General líder do Sudão descarta trégua em conflito que já matou 330 pessoas
Por Folhapress
20/04/2023 às 16:02
Atualizado em 20/04/2023 às 16:02
Foto: Reprodução/Arquivo

O general Fattah al-Burhan, líder do Sudão, descartou uma trégua nos combates que tomaram o seu país enquanto o grupo paramilitar RSF (Forças de Apoio Rápido, em português) continuar "fechando rodovias e impedindo a livre circulação das pessoas", em suas palavras.
"Não há opção senão a solução militar", afirmou o militar à emissora Al Jazeera nesta quinta-feira (20). "Uma trégua real não pode ser implementada nessas condições."
Horas antes, seu rival e líder da RSF, Mohamed Hamdan Dagalo, disse à mesma rede de televisão que estava pronto para implementar uma trégua durante o Eid al fitr, feriado islâmico que marca o fim do período de jejum do Ramadã —neste ano, a celebração é nesta sexta (21). "Estamos falando de uma trégua, de corredores humanitários. Não estamos falando de sentar com um criminoso", acrescentou Hemedti, como é conhecido, sobre seu adversário.
Essa é mais uma das divergências dos antigos aliados que, juntos, derrubaram a ditadura de 30 anos de Omar al Bashir em 2019 e, agora, mergulharam o Sudão em uma onda de violência que já matou 330 pessoas e feriu outras 3.200 desde o último sábado, segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde). As Nações Unidas classificaram a situação atual do país de catástrofe humanitária.
A despeito dos apelos da comunidade internacional, as tentativas de cessar-fogo têm falhado sucessivamente enquanto sudaneses fogem do país em meio a combates. Nesta quinta, milhares de pessoas cruzaram para o vizinho Chade para fugir da violência da região de Darfur —ainda marcada por um conflito que terminou há três anos— e outros milhares deixaram a capital Cartum, uma das maiores áreas urbanas da África.
"Às 4h30, fomos acordados com o barulho dos ataques aéreos. Fechamos todas as portas e janelas por medo de alguma bala perdida", afirmou à agência de notícias AFP Nazek Abdalá, 38, morador de Cartum. Outro habitante da capital relatou que alguns bairros do centro cheiravam a cadáveres.
Os que tentam sair precisam passar por corpos, tanques e caminhões nas ruas, evitando as áreas mais perigosas da cidade de onde sobem espessas colunas de fumaça. Ao chegar na fronteira, os sudaneses podem passar ainda por revistas e perguntas de soldados da RSF e do Exército.
Em meio a esse caos, o Egito conseguiu, graças à mediação dos Emirados Árabes Unidos, repatriar 177 de seus soldados que estavam em uma base aérea no norte do Sudão. O Exército sudanês havia dito inicialmente que eles haviam sido capturados pelos paramilitares, mas depois corrigiu sua declaração e afirmou que havia usado mal a palavra "capturado". Outros 27 soldados egípcios foram entregues à Cruz Vermelha Sudanesa e aguardam o repatriamento da embaixada em Cartum.
Quem fica não consegue saber qual força comanda as instituições do país em meio à guerra de versões das duas facções e lida com apagões, falta de água e desabastecimento de alimentos e combustível. Segundo analistas, a RSF tem até 100 mil soldados, enquanto o Exército conta com aviões de artilharia e caça e controla o acesso a Cartum.
"Não há comida, os supermercados estão vazios. A situação não é segura, francamente, então as pessoas estão indo embora", disse um morador de Cartum à Reuters, que se identificou apenas com seu primeiro nome: Abdelmalek. Um litro de combustível custa agora US$ 10 (R$ 50,46), em um dos países mais pobres do mundo.
Segundo médicos afirmaram à AFP, há relatos de bombardeios em hospitais, que já sofriam com a falta de insumos. Em cinco dias, "70% dos 74 hospitais de Cartum e das áreas afetadas pelos combates ficaram fora de serviço", segundo um sindicato de médicos.
Em entrevista ao jornal britânico Financial Times, Burhan acusou os combatentes de saquear e atacar diplomatas estrangeiros e trabalhadores humanitários. No conflito, três funcionários do Programa Mundial de Alimentos da ONU foram mortos em Darfur, o que levou a organização a interromper suas operações no país —em tempos normais, cerca de um quarto da população do Sudão enfrenta fome aguda.
Washington disse ter indícios preliminares de que o RSF estava por trás de um ataque a seus diplomatas, e testemunhas dizem que homens armados do grupo paramilitar estiveram envolvidos em saques e ataques a trabalhadores humanitários.
A violência que se intensificou nos últimos dias não começou no último sábado. Mais de 120 civis morreram na repressão contra as manifestações pró-democracia dos últimos 18 meses. O início dos confrontos, porém, foi o ponto máximo das profundas divergências entre os líderes do Exército e as RSF —eles não chegaram a um acordo sobre como integrar a milícia às Forças Armadas.
A ONU, a União Africana, a Liga Árabe e outras organizações regionais devem se reunir novamente nesta quinta para pedir um cessar-fogo.
