Home
/
Noticias
/
Brasil
/
Senadores suspeitam que PM que tentou negociar vacina seja 'infiltrado' do governo
Senadores suspeitam que PM que tentou negociar vacina seja 'infiltrado' do governo
Por Estadão Conteúdo
01/07/2021 às 21:47
Atualizado em 01/07/2021 às 21:50
Foto: Gabriela Biló/Estadão

O depoimento do policial militar Luiz Paulo Dominghetti Pereira à CPI da Covid nesta quinta-feira, 1º, levantou suspeitas de senadores de que ele pode ter sido um "infiltrado" do governo para prejudicar investigações sobre corrupção no Ministério da Saúde. Durante a sessão, o policial afirmou que o deputado Luis Miranda (DEM-DF), que havia denunciado irregularidades nas negociações da pasta, também estava envolvido nas negociações de imunizantes contra a Covid-19 da empresa Davati Medical Supply. Miranda, porém, o desmentiu e o celular do policial acabou apreendido pela Polícia Legislativa para que fosse periciado.
Dominghetti foi chamado à comissão após ter dito, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, que ouviu pedido de propina de US$ 1 por dose do ex-diretor de Logística do Ministério da Saúde Roberto Ferreira Dias, exonerado ontem do cargo.
"O Christiano (Alberto Carvalho, representante da Davati) me relatava que volta e meia tinha parlamentares, não sei quem, o procurando, e quem mais o incomodava era o deputado Luís Miranda, o mais insistente com a compra, negociação de vacinas", disse o policial.
Para comprovar a negociação, Dominghetti apresentou à CPI um áudio em que Miranda afirma ter um "potencial comprador e com potencial de pagamento instantâneo". Em um dos trechos, na versão do policial, o deputado diz que as negociações anteriores frustradas haviam desgastado "seu irmão", o que seria uma referência a Luis Ricardo Fernandes Miranda, chefe do setor de importação do Ministério da Saúde que denunciou suspeitas de irregularidades na compra da vacina indiana Covaxin.
No áudio, porém, a expressão "meu irmão" utilizada por Miranda soa como uma gíria que o deputado repete várias vezes ao longo da conversa. Na mensagem também não há menção a qual produto estava sendo negociado, nem para quem.
"Eu não vou mais perder tempo com esse comprador, porque desgastou muito, meu irmão, nos últimos 60 dias. É muita conversa fiada no mercado e aí eu nem me sinto confortável", diz o deputado na mensagem.
A gravação, de acordo com Dominghuetti, não foi enviada a ele, mas ao representante oficial da Davati no Brasil, Christiano Alberto Carvalho. O policial disse que recebeu o áudio após o depoimento de Luis Miranda na CPI semana passada.
Após ser citado, Miranda foi até a sala onde a CPI ouvia Dominghetti e teve de ser contido por colegas e pela Polícia Legislativa do Senado. Em entrevista a jornalistas logo em seguida, disse que o policial mentiu. Segundo o deputado, a mensagem tratava de aquisição de luvas, e não de vacinas, e foi enviada em outubro de 2020. “Trata de fornecimento de luvas entre uma empresa privada e a minha empresa privada”, disse Miranda. "A intenção é clara desde o princípio, é descredibilizar as testemunhas que de fato trouxeram evidência que existe corrupção dentro do Ministério da Saúde."
Para provar que o áudio não diz respeito à negociação de vacinas, o deputado do DEM apresentou uma ata notarial registrada pelo cartório do 4º Ofício de Notas do Distrito Federal, que comprova que o áudio é de outubro de 2020 e diz respeito à negociação para a aquisição de luvas, não de vacinas. O interlocutor do parlamentar na ocasião era Rafael Alves, que, segundo o deputado, atua na Davati. O telefone de Dominghetti foi apreendido para ser periciado.
O senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) solicitou a prisão de Dominghetti à presidência da CPI por falso testemunho. No entanto, o pedido foi negado por Omar Aziz (PSD-AM), que coordena a comissão.
O áudio provocou controvérsia na CPI. Os senadores suspeitaram da tentativa de colocar Miranda, que denunciou irregularidades no processo de aquisição de vacinas no Ministério da Saúde, como alguém que também teria intermediado negociações. "Não venha achar que aqui todo mundo é otário, nem pateta. Veja bem qual é seu papel aqui. Do nada surge um áudio do deputado Luis Miranda. Chapéu de otário é marreta, irmão", afirmou o presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM).
Também chamou a atenção dos parlamentares da CPI o fato de o senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ), que não integra a comissão, sair em defesa do policial que denunciou corrupção no governo. Em resposta a Aziz, Flávio disse que "o áudio é importante". Ao que o presidente da comissão reiterou que Miranda foi convocado para falar de novo à CPI e completou: "Se o deputado Luís Miranda está envolvido com maracutaia, pegou pernada, isso é problema dele, não é nosso".
O filho "Zero Três" do presidente, deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), também compartilhou nas suas redes sociais trecho do depoimento de Dominguetti em que ele sugere a participação de Miranda em negociações de vacina.
O senador Rogério Carvalho (PT-SE) pediu que o policial fosse considerado suspeito e seu depoimento não fosse aceito. "Resta no mínimo uma suspeição. Esse depoente que aqui se encontra, Dominguetti, foi plantado para desqualificar uma das principais linhas de investigação da CPI", disse o petista. Para ele, o governo federal teria combinado para que o policial desacreditasse Miranda. "Quem teria feito tal implante? Quem teria colocado o senhor Dominguetti aqui? Justamente quem se beneficiaria da desacreditação da denúncia de corrupção no Ministério da Saúde, obviamente, o próprio governo". E completou: "Esta é uma possibilidade que se aterroriza imaginar, que o Poder Executivo possa tentar intervir numa investigação autônoma do Poder Legislativo".
Dominguetti é cabo da Polícia Militar de Minas Gerais e trabalhou na segurança do governo de Romeu Zema (Novo) em 2019 e 2020. Nas suas redes sociais, Dominghetti também já fez postagens favoráveis a Bolsonaro.
A Davati, empresa que Dominghetti afirmou representar, chegou ao governo por meio de um oficial da reserva do Exército que integra a chamada "Abin paralela", grupo de informantes que Bolsonaro afirma manter para não depender dos órgãos oficiais de informação. O coronel Roberto Criscuoli disse à reportagem ter sido responsável por fazer a ponte entre a Davati Medical Supply e o Ministério da Saúde. A empresa nega que o policial seja seu representante.
Em e-mail à reportagem, porém, o responsável pela Davati nos Estados Unidos, Herman Cárdenas, admitiu que o nome de Dominghetti foi incluído em comunicações com o governo brasileiro sobre oferta de vacinas da AstraZeneca apresentada pela companhia. O nome de Dominghetti foi incluído “a pedido”, de acordo com Cárdenas, sem explicar quem teria feito a solicitação.
“Incluímos o nome do Sr. Dominghetti no FCO (oferta) que apresentamos ao governo brasileiro porque nos pediram e presumimos que ele fosse representante deles”, afirmou Cárdenas, por e-mail.
"A história tem focinho de estelionato, rabo de estelionato, pé de estelionato. Será que é estelionato? Vamos descobrir, mas chama atenção a repetição do procedimento do governo cheio de amadorismo, privilégio às relações de amizade e aos velhos esquemas. Manter o foco é essencial", afirmou Alessandro Vieira (Cidadania-SE), suplente na CPI.
