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Tribunal manda soltar Alberto Youssef, mas juiz da Lava Jato dá nova ordem de prisão
Tribunal manda soltar Alberto Youssef, mas juiz da Lava Jato dá nova ordem de prisão
Por Catarina Scortecci, Folhapress
21/03/2023 às 16:00
Atualizado em 21/03/2023 às 21:13
Foto: Paulo Lisboa/Folhapress

A defesa do doleiro Alberto Youssef obteve na tarde desta terça-feira (21) um habeas corpus revogando o mandado de prisão preventiva determinado pelo juiz federal Eduardo Appio. A decisão que o libera da prisão é do juiz federal Marcelo Malucelli, do TRF-4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região).
De acordo com ele, o Código de Processo Penal estabelece que a prisão preventiva só pode "ser decretada pelo juiz, a requerimento do Ministério Público, do querelante ou do assistente, ou por representação da autoridade policial".
"Nesse contexto, revela-se ilegal a decretação da prisão preventiva de ofício", diz Malucelli.
Youssef tinha sido detido na segunda-feira (20) por ordem do juiz federal Eduardo Appio, que assumiu os casos da Lava Jato em Curitiba em fevereiro.
O juiz afirmava na decisão que o acordo de colaboração firmado na operação em 2014 não abrangia procedimento da Receita Federal acerca de outros crimes atribuídos ao doleiro.
A representação fiscal estava suspensa desde maio de 2020, por determinação da juíza federal substituta Gabriela Hardt. Ela havia acolhido uma manifestação do Ministério Público Federal que defendeu a suspensão pelo período de dez anos, na esteira dos benefícios obtidos por Youssef em seu acordo de colaboração premiada firmado na Lava Jato.
Naquele ano, o MPF argumentava que o acordo de colaboração premiada previa a suspensão das investigações em curso e os prazos prescricionais quando a soma das penas nas condenações transitadas em julgado [quando não há mais possibilidade de recurso] resultasse em 30 anos de prisão, no mínimo.
Na recente decisão do juiz Appio, contudo, o magistrado contesta a suspensão. Ele entende que a representação fiscal não integra o acordo de colaboração premiada firmado na Lava Jato. "O acordo firmado e homologado não afeta o destino da presente investigação criminal, de árduo trabalho da Receita Federal, que realizou uma profunda investigação", diz ele.
O juiz afirma que, se a colaboração premiada abrangesse a representação fiscal, ela poderia ser considerada "uma carta em branco genérica que envolveria toda e qualquer investigação criminal". "Não creio tenha sido este o escopo da lei ou mesmo a intenção do acordo então firmado", escreve Appio.
O magistrado cita que, de um total de 28 processos movidos contra Youssef, 13 estão hoje suspensos por dez anos, a pedido do Ministério Público Federal.
Em seu despacho, o juiz aproveita para criticar o acordo de colaboração premiada da Lava Jato, porque o doleiro já havia descumprido acordo anterior, feito em 2004, no Caso Banestado. Os dois acordos foram feitos sob o aval do então juiz Sergio Moro, hoje senador pela União Brasil-PR.
De acordo com Appio, a legislação estabelece "de maneira clara e solar" que "não se pode premiar quem já descumpriu um acordo anterior".
"Houve manifesta reiteração delitiva após este acordo de colaboração premiada em 2004, tendo o condenado sido preso, novamente, em 2014, também por decisão do então juiz federal e hoje senador pelo Paraná doutor Sérgio Moro", diz Appio.
Para o novo juiz da Lava Jato, o doleiro foi "um verdadeiro arquiteto de diversas organizações criminosas ao longo dos últimos 20 anos, sendo certo que a sua multireincidência revela sua incompatibilidade com o regime de liberdade provisória sem condições".
Youssef foi preso por volta das 18h30 desta segunda-feira em um condomínio onde morava, no balneário de Itapoá, no litoral norte de Santa Catarina. Ele foi levado por agentes da Polícia Federal de Joinville (SC) para a Superintendência da Polícia Federal em Curitiba ainda na segunda-feira.
Ao chegarem no condomínio, os agentes da PF foram informados pelo porteiro de que Youssef mantinha uma rotina de trabalho no porto privado de Itapoá. Ainda segundo o relato da PF, Youssef chegou no condomínio perto das 19h e ficou "bastante inconformado" com o mandado de prisão.
Ele foi encaminhado para a viatura, sem algemas, e chegou na capital do Paraná por volta das 21h.
Ao determinar a prisão do doleiro, o juiz Appio afirma em seu despacho que Youssef não resolveu todas as suas pendências com a Receita Federal. Também afirma que o doleiro não mantém atualizado seu endereço junto à Justiça Federal, o que demonstraria "certeza de impunidade".
O juiz afirma ainda que o doleiro está vivendo em uma situação "muito privilegiada em relação à imensa maioria dos cidadãos brasileiros" e "incompatível com todas as condenações já proferidas em matéria criminal". Ele cita que Youssef teria, por exemplo, tentando comprar um avião e um helicóptero.
O advogado de Youssef, Gustavo Flores, ainda não respondeu ao contato da reportagem.
