Professores se armam nos EUA para tentar defender alunos de massacres
Por Folhapress
01/08/2022 às 13:30
Atualizado em 01/08/2022 às 13:30
Foto: Maddie McGarvey/The New York Times/Folhapress

Mandi, professora do jardim de infância no estado americano de Ohio, já havia feito o que podia para proteger seus alunos contra um atirador. Mas, depois do massacre que matou 19 crianças e duas professoras em Uvalde, no Texas, ela sentiu um desespero crescente. Sua escola ocupa um prédio antigo, sem fechaduras automáticas nas portas das salas de aula e sem a presença de um policial no local. "A gente se sente impotente", diz. "Isso não é o suficiente."
Mandi decidiu que precisava de algo muito mais potente: uma pistola de 9 mm. Ela se inscreveu num treinamento que lhe daria autorização para portar arma na escola. Como outras pessoas citadas nesta reportagem, Mandi pediu para ser identificada apenas por seu primeiro nome devido às normas de seu distrito escolar, que limitam a divulgação de informações sobre funcionários que portam armas de fogo.
Dez anos atrás, os casos de funcionários de escolas que portavam armas eram muito raros. Hoje, após uma sequência aparentemente interminável de massacres, a estratégia virou uma solução promovida por republicanos e defensores dos direitos às armas. Para eles, autorizar professores, diretores e superintendentes a andar armados dará às escolas uma chance de resistir se forem atacadas.
Pelo menos 29 estados americanos autorizam pessoas que não sejam policiais ou agentes de segurança a portar armas em escolas, segundo a Conferência Nacional de Legislaturas Estaduais. Em 2018, o último ano para o qual há estatísticas disponíveis, dados federais estimavam que 2,6% das escolas públicas contavam com docentes armados.
É provável que essa porcentagem tenha aumentado desde então.
Segundo autoridades da Flórida, mais de 1.300 funcionários de escolas atuam como guardiões armados em 45 dos 74 distritos escolares do estado. O programa foi criado depois de um atirador matar 17 pessoas no colégio Marjory Stoneman Douglas, em Parkland, em 2018.
Pelo menos 402 distritos escolares do Texas, um terço dos existentes no estado, participam de um programa que autoriza pessoas designadas, incluindo funcionários de escolas, a portar armas de fogo. Outro programa, que requer mais treinamento, é usado por um número menor de distritos. A participação em ambos os programas cresceu desde 2018.
Nas semanas após o massacre em Uvalde, legisladores do Ohio tomaram medidas para facilitar o porte de armas por professores e outros funcionários de escolas.
A estratégia é fortemente contestada por democratas, organizações policiais, sindicatos de professores e defensores do controle de armas. Para todos eles, longe de resolverem o problema, os programas de porte de armas em escolas vão apenas criar um risco maior. Pesquisas passadas indicaram que a imensa maioria dos professores não quer andar armada.
A lei aprovada no Ohio é especialmente controversa porque requer apenas 24 horas de treinamento no uso de armas, além de oito horas anuais para renovação do certificado.
Existem poucos estudos sobre o porte de armas por funcionários de escolas, e as pesquisas feitas até agora encontraram poucas evidências de que seja eficaz.
Mas a ideia de armar funcionários escolares vem ganhando aceitação, sendo aprovada por uma pequena maioria de pais e adultos, segundo pesquisas de opinião recentes.
Dos cinco maiores massacres já registrados em escolas, quatro ocorreram nos últimos dez anos: em Newtown (Connecticut), Uvalde (Texas), Parkland (Flórida) e Santa Fé (Texas).
Foi essa possibilidade que levou Mandi e sete outros educadores a um estande de tiro situado entre campos de feno e estradas rurais em Rittman, no nordeste de Ohio.
Ao longo de três dias, Mandi treinou tiro ao alvo, aprendeu a amarrar torniquetes e a reagir a situações em que há um atirador ativo em determinado local. Sua presença no estande de tiro, disparando sua pistola sob o sol escaldante, forma um grande contraste com o que ela faz em sala de aula, onde dança e canta com seus alunos de cinco anos, distribui creme de barbear para atividades e recobre as paredes da sala com os desenhos das crianças.
Mandi, que tem cerca de 40 anos, chegou ao treino de tiro num clima de expectativa nervosa. Ela é professora há 12 anos e tem filhos. Queria ter certeza de poder portar sua arma em segurança quando está com seus alunos. "As crianças vivem me abraçando", comentou.
E há a perspectiva de enfrentar um atirador na vida real. Será que três dias de treinamento poderiam prepará-lo para o impensável?
Ela e os outros educadores vieram do Ohio e de lugares tão distantes quanto Oklahoma para fazer um curso de 26 horas do Faster Saves Lives, um programa de treinamento em armas para funcionários escolares. O programa é realizado pela Buckeye Firearms Foundation, organização que defende a Segunda Emenda da Constituição dos EUA e trabalha com um dos principais grupos de lobby de armas de Ohio. O grupo em questão, Buckeye Firearms Association, defendeu a nova lei estadual para funcionários de escolas.
A fundação estima que nos últimos dez anos já gastou mais de US$ 1 milhão (R$ 5,18 milhões) para treinar pelo menos 2.600 educadores a usar armas.
Sua abordagem coincide estreitamente com um argumento que já virou palavra de ordem da National Rifle Association e do lobby de armas: "A única maneira de barrar um bandido armado é com uma pessoa do bem armada."
Segundo essa visão, professores são o melhor exemplo de "pessoas do bem". "Entregamos nossos filhos aos professores todos os dias", explica Jim Irvine, piloto comercial e defensor de longa data do direito às armas. Ele é presidente da Buckeye Firearms Foundation e atua como voluntário na direção do programa Faster.
A filosofia deles é a de que salvar vidas durante massacres em escolas é uma questão de reação rápida e que as escolas não podem se dar o luxo de esperar pela chegada da polícia.
Na escola Sandy Hook, em Newtown, em 2012, a primeira ligação para o número 911 foi feita após cinco minutos, e os primeiros policiais chegaram à escola menos quatro minutos depois. Mesmo assim, 20 crianças e seis adultos foram mortos. Em Parkland, o atirador matou 17 pessoas em menos de seis minutos.
Mesmo em Uvalde, onde a polícia é criticada por ter ficado aguardando no local por mais de uma hora, o atirador teria disparado mais de cem projéteis nos três primeiros minutos. "O tempo é a única coisa que importa", diz Irvine. "É simples assim."
No distrito escolar onde Mandi trabalha, o superintendente determinou que os candidatos ao porte de armas precisam ser aprovados pelo conselho escolar. Além de fazer o treinamento Faster, eles têm que se reunir anualmente com o departamento do xerife. E podem ser tirados do programa caso as habilidades de tiro sejam consideradas insuficientes.
No programa Faster, boa parte do treinamento foca na habilidade com armas. O grupo passou horas treinando tiro ao alvo –com alvos próximos e distantes, usando a mão esquerda e a direita, com alvos circulares pequenos e silhuetas humanas em tamanho natural.
Os instrutores deram orientações técnicas e de segurança, cronometraram os disparos das pessoas e incentivaram os professores e administradores escolares a serem assertivos.
Ao término do programa, Mandi e seus colegas foram considerados aptos a portar uma arma na escola, segundo a nova legislação do Ohio. Eles integram uma força armada furtiva, crescente e um tanto experimental que está presente nas escolas. Os resultados estão longe de ser conhecidos.
Embora haja relatos sobre intervenções de cidadãos armados em massacres, como o caso recente num shopping no estado de Indiana, "isso é uma anomalia", afirma a estudiosa de massacres a tiros Jaclyn Schildkraut, professora adjunta de justiça criminal na State University of New York, em Oswego.
A maioria dos massacres termina quando o atirador é baleado ou subjugado pela polícia, se suicida ou foge do local.
Para Mandi, a decisão de andar armada em sala de aula pareceu uma solução melhor do que spray contra vespas ou uma meia cheia de pedras.
Ela contou que vai a estandes de tiros semanalmente para treinar. E, apesar de reconhecer que outras medidas importantes poderiam ajudar a prevenir os massacres em escolas, ela acha que não pode se dar ao luxo de esperar por mudanças. "Precisamos ajudar as crianças agora, neste momento", diz.
