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Correios suspendem cartilha que dizia que 'olhar sedutor' de chefe em festa não era assédio
Correios suspendem cartilha que dizia que 'olhar sedutor' de chefe em festa não era assédio
Por Mônica Bergamo/Folhapress
26/01/2023 às 18:00
Atualizado em 26/01/2023 às 18:00
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Os Correios decidiram suspender a veiculação de uma cartilha interna que versava sobre prevenção e enfrentamento à violência no trabalho e trazia, entre outros pontos, orientações controversas sobre o que caracterizaria ou não assédio sexual no ambiente corporativo.
"Flerte", "paquera", "galanteios" e "proposta sexual feita sem insistência e sem ameaça ou pressão" figuravam entre as supostas atitudes que não caracterizariam assédio.
"A conduta inconveniente numa festa de trabalho, onde um colega ou chefe, após algumas doses a mais, faz comentários de duplo sentido e lança olhares sedutores", listava ainda a cartilha, ao citar condutas que supostamente não configurariam assédio. "Salvo se houver alguma ameaça concreta e ela for posta em prática mais tarde", ponderava.
Procurada pela coluna, a empresa pública afirma que o material foi elaborado pela gestão anterior —ou seja, sob Jair Bolsonaro (PL)— e se baseou em bibliografias externas.
"A estatal suspendeu a veiculação do documento e está revisitando as fontes consultadas para avaliar a necessidade de adequações", dizem os Correios, em nota.
Datada de outubro de 2022, a cartilha tem a chancela do Departamento de Relacionamento Organizacional e da Gerência de Relações do Trabalho dos Correios. Ela era disponibilizada internamente para os funcionários da estatal.
No início deste mês, seu conteúdo foi denunciado pelo Sindicato dos Trabalhadores em Correios e Telégrafos do Rio Grande do Sul. "O material não é apenas malfeito, é uma agressão a todas mulheres e homens que lutam diariamente contra a violência e o assédio, contra todas as vítimas que já sofreram e sofrem com o descrédito social em busca de justiça", afirmou a organização.
O teor da cartilha também foi reprovado por entidades que atuam em defesa dos direitos das mulheres, como Me Too Brasil. "A lamentável mensagem passada aos colaboradores continua reproduzindo uma lógica sexista da cultura do estupro que coloca a mulher obrigatoriamente como submissa a atos que são claramente enquadrados como assédio sexual no ambiente de trabalho", afirmou a organização.
