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'Estou apenas tentando levar pessoas a Marte e libertá-las da chatice de dirigir carros', diz Elon Musk
'Estou apenas tentando levar pessoas a Marte e libertá-las da chatice de dirigir carros', diz Elon Musk
Por Richard Waters / Folha de São Paulo
16/12/2021 às 08:38
Atualizado em 16/12/2021 às 08:38
Foto: Aly Song/Reuters

Elon Musk diz que quer ser generoso com seus críticos. Mas depois de anos combatendo um exército de descrentes na indústria de automóveis e em Wall Street, é difícil para o executivo-chefe da Tesla conter a frustração.
Faz quase uma década que o Model S de sua empresa provou que os carros elétricos poderiam competir com os melhores em estilo e desempenho, e quatro anos desde que seu Model 3 levou a tecnologia a um mercado maior. Durante esses anos, Musk não apenas teve de construir um mercado para veículos elétricos quase sozinho, enquanto lutava contra a falência, como também travou uma batalha em curso com vendedores a descoberto em Wall Street e iniciou discussões com os órgãos reguladores.
Este ano lhe trouxe uma certa vingança, enquanto companhias que vão da Ford e Volkswagen à Mercedes-Benz claramente comprometeram seu futuro com os veículos elétricos. A Toyota se tornou a última na terça-feira (14), ao anunciar um investimento de US$ 35 bilhões (R$ 194,25 bilhões) na fabricação de veículos elétricos.
"Durante muito tempo, o resto da indústria automobilística basicamente chamou a Tesla e a mim de loucos e fraudes", disse Musk em entrevista ao Financial Times. "Diziam que os carros elétricos não funcionariam, que não poderiam alcançar a autonomia e o desempenho. E mesmo que o fizessem ninguém os compraria."
Musk acrescenta que os ativistas da mudança climática ajudaram a empurrar os fabricantes de carros na direção de uma tecnologia mais sustentável. Mas afirma que há um motivo predominante pelo qual eles finalmente se tornaram elétricos: "Até que começamos a tirar sua participação de mercado de modo significativo, eles não reagiram".
Ele não é o único com essa opinião. Bob Lutz, um ex-vice-presidente da General Motors e presidente da Chrysler que já duvidou das chances de sobrevivência da Tesla, hoje chama o impacto de Musk na indústria automobilística de "inacreditável —nada menos que incrível". Apontando suas incursões até nos mercados de carros de luxo europeus, Lutz diz: "É por isso que a Mercedes-Benz e a BMW têm tanto medo dele".
Elon Musk esteve em todo lugar este ano —e não só de maneiras que o distinguem como uma das mais consequentes, embora polêmicas, figuras dos negócios dos últimos tempos.
Armado com 66,3 milhões de seguidores, ele usou sua conta hiperativa no Twitter para promover a dogecoin, criptomoeda que começou como uma brincadeira e cujo nome é uma homenagem a um meme da internet que apresenta um cachorro shiba inu. Ele também continuou a espicaçar os reguladores, incluindo a Comissão de Valores Mobiliários (SEC), apesar de pagar uma multa de US$ 20 milhões (R$ 114 milhões) em 2018 depois que o órgão regulador o acusou de cometer fraude em títulos com seus tuítes.
Embora quase 800 mil americanos tenham morrido com o vírus, Musk, que fez 50 anos este ano, passou a pandemia criticando as restrições da Covid —e os políticos que o acusaram de não pagar impostos suficientes.
Mesmo alguns de seus maiores apoiadores reconhecem uma certa badalação em torno da Tesla. No meio de um boom no mercado de ações, sua avaliação superou a barreira de US$ 1 trilhão (R$ 5,7 trilhões) este ano, tornando Musk a pessoa mais rica do mundo —apesar de vender menos de 2% dos novos carros e caminhões do mundo.
Mas por trás do barulho, do frenesi especulativo e da aparente infração das regras, há uma conquista de grande substância. O FT está nomeando Elon Musk sua Pessoa do Ano porque ele provocou uma mudança histórica na indústria automobilística mundial, em direção aos veículos elétricos. Mesmo que a Tesla de alguma forma falisse no próximo ano —algo que, ao contrário de dois anos atrás, ninguém prevê hoje—, Musk teria transformado uma das indústrias mais importantes do mundo de maneiras que poderão ter profundas implicações para governos, para investidores e para o clima.
Em uma era muitas vezes definida por novas tecnologias, Musk reivindica ser o empresário mais realmente inovador de sua geração.
Os resultados da maneira incomum como Musk assume riscos e força limites não se resumiram aos carros. Sua companhia espacial privada, SpaceX, trouxe o voo espacial tripulado de volta ao solo americano no ano passado, pela primeira vez desde o ônibus espacial. Sua rede Starlink está perto de lançar o primeiro serviço de banda larga comercial via satélite do mundo, e um novo foguete gigante que poderá mudar os orçamentos das viagens espaciais, chamado Starship, aguarda seu primeiro teste de lançamento.
Musk às vezes parece tímido e tropeça nas ideias antes de fazer pronunciamentos abrangentes —muitas vezes sobre o futuro e como a tecnologia o reformulará. Suas declarações são apresentadas como fatos ousados, como que desafiando o ouvinte a contestá-lo. Para os admiradores, isso faz dele um visionário livre das restrições mentais que limitam outros empresários. Mas para os críticos ele personifica uma arrogância tecnocrática subjetiva que desconsidera seu impacto no mundo.
Então Musk acha que a meta que ele definiu para a Tesla há mais de 15 anos, de liderar uma revolução nos transportes, finalmente foi alcançada? "Estou muito encorajado pelo menos pelo que eles [outras fábricas de veículos] estão dizendo. Pelo menos nós temos a palavra.
"Nós fizemos a Tesla basicamente por desespero, não porque pensássemos que seria lucrativa, mas só para mostrar que podia ser feita", acrescenta ele.
Talvez —mas ela teve resultados financeiros espetaculares. Depois de lutar durante anos para provar que podia ser financeiramente viável, as margens de lucro da Tesla se tornaram surpreendentemente robustas, e muitos investidores decidiram apostar que ela vai liderar uma grande nova indústria global de veículos elétricos e autônomos.
Em um momento em que os tecnólogos e os bilionários se tornaram objetos de crescente desconfiança populista, Musk tem muitos críticos, mas ainda desfruta de um nível de aprovação pública mais alto que muitos. Isso pode ser explicado em parte porque sua marca pessoal se tornou tão entrelaçada com uma cultura popular influenciada por memes e games. Musk acha que é por causa das aspirações que seus produtos tentam realizar.
"Estou apenas tentando levar as pessoas a Marte, e permitir a liberdade de informação com a Starlink, acelerar a tecnologia sustentável com a Tesla, libertar as pessoas da chatice de dirigir carros", diz ele.
"Certamente é possível que a estrada para o inferno até certo ponto esteja pavimentada com boas intenções, mas a estrada para o inferno é principalmente pavimentada com más intenções."
