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CPI da Covid mira auxiliar de Pazuello citado em depoimento por suposta 'pressão atípica' em contrato de vacina
CPI da Covid mira auxiliar de Pazuello citado em depoimento por suposta 'pressão atípica' em contrato de vacina
Por Julia Chaib, Renato Machado e Vinicius Sassine/Folhapress
22/06/2021 às 06:47
Atualizado em 22/06/2021 às 06:47
Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

Integrantes da cúpula da CPI da Covid pretendem convocar o tenente-coronel Alex Lial Marinho, apontado em um depoimento como um dos autores de pressão sobre um servidor do Ministério da Saúdepara agilizar a liberação da Covaxin durante a gestão do ex-ministro Eduardo Pazuello (Saúde).
Também já foi apresentado requerimento para a quebra de sigilo fiscal, bancário, telefônico e telemático do militar, homem de confiança de Pazuello e doex-secretário-executivo da pasta Élcio Franco.
Reportagem da Folha revelou o teor do depoimento que um funcionário da pasta prestou ao Ministério Público Federal em que relata uma pressão atípica para a liberação da importação da Covaxin, vacina desenvolvida pela indiana Bharat Biotech e representada no Brasil pela Precisa Medicamentos.
A oitiva foi enviada à CPI da Covidjunto com o inquérito de qual faz parte.
Na avaliação de senadores, o depoimento representa o indício mais robusto de que o governo pode ter atuado em favor de uma empresa, no caso, a Precisa. Na noite de sexta-feira (18), a reportagem questionou o centro de comunicação social do Exército sobre a citação ao tenente-coronel Marinho, mas não houve resposta.
O contrato para a compra da Covaxin foi celebrado entre o Ministério da Saúde e a Precisa no fim de fevereiro, ao custo de R$ 1,6 bilhão. Estão previstas 20 milhões de doses e, segundo as cláusulas do documento, os lotes já deveriam ter sido entregues ao Brasil.
A Covaxin é a vacina mais cara adquirida pela gestão do general Eduardo Pazuello, ao custo de US$ 15 por dose.
O depoimento do servidor, ao qual a reportagem teve acesso, ocorreu no dia 31 de março deste ano, mesma data em que a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) vetou a importação em caráter excepcional da vacina indiana. A agência brasileira também recusou no início do ano a concessão do certificado de boas práticas de fabricação, documento que apenas foi emitido em junho.
O servidor afirmou à Procuradoria que a pressão para a liberação da Covaxin não se deu nos processos de importação anteriores àquele momento. Ele afirma que transcorreu normalmente, por exemplo, a importação das imunizações do consórcio CovaxFacility iniciativa da Organização Mundial de Saúde para desenvolvimento e distribuição de imunizações contra a Covid-19.
Ao ouvir o servidor, o MPF quis saber se existia pressão que indicasse algum tipo de favorecimento à empresa brasileira.
"Nesse caso, sim. [Sobre a] Covaxin eu tenho recebido muitas mensagens, de vários setores do ministério, da Secretaria Executiva, da própria coordenação onde eu trabalho, perguntando o que falta para fazer essa importação, inclusive sábado e domingo, sexta 11 horas da noite”, respondeu o servidor.
Ele foi questionado, então, se isso era usual, se ocorria em relação às outras vacinas contratadas pelo ministério.
“Não”, respondeu. “As outras ainda não estão na fase de importação, porque o contrato da Pfizer se inicia em abril e a Sputnik [V, vacina russa com produção prevista no Brasil pela União Química] só depois conseguiu registro ou autorização especial”, afirmou.
"No caso da Covax, que foi a que a gente fez, não houve esse tipo de ligação, de mensagem, que é o que a gente realizou e chegou ao Brasil, que eu tenho como exemplo", completou.
O servidor, cujo nome é mantido em sigilo pela CPI, relatou à procuradora que tomou seu depoimento que chegaram a pedir inclusive que ele atuasse de alguma forma junto à Anvisa para burlar alguns procedimentos, uma vez que a Precisa não teria encaminhado ainda toda a documentação necessária para a liberação da importação.
Os senadores do grupo majoritário da CPI da Covid, formado por oposicionistas e independentes, já haviam levantado desconfiança sobre possível favorecimento para a Precisa Medicamentos. O contrato foi fechado com grande rapidez, o que chama a atenção quando comparado com as negociações com a Pfizer e com o Instituto Butantan, por exemplo.
Além disso, o próprio presidente Jair Bolsonaro enviou uma carta ao primeiro-ministro indiano Narendra Modi, pedindo seus bons ofícios para ajudar o Brasil na aquisição de doses da vacina da AstraZeneca, ocasião em que cita a inclusão da Covaxin no plano nacional de imunização.
A carta foi enviada no início de janeiro, no momento em que representantes da Precisa estavam na Índia para negociar a compra dos imunizantes.
O depoimento do servidor, no entanto, é visto como a primeira evidência do uso da máquina pública em benefício da Precisa.
“Essa é a terceira fase da CPI, investigar o cumpliciamento existente entre agentes privados e agentes públicos para a aquisição de vacinas e para beneficiar empresas produtoras de hidroxicloroquina”, afirma o vice-presidente da comissão, Randolfe Rodrigues (Rede-AP).
“Já constatamos muita coisa: que houve omissão para imunizar os brasileiros, que houve deliberadamente a estruturação de um gabinete paralelo negacionista, só não sabíamos é que tinha corrupção na história. Agora estamos descobrindo que também houve isso”, completou.
Do lado da empresa, a vacina Covaxin também vai estar no foco da CPI nesta semana. Isso porque está agendado para quarta-feira (23) o depoimento do sócio-administrador da Precisa Medicamentos, Francisco Maximiano. Senadores querem questioná-lo sobre seu trânsito no Ministério da Saúde e com quais pessoas manteve contato direto para tratar da Covaxin.
Maximiano também teve seus sigilos bancário, fiscal, telefônico e telemáticos quebrados pela comissão.
Em nota, a Precisa afirmou que "jamais promoveu qualquer tipo de pressão e não contou com vantagens durante esse processo". Disse ainda que o contato com o servidor foi "de ordem técnica, para a confirmação de recebimento de documentação, seguindo o protocolo do Ministério.”
Em nota enviada à Folha, o Ministério da Saúde informou que respeita a autonomia da Anvisa e não faz pressão para aprovação de vacinas.
A pasta disse que "mantém diálogo com todos os laboratórios que produzem vacinas contra a Covid-19 disponíveis no mercado". No entanto, só distribui aos estados imunizantes aprovados pela Anvisa, que avalia rigorosamente a documentação dos fabricantes", completou. A pasta também ressaltou que não realizou a compra da vacina Covaxin e que não fez pagamentos ao laboratório.
A agenda da CPI para esta semana também vai colocar novamente no foco o gabinete paralelo, centro de aconselhamento do presidente Bolsonaro para assuntos da pandemia.
Nesta terça-feira (22) será ouvido o deputado federal Osmar Terra (MDB-RS), cotado diversas vezes para ser ministro da Saúde. O parlamentar defende publicamente a tese da imunidade de rebanho e chegou a afirmar que umas poucos milhares de pessoas morreriam de Covid-19.
Terra sempre teve acesso praticamente livre ao Palácio do Planalto.
Na quinta-feira, será a vez da oitiva de Filipe Martins, assessor internacional da Presidência. Ele também é apontado como integrante do gabinete paralelo.
O comando da CPI também confirmou nesta segunda-feira (21) que o depoimento do empresário bilionário Carlos Wizardficou agendado para o próximo dia 30.
O empresário, apontado como membro do gabinete paralelo, faltou ao seu primeiro depoimento na comissão, alegando que estava fora do país. A CPI chegou a ir à Justiça solicitando a apreensão do passaporte e sua condução coercitiva.
