Corte de uniformização. Deveria resolver o que efetivamente é constitucional ou não. A afirmação de que a sociedade ‘não precisa saber como vota um ministro do STF’ não traz o espírito da Constituição, que é justamente o oposto da publicidade dos atos judiciais, com algumas exceções, mas a regra é a publicidade.”

IMPACTO SOCIAL

Aílton de Oliveira acrescenta que as decisões do STF trazem impactos na vida de toda sociedade. “Os pontos de vista de cada ministro trazem consigo suas formações intelectuais e morais, e esse é o próprio conceito de colegialidade. Observo que nenhum dos ministros do STF tem qualquer receio de animosidade social como falou o presidente. Para isso, há segurança e quem assume um cargo de tal relevância, e com a litigiosidade crescente no Brasil, não pode ter esse tipo de receio”, completa.

“Uma fala profundamente infeliz do presidente”, ele diz. “Diminui até a capacidade de gestão emocional dos ministros que são suficientemente capazes de gerir suas vidas e seus eventuais conflitos sociais. O STF é parte de um poder independente e nenhum presidente pode ter ministro do STF para chamar de seu”, afirma.

Para Lenio Streck, pós-doutor em Direito, a sugestão de Lula deve ser interpretada num contexto. “Ele não defendeu votações secretas. Ele se referiu à divulgação e à publicização dos julgamentos. Os julgamentos hoje possuem máxima divulgação, transmissão pela TV, enfim. É o Tribunal mais aberto do mundo. Então, face às respostas que isto provoca, por vezes os ministros da Suprema Corte são hostilizados”, observa.

Segundo Lênio, o que o presidente está propondo é um debate sobre o modo como a publicização das sessões e dos votos pode ser rearranjado. “Não me parece que os votos tenham que ser secretos, que tenham que se ‘fechar em copas’ para decidir. Eu particularmente sou a favor da ampla publicidade, da continuidade da TV Justiça. A única coisa que sugiro é uma limitação de tempo de cada ministro nos seus votos. Assim, não vejo maiores problemas na fala do presidente. É apenas alguém que está preocupado com o modo como hoje a opinião pública se manifesta com relação aos ministros quando eles colocam de forma transparente suas posições, inclusive com transmissão pela TV.”

Pedro Serrano, professor de Direito Constitucional na PUC-SP, também reconhece o excesso de exposição dos ministros do Supremo. “Não há exemplo no mundo de tribunais dessa natureza, que veiculem julgamentos por televisão, principalmente em casos penais. Nos Estados Unidos, o julgamento penal é feito com absoluta discrição. Nem a imprensa pode acompanhar.”

Serrano acredita que o modelo americano de votação secreta pode proteger os ministros, mas a Corte em si, não. “Mas acho muito positivo debater o excesso de exposição do Judiciário. É preciso realmente mecanismos de autocontenção nessa exposição. Eu diria que, por exemplo, televisionar julgamentos penais é um equívoco. Talvez tenha sentido dar mais transparência para julgamentos de ações constitucionais, onde são debatidas grandes questões políticas, morais, que dizem respeito à vida social”.

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