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Em busca de protagonismo diplomático, Congresso ouve hoje Ernesto Araújo sobre atraso de vacinas

Em busca de protagonismo diplomático, Congresso ouve hoje Ernesto Araújo sobre atraso de vacinas

Por Estadão Conteúdo

24/03/2021 às 11:08

Atualizado em 24/03/2021 às 11:08

Foto: Romério Cunha/VPR

Ernesto Araújo

Em mais uma forma de pressão sobre o governo Jair Bolsonaro, o Congresso Nacional busca dar mais protagonismo à diplomacia parlamentar e vai interpelar nesta quarta-feira, dia 24, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. O chanceler vai falar, por videoconferência, na Câmara dos Deputados, durante a manhã, no Senado, à tarde.

Os congressistas cobram explicações do trabalho do Itamaraty para obtenção de vacinas, após seguidos atrasos enfrentados pelo governo. A expectativa é de um cenário adverso. O ministro é contestado por congressistas do Centrão que dão as cartas nos bastidores do Legislativo e já pediram reiteradas vezes sua demissão em público.

Em paralelo, parlamentares da cúpula da Câmara dos Deputados e do Senado passaram a ampliar a interlocução com países estrangeiros em busca de vacinas, para tentar conter a pandemia da covid-19. Nesta terça-feira, dia 23, o Senado aprovou uma moção de apelo internacional a órgãos multilaterais, na tentativa de obter 100 milhões de doses. O documento será enviado às Nações Unidas, G20, Organização Mundial da Saúde (OMS) e Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), além de farmacêuticas, governos e parlamentos estrangeiros.

Os parlamentares cobram ação do Itamaraty e do Palácio do Planalto e reconhecem o risco que o País passou a representar, como alertou a Organização Mundial da Saúde (OMS). O Brasil se tornou celeiro de uma nova cepa do coronavírus e bateu nesta semana recorde de novas mortes e infecções. O Brasil superou 3 mil mortes registradas nas últimas 24 horas e está prestes a atingir 300 mil óbitos.

Na moção, os senadores afirmam que a pandemia no Brasil representa “risco real” para o mundo. A autora do requerimento, a senadora Kátia Abreu (Progressistas-TO), disse que o ritmo da pandemia “impõe medo e compromete a tranquilidade e segurança de todos os países”. Na segunda-feira, dia 22, deputados do PSOL denunciaram à OMS a “inoperância” do governo e afirmaram que o Brasil virou um “laboratório” de novas cepas, uma ameaça sanitária global. Eles apontaram o isolacionismo da política externa, e pediram, além de cooperação internacional, a instalação de um comitê de monitoramento do País.

Em entrevista exclusiva ao Estadão, Ernesto Araújo combateu essa ideia. Ele disse considerar que a vacinação vinha “relativamente bem” e que era “terrivelmente injusto” o País ser visto como uma ameaça global. “Isso está sendo criado por pessoas aqui que têm interesse em denegrir tudo que o presidente faz”, disse o ministro.

Na última sexta-feira, dia 19, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), fez um pedido de socorro em carta à vice-presidente dos Estados Unidos, Kamala Harris, pedindo autorização especial para comprar milhares de vacinas da AstraZeneca/Oxford estocadas e ainda sem uso no país. Ele afirmou que o Brasil era o “atual epicentro” da pandemia e representava “risco ao Ocidente”. Logo depois, o Itamaraty divulgou que já vinha negociando acesso ao estoque excedente norte-americano desde o dia 13 de março, mas “em silêncio”.

O presidente da Câmara, deputado Arthur Lira (Progressistas-AL), manteve recentes conversas com os embaixadores da China, Yang Wanming, e da Índia, Suresh Reddy, países-chave na produção de insumos médicos, medicamentos e vacinas. Os parlamentares têm dito a agentes estrangeiros que o governo não é formado somente pelo poder Executivo, numa tentativa de isolar Bolsonaro e dar protagonismo à diplomacia parlamentar.

O movimento do Congresso sobre a política externa não se restringe à cúpula do Congresso e coincide com a chegada de dois parlamentares experientes e mais hostis ao governo Bolsonaro à presidência das Comissões de Relações Exteriores da Câmara, Aécio Neves (PSDB-MG), e do Senado, Kátia Abreu (Progressistas-TO). Até o ano passado, os parlamentares à frente das comissões eram governistas, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente e amigo de Ernesto, e o senador Nelsinho Trad (PSD-MS).

Ernesto falará aos deputados em audiência na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional, em acordo firmado com Aécio, autor do pedido. Para o tucano, o Brasil tem se "distanciado" de certos países no governo Bolsonaro, e o Itamaraty precisa reafirmar a tradição de “tolerância e equilíbrio”. Aécio defende que os deputados assumam a responsabilidade de sanar lacunas, quando necessário. No Senado, o chanceler falará por convite aprovado após um requerimento de convocação do senador Fabiano Contarato (Rede-ES), que considera o desempenho da diplomacia bolsonarista um “fiasco” - “aquém da história e das possibilidades do Itamaraty”.

Desde o início do governo, Ernesto tem se antecipado e atendido os pedidos de deputados e senadores por explicações nas comissões. Assim, evita a aprovação de requerimento de convocação, que ele não pode recusar - se o fizer, fica sujeito a responder por crime de responsabilidade.

A Câmara e o Senado vão ouvir o ministro depois de contatos prévios com Kátia e Aécio. Nas últimas semanas, o ministro recebeu em audiência a ex-ministra da Agricultura e ex-presidente da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) e conversou por telefone com o ex-candidato à Presidência tucano e ainda influente no PSDB. Diplomatas aliados ao chanceler reconhecem que ambos são parlamentares habilidosos e buscam uma exposição positiva, por isso esperam mais embates do que em audiências anteriores no Congresso.

Por meio de diferentes representantes políticos, setores do agronegócio já pediram a demissão do ministro, por entenderem que ele pode prejudicar os negócios. Já o PSDB era o partido à frente do das Relações Exteriores antes do governo Bolsonaro. Os dois últimos chanceleres foram o senador José Serra (SP), e o ex-senador Aloysio Nunes Ferreira - ambos são críticos recorrentes da diplomacia bolsonarista, assim como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. No ano passado, o ministro os chamou de “paladinos da hipocrisia”, por causa de um manifesto em que se opunham, ao lado de outros ex-ministros, à atuação da chancelaria.

Histórico. No ano passado, Kátia Abreu foi a responsável por articular o mais duro golpe do Congresso em Ernesto. Irritada com a falta de explicações sobre impactos do desmatamento da Amazônia no Acordo Mercosul-União Europeia, tratado de interesse do agronegócio, ela moveu nos bastidores o plenário do Senado a rejeitar uma indicação do Itamaraty, algo raro. Aliado de Ernesto, o embaixador Fabio Mendes Marzano, secretário de Assuntos de Soberania Nacional e Cidadania, foi rejeitado para o cargo de representante do País nas Nações Unidas, em Genebra, na Suíça.

Tanto no meio diplomático quanto no político, a rejeição do embaixador, um diplomata reconhecido como competente pelos pares, foi interpretada como um recado de insatisfação com os rumos da política externa bolsonarista. O ex-senador Major Olímpio (PSL-SP), morto em decorrência de complicações da covid-19 na semana passada, chegou a mandar o chanceler para o “inferno” na tribuna do Senado.

Aécio também tentou se movimentar para emparedar o ministro antes. Em maio de 2019, ele foi um dos autores de requerimento para ouvir Letícia Catelani, aliada de Ernesto, à época demitida da Diretoria de Negócios da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil). Ao sair do governo, a ex-diretora relatou suposta pressão para manter “contratos espúrios”. Ela nunca chegou a ser de fato interrogada, mas seu convite serviu como manobra operada por Eduardo Bolsonaro para evitar a convocação do chanceler para explicar demissões na Apex.

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