Morre Cabo Anselmo, o mais conhecido agente duplo da ditadura militar
Por Felipe Bächtold/Folhapress
16/03/2022 às 18:16
Atualizado em 16/03/2022 às 18:16
Foto: Folhapress/Arquivo

Morreu nesta terça-feira (15) aos 80 anos o ex-militar José Anselmo dos Santos, conhecido como Cabo Anselmo.
A informação foi confirmada por um ex-advogado dele. O jornalista da rede Jovem Pan Jorge Serrão afirmou que o ex-militar, de quem era amigo, teve um mal súbito e foi sepultado nesta quarta (16) em Jundiaí (SP).
Anselmo foi o mais conhecido agente duplo da ditadura militar e afirmava que delatou militantes da esquerda para não ser morto.
Antes, havia sido figura de destaque na mobilização de marinheiros que antecedeu o golpe contra o presidente João Goulart, em março de 1964. Foi preso e cassado logo no início do novo regime.
Em 2012, teve negado pedidos de indenização feitos ao governo federal e para ser reintegrado à Marinha.
A Comissão de Anistia, ao rejeitar o pedido, pôs em dúvida desde quando o ex-militar passou a colaborar como o regime. O parecer citava, por exemplo, declaração do chefe de Inteligência do governo Goulart afirmando que Anselmo era um "agente provocador da CIA desde os eventos que antecederam o golpe".
O ex-militar afirmou em entrevista nos anos 1980 que fugiu da cadeia, em 1966, "pela porta da frente". Foi para o Uruguai e viveu no Chile.
Dias antes do golpe que instaurou a ditadura, marinheiros haviam se rebelado dentro de um sindicato, no Rio, em mobilização que havia começado com reivindicações salariais e trabalhistas.
O Ministério da Marinha queria a prisão dos rebelados pela quebra da hierarquia, mas o então presidente rejeitou a alternativa e anistiou os marinheiros. Um dos líderes dos rebelados era Anselmo.
A decisão do presidente foi mais um componente na crise política da época e desagradou o comando das Forças Armadas, que dias depois deflagraria o golpe.
Entre os delatados por ele a agentes do regime, estavam seis pessoas que foram mortas em um sítio em Pernambuco em 1973, incluindo sua companheira, a paraguaia Soledad Barret Viedma.
O relatório da Comissão de Anistia afirma que ele se aproveitou "de uma relação afetiva para encobrir seu papel de agente infiltrado", no qual contribuiu diretamente para a tortura.
Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo em 2009, ele disse que tinha um acordo para que Soledad fosse libertada na ação e pudesse viajar a Cuba.
Também negou que já atuasse a favor do golpe ainda no governo João Goulart: "Se eu fosse um sujeito da repressão, da CIA ou do diabo a quatro, você acha que estaria nessa condição que estou hoje?"
Em 2011, concedeu entrevista ao programa Roda Viva, na TV Cultura. Disse que vivia de ajuda paga por três empresários.
